[Coluna Hanyan #4] Helter Skelter

Olá!

Em primeiro lugar gostaria de pedir desculpas pelo atraso da coluna. Eu me enrolei com alguns problemas pessoais/profissionais e o texto acabou atrasando e maio ficou sem post, sinto muito. Mea culpa.

Para escrever a nossa caríssima Coluna Hanyan me inspirei no que acredito que será o lançamento mais legal de 2013 nos EUA. Então, senhoras e senhores, hoje é dia de Helter Skelter!!

helterskelter_pg004_005 editedPara quem não é familiarizado com o termo, “helter skelter” originalmente é um brinquedo de parque de diversões. Com o passar do tempo, a expressão ganhou diferentes conotações e passou a significar uma grande confusão, uma situação caótica. Já foi empregada em coisas bem legais e em outras muito ruins. E também é o nome do mangá que discutiremos hoje.

Okazaki Kyoko é a autora dessa breve obra de arte. Aqueles familiarizados com o trabalho dela já imaginam o que vem por aí: assuntos graves tratados de forma cruel e sem rodeios. O mangá teve apenas um volume (que será lançado nos EUA  agora em agosto pela editora Vertical IncTodos compra) e seus capítulos foram originalmente lançados na revista josei Feel Young em 2003. Além disso foi feita uma adaptação live-action em 2012 (que ainda não assisti).

"Celebridades são frequentemente julgadas como sendo extremamente interessantes... Porque celebridade é como um câncer; um tipo de deformidade."

“Celebridades são frequentemente julgadas como sendo extremamente fascinantes… Porque celebridade é como um câncer; um tipo de deformidade.”

O volume conta a historia de Ririko, uma super modelo e celebridade em ascensão. Extremamente carismática e popular, a modelo prega um estilo de vida saudável e irradia sua beleza natural e charme misterioso. Atua em diversas áreas (como é comum na indústria do entretenimento japonês): desfila, canta, atua, fotografa e é idolatrada por toda uma nação. É a perfeição. Mas como já é de se esperar em um mangá de Okazaki, essa não é a história que ela quer nos contar.

Em uma análise rápida, o título aborda com maestria o lado macabro do mito das celebridades, mostrando de forma grotesca os sacrifícios que esses indivíduos fazem para aparentarem perfeição diante da mídia. Mas Helter Skelter não é só isso! É um verdadeiro ensaio sobre os limites da vaidade e da ganância, embasado por um drama psicológico intenso e a busca incessante pelo ideal de belo.

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No minuto em que os holofotes se apagam, nos é apresentada a verdadeira protagonista. Ririko é uma mulher extremamente cruel, sádica, caprichosa e mesquinha, capaz de passar por cima de todos e de qualquer lei do bom senso para se manter no topo. Mas é aí que mora o trunfo de Helter Skelter. Apesar de Ririko ser uma pessoa terrível, ela não é a vilã.

Em nenhum momento a autora a trata dessa forma ou faz com que as coisas que aconteçam com ela sejam consideradas como uma resposta direta aos seus atos, como uma “justiça” para o leitor. Ela é apenas uma pessoa, problemática e doente, é verdade, mas ainda assim uma pessoa. Okazaki Kyoko não julga os seus personagens e conduz a história de modo que nós também não os julguemos, como se fossemos espectadores de uma trama que se desenrola naturalmente ao encontro de seu fim inevitável.

O pilar principal no qual a história se sustenta é a efemeridade. Ririko está no auge agora, mas ela, melhor do que ninguém, sabe que seu sucesso tem prazo de validade: ela ficará velha. Inevitavelmente o tempo vai passar e arrastar consigo todo o frescor de sua aparência. O que normalmente seria encarado como um drama aos olhos da maioria das pessoas, para Ririko é pior do que a morte, afinal ela não apenas gosta de ser bela, mas precisa o ser, ela se sustenta com base na beleza física (também é possível, nesse ponto de vista, refletir sobre até que ponto uma pessoa pode chegar para satisfazer a ganância profissional).

helterskelter_pg282 editedMas como o tempo passa pra todo mundo da mesma forma, a autora se valeu de alguns recursos para tornar a história ainda mais dramática. Ririko era uma jovem feia que realizou cirurgia plástica extensiva para se tornar a mulher que é hoje. Apoiada apenas por sua agente e sua assistente (únicas além da modelo que compartilham desse segredo), Ririko é obrigada a encarar diante do espelho o seu corpo se desfazendo aos poucos. Quanto mais cirurgias ela faz, mais seu organismo se esgota e se deteriora e ela precisa repetir os procedimentos constantemente, gerando um ciclo vicioso de auto-destruição. É uma luta constante para se manter bela exteriormente enquanto seu corpo já está podre, enfrentando dores terríveis e a dependência crescente de medicamentos. É inevitável sentir pena da protagonista (por pior que seja) enquanto ela se contorce de dor e desespero.

helterskelter_pg116´editedHelter Skelter é um alívio à saturação da militância politicamente correta e genérica com que os assuntos referentes à valorização da beleza em detrimento dos valores morais são tratados. A autora os expõe de maneira fria e original e nos faz refletir de fato sobre os moldes da nossa sociedade. Ela se vale do exagero da situação de Ririko para nos fazer pensar até que ponto chegamos para nos adequarmos a um padrão que muitas vezes é utópico.

O mangá mostra que todas as menininhas do Japão querem ser Ririko (seguindo um padrão de beleza impossível difundido na mídia) ao mesmo tempo que nem a própria Ririko é Ririko! Ela é uma mulher que habita um corpo artificial e vive uma vida de faz-de-conta para impressionar um país. A “celebridade” não existe e, vivendo constantemente em um mundo de fantasia, vai perdendo aos poucos a sua conexão com a realidade, ficando sem nenhum tipo de referencial para sustentar a sua iminente crise psicótica. Os maiores vislumbres da pessoa que Ririko foi um dia acontecem quando a história nos mostra os pensamentos da protagonista, que colocam em xeque a sociedade hipócrita em que ela vive. Na verdade, essa é uma constante do mangá, que se enriquece com leves pausas na ação para quadros pretos que exibem as reflexões não só de Ririko, mas também dos outros personagens.

Não vou mentir e dizer que Helter Skelter é um mangá “fácil”. É extremamente pesado e, vale mencionar, recomendado para adultos. Mas é o tipo de leitura que eu considero obrigatória, por tratar friamente sobre algumas verdades veladas e ser um verdadeiro tapa na cara de quem nunca parou para refletir sobre a atual “ode à vaidade” em que vivemos.

"Cosméticos são como crack. Quanto mais você os usa, mais você precisa deles. Você começa a procurar por produtos cada vez mais fortes."

“Cosméticos são como crack. Quanto mais você os usa, mais você precisa deles. Você começa a procurar por produtos cada vez mais fortes.”

Até a próxima!

Mallu

Sobre Gabriela N.

Apaixonada pelo cinema, pelo teatro e pela literatura. Devota das artes e das ciências sociais e humanas. Fã de séries e de HQs. Fangirl, geek, retrô. Clichê.

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