One Piece entra em hiatus depois que Eiichiro Oda adoece – Até onde vale o sacrifício?

eiichiro-odaQuando lembramos que há mais que um robô desenhando os mangas que tanto gostamos.


Nesta última terça-feira foi anunciado que One Piece, o manga mais vendido da história da Shonen Jump, entrará em hiatus por no mínimo duas semanas em razão da hospitalização do seu criador, Eiichiro Oda.

O autor foi diagnosticado com abscesso peritonsilar (também conhecido como abscesso periamigdaliano), uma complicação originada da amigdalite onde ocorre o surgimento de abscessos – secreções purulentas – que vão progressivamente piorando se não tratados logo, causando grande dor em uma lado da região da garganta, pescoço e ouvido, além de dores de cabeça, dificuldades em abrir a boca, acúmulo de pus na área, mudanças na voz entre outros problemas.

Essa patologia costuma se desenvolver a partir do tratamento mal feito em casos de amidalites bacterianas, principalmente pela auto-medicação e mal uso de anti-bióticos. É necessário então que seja feita uma drenagem cirúrgica em ambiente hospitalar, além do uso de antibióticos mais fortes, não desconsiderando a possibilidade da doença retornar no futuro.

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Oda é o maior sucesso do mercado de mangas atualmente com sua obra sobre o grupo do chapéu de palha em busca do misterioso One Piece na era dos piratas (veja a review do primeiro volume do manga pela editora Panini neste link), mas não podemos nos enganar e pensar que todo o seu sucesso traz somente pontos positivos como o lado financeiro próspero e o prazer de trabalhar com o que se gosta e faz sucesso.

Seu trabalho é feito em um ritmo quase mecânico e exaustivo para produzir em torno de 20 páginas semanais que a revista exige (sem contar as páginas coloridas e ilustrações para capas que constantemente são “pedidas”), sempre com a pressão de ter nas costas a responsabilidade de praticamente carregar boa parte da poderosa Shonen Jump sozinho.

Com 38 anos completados recentemente, Oda começou sua carreira em 1992 ainda com 17 anos para cinco anos mais tarde, aos 22, iniciar seu grande sucesso com Monkey D. Luffy. Com mais de metade da sua vida dentro desse mercado e com o peso que carrega é complicado dizer quanto sua rotina pode causar mal à sua saúde. Lembrando que em março desse ano ele ficou uma semana parado também por problemas de saúde até hoje não informados.

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Podemos lembrar do caso de Yoshihiro Togashi, autor de obras consagradas na mesma revista com Yuyu Hakusho e Hunter X Hunter. Ainda na época das histórias do detetive sobrenatural o autor sofreu com sérios problemas de sono e dores na região do coração. Ao olharmos o sucesso que HxH fez – muitos até afirmam que se ele tivesse continuado no mesmo ritmo que Oda sua obra teria mais sucesso que a de seu colega – e o exaustivo sistema que a Jump impõe aos seus autores não é de estranhar os constante hiatus que Togashi coloca sob sua obra, ainda que com muitas reclamações por parte dos fãs, muitos com a mesma alegação de doenças que o impedem de trabalhar.

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Ai Yazawa antes do seu adoecimento

Outro caso interessante de se recordar é da autora Katsura Hoshino do manga D-Gray Man, também da Jump que iniciado no ano de 2004 precisou entrar em hiatus por questões de saúde da autora em 2005, 2006 (duas vezes) e em 2008, até ser transferida para a revista mensal Jump SQ onde novamente entrou em hiatus em março desse ano, novamente por problemas similares e sem perspectivas de volta por sua situação ainda preocupante.

Mesmo fora do quadro da Jump e suas publicações semanais os casos de autores que precisam parar de desenhar por questões de saúde não são poucos, sendo o mais emblemático a longa pausa que até hoje o manga Nana da autora Ai Yazawa – um dos maiores sucessos do shoujo -, publicado na revista mensal Cookie, sofre por questões de doenças da sua autora desde 2009 e que só recentemente parecem estar sendo resolvidos.

