Editora Conrad cancela Nausicaä – Desabafo contra o desrespeito ao leitor

11:53 da manhã da última quinta-feira.

Acordo ainda meio grogue, tateio perto da minha cabeça em busca do meu celular que deixei carregando durante a madrugada. Ligo a wifi pra ver se tem coisa nova acontecendo pelas interwebs.  Ainda com o sono pesando nas pálpebras me deparo com uma notificação do Fábio Sakuda do blog parceiro XIL no grupo de discussões internas do portal Genkidama que levava para um link do Twitter:

Com vontade de dormir respondi algo brevemente, desliguei a conexão com o celular, xinguei a editora e voltei a dormir.


Para contextualizar melhor o leitor desse texto, Nausicaä: Do vale do vento é um manga do cultuado diretor Hayao Miyazaki publicado de fevereiro de 1982 até março de 1994 em total de 58 capítulos que foram compilados em sete volumes encadernados. Parte dessa obra foi adaptada em uma versão animada para cinema no que resultou em uma das obras mais importantes dos animes, sendo entendida como o berço do que viria a se tornar o famoso estúdio Ghibli, lugar de obras consagradas e que possui o único longa japonês até hoje a ter sido premiado com um Oscar com A viagem de Chihiro em 2002.

A obra veio para o Brasil no ano de 2006 em uma edição espetacular – esta sim justificava seu preço mais alto e o fato de ter ido mais especificamente para livrarias, apesar de na época ter sido possível encontrar em bancas – que muito se comentou ser a melhor edição da obra em todo o mundo.

No entanto, tanto capricho não ajudou o manga a não cair na desgraça que virou a editora Conrad no final dos anos 2000 quando toda sua linha de mangas foi paralisada. Em junho de 2010, mais de um ano após o congelamento de praticamente todos seus lançamentos, a editora se pronunciou ao site Omelete afirmando que os títulos estavam apenas “temporariamente interrompidos por motivos contratuais” e que “A Conrad, em respeito a seus leitores (negrito nosso), está em processo de renegociação com os japoneses para que estas séries voltem a ser publicadas o mais rápido possível”, palavras de Luis Fernando Guidi, assessor de imprensa da IBEP/Companhia Editora Nacional, que comprou a Conrad em 2009. Até esse momento o último volume publicado de Nausicaä havia sido o quinto, hoje fazendo mais de quatro anos.

Um tempo se passou até que ainda no final de 2010 a editora utilizou-se do seu Twitter para confirmar que os últimos dois volumes da série seriam publicados ainda no ano de 2011 com certeza, fazendo questão de vangloriar seu produto como “A melhor graphic novel de todos os tempos”.

Ok, apesar do imenso atraso que completaria dois anos entre uma publicação e outra, era só esperar, afinal, a editora afirmou com todas as palavras que iria publicar, já quando todos não acreditavam mais. Não é uma questão de ser ingênuo, mas de confiar no trabalho de uma empresa consagrada no mercado de quadrinhos no Brasil e no (belo) dinheiro gasto até ali com as cinco primeiras edições.

Foi então que em maio de 2011 a editora finalmente publicou um pronunciamento oficial sobre sua real situação e de parte do títulos que publicava e que estavam em hiatus. Você pode conferir com mais detalhes no meu post “A volta da Editora Conrad – Esperança ou Ilusão?” onde já demonstrava muita desconfiança perante àquela que praticamente fundou a forma de publicar mangas na “era moderna” no Brasil. Apesar do site Anime Pró ter noticiado que vários títulos não faziam mais parte do catálogo da editora, seu pronunciamento veio apenas para confirmar a volta de Battle Royale, Cavaleiros do Zodíaco Episódio G e do relançamento de Gen Pés Descalços. Além, claro, de expor oficialmente a “a suspensão da publicação dos títulos vinculados à Shueisha em definitivo”, levando embora Dragon Ball, One Piece, Dr.Slump, Cavaleiros do Zodíaco (primeiro manga), Slam Dunk, Speed Racer e Sandland.

Poucos dias depois a situação piorou quando o site Universo HQ entrou em contato com editora para verificar melhor a situação e obteve como resposta que Monster, Sanctuary e Megaman também estavam cancelados, sobrando, além dos três anunciados, Vagabond, Blade: A Lâmina do Imortal, Delivery Service of Corpse, Bambi, Ooru, e, claro, Nausicaä.

Com o tempo fomos vendo alguns dessas obras indo para outras editoras – Evangelion e Cavaleiros do Zodíaco na JBC; One Piece, Dragon Ball e Monster pela Panini – e o completo esquecimento das outras. Claro, a Conrad realmente terminou Battle Royale, continua publicando Episódio G e, apesar de consecutivos atrasos e aumento de preços, continua lançando a nova edição de Gen Pés Descalços que, de acordo com a Fanpage da editora, tem seu #6 em fase final de produção.

