Boku no Hero Academia

Então, você gostaria de ser um herói?

“Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?”

Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 13

Bem-vindos às noites de segunda-feira do Gyabbo!, onde os bizarros são normais!

Há muito tempo que a SHONEN JUMP não via uma leva de novatos tão bem posicionada em suas páginas! Por anos e anos séries novas chegavam e desapareciam rapidamente. Mesmo quando conseguiam sobreviver, não faziam grande sucesso – nem chegando perto de se tornarem um dos pilares da revista.

Isso tem preocupado um bocado os editores. Como todos que conhecem um pouquinho da história da JUMP já sabem (sobretudo se leram ESTE post), quando um dos grandes medalhões termina, a revista amarga fortes quedas. Naruto é um dos primeiros pilares atuais que está despedindo-se e os editores estão em pânico, já pensando em quanto a tiragem da revista vai cair a partir da edição #51 (porque vai cair…). One Piece ainda vai demorar um bocado para acabar (isso se o autor não tiver um treco no meio do caminho.). E Bleach, bom… Acho que esse já não é mais um dos grandes sustentadores da revista há um bocado de tempo.

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Sem falar que séries mais recentes que tornaram-se grandes hits ou já foram embora (Kuroko no basket), ou são publicadas erraticamente (Hunter x Hunter) ou já perderam seu hype (Toriko). Enquanto isso a concorrência avança com séries como Shingeki no Kyojin – que poderia ter sido da JUMP – e Tokyo Ghoul.  Será que estaria na hora dos editores começarem novamente a afiar suas facas de harakiri?

Não, nem tudo está perdido! Ansatsu Kyoushitsu e Shokugeki no Sōma, ambos de 2012, são dois grandes sucessos atuais da JUMP, prometendo segurar a tiragem do semanário quando o ninja laranja se for. Dos títulos lançados em 2013 não tivemos nada digno de nota, mas pelo menos um dos novatinhos deste ano de 2014 tem chamado a atenção. Hinomaru Zumou, já resenhado AQUI, tem conseguido posições muito altas dentro da revista, embora as vendas do seu primeiro volume tenham sido inexplicavelmente baixas – sem falar no leve hate que a obra tem recebido por parte de alguns leitores ocidentais que não estão gostando nem um pouco de ver japas gordos com “fraldinhas”.

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“Você vai ou não falar de Boku no Hero?!” Calma! Esta introdução foi necessária para situarmos a situação de forma mais abrangente e entendermos melhor a JUMP atual: ela precisa, desesperadamente, de novos sucessos. E novos sucessos grandes! Ansatsu e Souma podem segurar a peteca por enquanto, mas não para sempre! E Zumou precisa, urgentemente, melhorar suas vendas.

O desempenho da última leva de novatos neste mês de setembro dá vontade de chorar (Juudouzu,  Hi-Fi ClusterSporting Salt, se sobreviverem por mais uns dois meses, será muito).  E a penúltima safra, a de julho, parece ter sido feita sobre encomenda para fazer sucesso: os três eram Battle Shonen, o gênero que mais fez, e ainda faz, sucesso na JUMP. Porém dois deles (Mitsukubi CondorYoakemono) já estão despedindo-se com um coro de vaias. Mas… sim!, um deles sobreviveu e tem alcançado posições razoavelmente altas no ranking.

Agora sim! Vamos falar de Boku no Hero Academia, ou ainda “My Hero Academia“. Super-resenha, ativar!

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A série é criação de Kouhei Horikoshi, um autor que já teve dois fracassos anteriores na JUMP (Oumagadoki Zoo e Barrage), mas que volta com prometendo dar tudo de si. Boku no Hero é uma série de porradaria e comédia, claramente inspirada nos comics e séries japonesas antigas (que também eram inspiradas nos enlatados americanos). Conta o drama do jovem Izuku, um rapaz completamente normal que sonha em ser um super-herói.

Peraí, eu disse “normal”? Não… no mundo de Boku no Hero o “normal” é ser superpoderoso!

80% da população mundial nasce com superpoderes, tipo o gene mutante dos X-Men. Apesar de tudo, grande parte das pessoas vive uma vida tranquila, sem envolver-se em batalhas. Mas é claro que existem aqueles que fazem uso dos seus superpoderes para o mal e para impedi-los, existem os Heróis. E todos eles precisam entrar numa academia para melhor desenvolver os seus poderes e defender o mundo.

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Izuki também quer isto. Ele também quer se tornar um herói. Mas o problema é que ele não pode. Num tremendo golpe de azar, apesar de ambos seus pais terem superpoderes, ele nasceu sem nenhum.