Até onde todos esses (e muitos outros) casos podem ser relacionados à rotina quase escravizada que os autores de mangas – principalmente os semanais e os mais populares – recebem é complicado dizer já que na maioria das vezes não temos muitos detalhes sobre que tipo de patologia acometeu cada um e muito menos uma palavra dos próprios autores sobre sua situação relacionada ao trabalho – no máximo um pedido de desculpas aos fãs pela demora -, mas é possível deduzir que existe algo de muito errado nisso tudo.

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Ainda que idealizada, essa realizade nos lembra do capítulo 130 de Bakuman quando Mashiro consegue um espaço no seu tempo para reencontrar a turma do colégio e percebe como sua vida é feita de gigantescos sacríficios: Sem relacionamentos, sem férias, poucas horas de sono, correndo contra o tempo.

Se ainda há no manga um romantismo sobre essa situação dos dois autores, um sacrifício digno pelo sonho que se busca – ainda que pelo preço de toda uma juventude inexistente – a vida real cobra um preço muito mais caro que personagens fictícios de um manga conservador consegueriam subverter. Bakuman afirma que por um sonho uma vida pode ser sacrificada, mas até onde podemos concordar com isso?

Não duvido (e torço muito) que Eiichiro Oda logo esteja recuperado, ainda que um abscesso peritonsilar possa levar à morte se não tratado com o cuidado que exige. Mas infelizmente temo que nem a doença do maior pilar da Jump consiga mudar pelo menos um pouco esse sistema de produção.

Por último nessa mistura de notícia com artigo, fica o importante pensamento para aqueles que sonham em trabalhar e fazer sucesso com quadrinhos. Não existe um mundo colorido, enquanto você reclama do mercado brasileiro centenas de japoneses trabalham arduamente para receber pouco – não se engane, Oda, Kubo, Toriyama, Yazawa, podem ser ricos, mas eles são apenas a ponta do iceberg de muitos que vivem um sonho às custas de um viver sacrificado – e que ainda assim fazem o que amam.

Você estaria disposto a isso por seu sonho?

Fonte da notícia:

http://0taku.livedoor.biz/archives/4461200.html

Quando lembramos que há mais que um robô desenhando os […]

27 thoughts on “One Piece entra em hiatus depois que Eiichiro Oda adoece – Até onde vale o sacrifício?”

  1. Ótimo artigo, me fez repensar sobre minha atual situação.
    Sacrificando relacionamentos e sono pelo sonho de me formar na faculdade, é difícil e um pouco triste.

    1. Provavelmente pensam, mas não conseguem desistir. Por mais sacrificado que seja (ou talvez justamente por ser tão sacrificado) é difícil desistir de algo que se ama fazer. É só ver jogadores de futebol insistindo pra jogar mesmo sem ter condições, artistas que se enchem de drogas para continuarem se apresentando… E no Japão tem um agravante cultural: o cara que desiste sente que está sendo ingrato/causando problema para aqueles que acreditaram nele, que deram chance quando ele era desconhecido. O pior pecado na cultura nipônica é causar problemas aos outros.

  2. Excelente artigo mesmo! Isto muito me lembra uma frase dita no free-talk do volume 5 de Rurouni Kenshin (mangá que era da Jump também, coincidência?) que foi mais um desabafo do Watsuki que qualquer outra coisa:

    “Realizar um sonho pode dar trabalho, mas neste ano senti na pele que, manter o sonho realizado é mais trabalhoso ainda.”

    Não é fácil ser mangaká não, ainda mais na Jump. Anyway… Força, Oda-sensei!

  3. Ótimo artigo, parabéns. Isso mostra o quanto eles lutam pelo seus sonhos e alegria dos fãns.