Se no início da última década a Conrad despontou como a maior expoente no mercado de mangas, basicamente iniciando o que conhecemos hoje (com seus defeitos e triunfos) nesse ramo, muito com o trabalho de Cassius Medauar, hoje gerente de conteúdos da editora JBC, com seus consecutivos problemas de ordem administrativos e financeiros a editora simplesmente perdeu a mão e se tornou uma grande piada no mercado de mangas.

O problema é quando a piada somos nós, leitores/compradores.

Sinceramente deixei na minha pré-adolescência a lógica de que uma editora deve publicar até o fim uma obra mesmo que ela esteja dando prejuízo. Ainda que existam argumentos a favor disso (como manter uma boa imagem para a empresa, o que é algo considerável nesse mercado como a JBC mostrou por tantos anos até cancelar Futari H) eu entendo que eles precisem fazer dinheiro com seus produtos. No mundo capitalista normal o que traz prejuízo é eliminado. Simples e direto. Não poderia ser diferente com mangas. No entanto, isso não significa que precisamos (ou mesmo que podemos) ser feitos de idiotas esperando um lançamento que a própria editora confirmou que faria.

Está dando prejuízo? Não compensa? Quer mudar a linha editorial? Acordou de birra e não quer mais nada japonês no seu acervo? Ótimo, mas faça o mínimo que seria informar aos seus compradores. Percebam que até agora – e podemos dizer que Nausicaä não foi cancelado nesta quinta-feira depois de uma longa reunião – não houve uma palavra sequer da editora sobre o assunto oficialmente que partisse dela. “Quer informação? Quer comprar nossos produtos? Então mendigue por isso para nós”.

É por isso que eu não vejo como problema o cancelamento de Futari H por exemplo. A editora tentou (ainda que possamos discutir formato, preço, marketing, design do produto e muitas outras coisas que implicam em responsabilidades da editora), não deu certo, vieram à público – em vídeo, por sinal, dando a cara à tapa – e foram francos. Isso se chama respeito. Novamente, é o mínimo que se pede.

Afirmo com todas as letras que a nova direção da Conrad não tem a menor vontade de voltar a ser quem era nesse mercado. A continuação da publicação de Cavaleiros do Zodíaco Episódio G se dá simplesmente porque vende bem – e podemos constatar isso na loja da editora onde no Top10 dos mais vendidos temos os seis primeiros lugares ocupados pelos cavaleiros de Athena (e mais o volume #15 na nona posição). Gen, provavelmente, continua não por ser manga, mas por ser um quadrinho autoral que se encaixa no perfil da editora de buscar obras de diversas origens com um teor mais cult. E ainda assim, quem aí vai arriscar comprar os próximos volumes quando a editora pode cancelar no último (Panini, acorde você também! Guin Saga e Homunculus pedem atenção urgente!)? Eu não, hoje só chego perto de um manga da editora quando ele estiver com a coleção completa para eu levar sem dúvidas.

A Conrad perdeu uma das coisas mais fundamentais para uma empresa: a confiança do seu público comprador.

Vocês podem comentar que eu estou exagerando, mas não. Me sinto realmente triste ao ver isso acontecer com aquela que por muitos anos foi a minha editora favorita. Mais triste ainda é perder completamente as esperanças de uma possível melhora. Não se iludam, diferente do post anterior que escrevi sobre a editora, não há nenhum pingo de otimismo nas minhas palavras. Posso queimar a língua? Estamos sempre sujeitos a isso quando afirmamos algo em público, mas dessa vez prefiro assim.

Pior que para pesquisa desse post eu entrei em vários sites e, claro, entre eles o da própria Conrad. Vejam que situação constrangedora:

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Atentem para o terceiro parágrafo da parte sobre o posicionamento da editora. Após lançar uma nota pública dois anos atrás anunciando o fim da parceria com a editora Shueisha é com isso, quase meia década depois de quebra-la, que a editora mostra seu posicionamento frente aos leitores (principalmente os de manga). É querer enganar na cara dura.

A conrad é uma editora que aposta na ética, na inovação, na qualidade e na provocação.

Não sei quanto à ética, mas podem ter certeza que na provocação vocês acertaram em cheio, só que com o pior resultado possível. Se eu fosse atualizar meus posts com os maiores erros do mercado nacional de mangas (Parte I e Parte II) certamente esse papelão feito com os leitores de Nausicaä ficaria no Top3 fácil.

Adeus, Conrad. Adeus.

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