O primeiro capítulo mostra o grande drama de Izuki. Sofre constante bullying dos garotos superpoderosos da sua classe – que são a maioria – e é constantemente desencorajado por tudo e todos de tentar seguir a carreira de herói.

Aliás, “desencorajado” não seria bem a palavra: é impossível! Ele nunca vai ser um herói sem superpoderes (ou sem “individualidade”, que é como os superpoderes são chamados na série). Mas teimando contra a constatação óbvia, o rapaz quer porque quer ser um herói. Para isso ele tenta espelhar-se em seu super favorito: All Might. E, por uma coincidência do destino, ele acaba encontrando-se com o ídolo.

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All Might é basicamente um herói clássico clichê: fortão, bonitão, com um grande sorriso, distribuindo autógrafos e aconselhando às crianças a sempre escovarem os dentes. Izuki é atacado na rua por um vilão e All Might salva-o. Encantado, o garoto desesperadamente quer saber mais sobre seu ídolo, mas este parte voando… num ato desesperado o garoto o segue porque quer ouvir, da boca do seu maior herói, uma palavra de consolo ou incentivo. Tudo o que ele precisa para seguir ou desistir de vez do seu sonho.

Desnecessário dizer que descobrimos, logo nestas primeiras páginas, que All Might não é aquilo que pensam dele. Ou pelo menos não é mais.

Na metade final do capítulo temos o famoso plot que já era esperado de qualquer mangá estreante da JUMP: ocorre uma crise e o personagem principal tem que fazer alguma coisa para mostrar que, apesar de tudo, é alguém que pode superar as dificuldades. Dentro das suas possibilidades, Izuki consegue salvar o dia. Assim, uma luz no fim do túnel se abre: existe uma forma de ele se tornar super-herói, mas isso você só vai descobrir lendo.

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A arte de Kohei Horikoshi é bem feita em um estilo cartunizado. Seu traçado é grosso e expressivo, suavizando e melhorando conforme as edições passam. As cenas são muito dinâmicas e em vários momentos as páginas “sangram” de tensão. Não é um estilo fácil de se gostar na primeira olhada, sobretudo quando prestamos atenção no visual esquisito de alguns personagens. Mas vá lá: são super-heróis, a gente dá um desconto.

A influencia direta dos comics americanos é evidente – como podem ver, temos de tempos em tempos um toma-la-da-cá dos dois mercados (não entendeu? Leia ESTE post). De fato, podemos quase pensar que esta série é meio que uma versão dos X-Men adolescentes: um bando de pirralhos superpoderosos que vão até a Escolinha do Professor Charles Xavier para aprenderem a controlarem-se. A diferença é que Boku no Hero foca-se na comédia e, às vezes, no dramalhão, chegando a ser um pouco irritante a choradeira do protagonista em torno de realizar seu sonho custe o que custar.

Boku no Hero

Fico feliz em ver um título centrado em super-heróis estar começando a fazer sucesso na JUMP, mas não… eu não compraria.

Primeiramente, porque eu já li muitos comics americanos (e ainda leio) que fazem uso deste gênero de super-herói zoação. O filme americano Escola de Super-Heróis tem uma pegada parecida. A quase boa mini-série Freshmen, da Top Cow, também abordou algo semelhante. A série The Boys, da Dynamite, é outra que brinca com os clichês do gênero, mas de uma maneira mais pesada. Até mesmo títulos”sérios” da DC Comics e da Marvel costumam, de vez em quando, fazer referência ao quão ridículo (e divertido) é o conceito de super-herói. Diabos, mesmo o mangá One Punch Man segue este gênero – e eu não duvidaria que o Horikoshi é grande fã do título.

Ou seja: eu já vi Boku no Hero no Academia antes. Mas só porque eu já conheço muitos títulos do mercado americano. Se você não conhece, esta série pode te surpreender.

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Boku no Hero é um mangá bem bizarro e, talvez por causa disso, pode tornar-se um grande sucesso na JUMP – que, nos últimos tempos tem direcionado seu amor às séries mais “inusitadas”. Tal qual seu protagonista, este título não tem nenhum “superpoder”, como Originalidade, Autor de Sucesso ou Roteiro Incrível. Mas ele entrega um arroz-com-feijão bem-feitinho, tal qual o outro novato de 2014, Zumou, faz. E talvez, nestes tempos de desespero da JUMP, os editores estão esquecendo de incentivar seus autores a fazerem exatamente isto: o básico. Talvez por esta razão tem tanto novato vazando cedo da revista.

Desejo muito sucesso ao título e espero que ele melhore ainda mais.

Para o alto e avante!

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