    Uma pequena observação: O One Piece vem sempre com média de 15~16 páginas, não 20, até onde eu sei (posso estar muito errado, sempre estou), o que não muda o fato de ser cansativo. O Mashima de Fairy Tail traz 20+ toda semana isso quando ele não traz 30 em duas semanas consecutivas, mais cores. Talvez seja o esitlo desenho que define a dificuldade ou facilidade. (Não esotu dizendo que Mashima não tem dificuldades, bem pelo contrário…)

    Bem, só tenho uma coisa a dizer. O Oda vai voltar, pois ele é forte. Ao menos, eu confio nisso!

    1. O Oda faz de 18 a 20 páginas, o que engana é que quando se lê online as páginas duplas são contadas como apenas 1.

      Fora isso, o Oda já desenhou 6 capas para a Shonen Jump só esse ano. Levando em conta que quem desenha capa, desenha também 3 páginas coloridas na edição que recebeu a capa, é muita coisa. A Jump abusa muito do Oda.
      O Mashima está num barco parecido, mas o estilo de arte do Oda (com muito preenchimento) leva mais tempo que o estilo do Mashima.

      1. Informações valiosas, realmente agradeço. O Oda é conhecido por gostar de fazer bastante quadros grandes no mangá não é? Não lembro se é veridica essa informação… Mas bem, agora sei sobre as páginas duplas. Naruto também cai nessa certo? Agora minha opinião mudou bastante *-*

        1. Aham, exatamente, pega uma página de One Piece dos capítulos mais recentes que tu vai notar, aquilo é lotado de coisa, é difícil acreditar que o cara fez aquilo em 7 dias. A qualidade gráfica de OP é parecida com de séries mensais.

          Quanto a informação, o Oda varia bastante, acho que todo capítulo tem pelo menos uma página dupla, mas no geral ele faz quadros pequenos, e quando são quadros maiores normalmente ele coloca mais personagens interagindo. Acontece as vezes de ter um assunto principal rolando, e alguns personagens que não estão interessados no assunto fazendo outras coisas no fundo.

          Um dia se tu tiver interesse, eu recomendo pegar o mangá para ler, o traço pode parecer estranho de início, mas depois que se entende a proposta do autor, é realmente de se respeitar. :)

          ===========

          Quanto ao Naruto, realmente o Kishimoto usa de muitas páginas duplas também o que atrapalha um pouco a contagem, mas em compensasão, se tu pegar um leitor online, normalmente os scanlators adicionam algumas páginas coloridas por fãs, o que aumenta a contagem de páginas (por isso é comum pegar cap de Naruto com 22 páginas, hehe)

          1. Sim, sim. Eu leio os mangás, semanalmente. Realmente admiro o traço do Oda. Tanto que vou ficar realmente aguniado esperando o próximo capítulo de One Piece *-* (Sinceramente, a saga atual de One Piece parece ser muito mais dificil do que Naruto e Fairy Tail no quesito desenho. Aquela quantidade armaduras e guerreiros, deve ser um puta trabalho desenhar.)

            No caso das páginas por Scanlators eu não conto, só os do cápitulo mesmo, problema era o fato da página dupla. Agora tudo faz sentido, kkkkk. Vlw mesmo.

  4. Muito bem falado, aliás, o Toriyama fala num dos volumes que fez um acordo com a Jump de publicar apenas 15 páginas por semana, pois mais que isso o mataria.

    Acho que as revistas semanais tinham que assumir esse sistema. 15 páginas por série, isso inclusive iria abrir espaço para mais séries publicarem na revista.

    Claro, há o interesse da revista, pois publicando várias páginas por semana, os Tankos ficam prontos mais cedo… porém isso de nada adianta se o autor ficar doente e tiver que entrar em hiatos (O Kubo por exêmplo tá sempre pegando semanas de ausência por causa de doença).

  5. Bom artigo, mas eu sou muito relutante no que diz respeito a essa visão de “editoras vs mangakás”. Vejo muitas vezes na internet essa opinião de que as editoras são empresas cruéis que forçam seus autores além de seus limites para conseguirem cumprir prazos semanais, mas considero essa visão bastante equivocada. Primeiro que nem todas as revistas tem essa mesma postura; a Shonen Magazine por exemplo é bem mais flexível em termos de periodicidade de publicação, enquanto outras revistas seinen da própria Shueisha lançam séries em periodicidades malucas como Zetman e REAL.

    Em segundo lugar, é o autor que vai atrás da editora para publicar sua história, não o inverso. O autor se prontificou a aceitar o estilo de publicação da revista e portanto ele tem que dar seu jeito de cumprí-lo, especialmente se você for um autor novato. Autor novato tem que lançar lá toda semana, sem pular uma, pra conseguir estabelecer sua série e ganhar seu dinheiro; igual qualquer um que está tentando entrar em um emprego novo. Quantas pessoas em empregos “normais” tiveram que se sacrificar e se esforçar demais no começo pra conseguir atingir seu objetivo profissional? E da mesma forma que alguém que se esforçou muito e agora é um funcionário estabelecido em uma empresa tem muito mais privilégios e responsabilidades que um estagiário, da mesmo forma é um autor de sucesso.

    O Oda não trabalha toda semana porque a Jump é carrasca; ele já tem fama o bastante para garantir sua liberdade nessa questão (como o Inoue fez logo após Slam Dunk). O Oda trabalha toda semana porque: 1) ele gosta muito de dinheiro, ou; 2) ele gosta muito do que faz. No caso do Oda, aparentemente é o segundo caso, porque ele poderia muito bem lançar a série com várias pausas (na verdade, ele já faz até que bastante pausas, pro padrão Shonen Jump) e continuar ganhando o tanto de dinheiro que ganha com licensas e vendas de volumes, e poderia fazer isso sem qualquer represália da editora. Ou você acha que um editor vai vir ameaçar o Oda com… cancelamento?

    Por tudo isso que eu não vejo esse esforço hercúleo dos envolvidos como motivo de pena; vejo como motivo de admiração pelo esforço e dedicação.

    (Aliás, usei o Oda como exemplo acima, mas vale ressaltar que essa doença parece ter pouco a ver com a rotina de trabalho dele.)

  6. Talvez o mercado Franco-Belga seja realmente o grande paraíso almejado pelos quadrinista no mundo: um album de 50 e poucas páginas por ano, em média. Trabalho 100% autoral. Podemos começar a mirar neste alvo.

  7. Pessoal, eu sou meio emocinal, mas eu desabei com esse comentário do Oda…

    Tradução JP->ENG: CCC do AP forums
    Tradução ENG->PT: Eu

    “Essa foi uma grande mancada!

    Eu tentei aguentar o máximo que eu pude, mas isso apenas fez o problema piorar.

    Para vocês, leitores que estão esperando pelo resto da história,e para a tripulação do chapéu de palha, que está se pronta pra detonar (não achei tradução melhor pra going wild nesse caso),
    eu realmente errei com vocês.No momento, eu estou passando por um tratamento muito doloroso.
    Com desenvolvimentos da história se aproximando [próximo capítulo?], eu mal posso esperar para que todos leiam.
    Eu tenho total conhecimento de o quão longas duas semanas podem ser para jovens garotos [ele usa “shonen” aqui].
    Apenas aguentem mais um pouco
    Oda Eiichiro”

  8. Eu acho que existem situações e situações. Às vezes, sacrifícios são necessários. Ano de vestibular, monografia, TCC, esforço para melhorar no trabalho… Essas e muitas outras situações exigem um nível de atenção e tempo muito grande. Todas são extremas, é claro. Mas são temporárias. Uma hora a monografia é concluída. O vestibular passa. O TCC é entregue. Nesses casos é válido desistir de alguns prazeres e direitos. Agora, em situações como a dos mangakas, eu não concordo. Não concordo porque são “permanentes”. Todo esse regime quase que militar torna-se o dia-a-dia da pessoa. Nesse caso acho que já é exagero, por mais que seja por trabalhar com o que ama. Nenhum trabalho deve destruir a vida daquele que o exerce.

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