De Tezuka ao funk carioca: Os animes enquanto produtos do encontro de culturas

AH LELEK LEK LEK LEK LEK!

Na última quinta-feira foi ao ar a edição número sete do Fala OTAKU, um “programa” feito pelo Portal Genkidama todas as quintas-feiras para falar de animes, mangas e coisas afins que surgem na hora – AQUI você pode ir direto para todos os links dos episódios anteriores. 

Mas olhando especificamente do sétimo programa, a ideia era falar das coisas que mais odiamos nos otakus (dentro da especificação ocidental da palavra, para deixar claro), o que resultou em uma conversa bem engraçada em diversos pontos, confiram que vale a pena. Infelizmente eu tive uns problemas de última hora e não pude participar. Digo infelizmente porque a minha ideia era bancar o “advogado do diabo” e procurar desconstruir aquilo que vejo como uma certa frescura de muita gente sobre os chamados “otakus retardados”.

Sair de cosplay na rua? Cada um é livre para se vestir da forma que quer dentro da lei.

Usar touquinha? O senso de estética varia para cada um.

Achar anime a melhor forma de entretenimento do mundo? Não está está prejudicando alguém então sinta-se livre para se limitar a uma única indústria.

Falar palavras em japonês no dia a dia mesmo não falando japonês efetivamente? Cada grupo desenvolve ou utiliza-se de palavras próprias, algo que chamamos de gírias, só porque estão em japonês não significa nada demais.

Enfim, a lista de “coisas que as pessoas odeiam” em otakus é grande e boa parte dela pode ser facilmente desconstruída com um “Está prejudicando alguém? Não? Então deixa a pessoa ser feliz”. No entanto, existe sim algumas coisas que infelizmente vejo acontecer muito entre fãs de animes e mangas e que me irritam, sendo a maior delas a máxima “O que vem do Japão é automaticamente superior“.

Se olharmos para o passado – algo que precisamos fazer sempre para entender realmente com o porquê lidamos e com o que lidamos no presente e nos preparar para o futuro de forma decente (sim, história é uma disciplina muito importante se dada da maneira correta) – vamos ver como essa superioridade japonesa tão exaltada pelos fãs brasileiros simplesmente não faz sentido algum.

Tezuka, o deus do manga moderno, o pai dos animes, foi altamente influenciado pelas produções estrangeiras, especialmente os desenhos animados de Walt Disney. Não vou me estender muito nisso, você pode ler o artigo do blog Argama sobre isso intitulado “Osamu Tezuka, o Pai do anime” e entender mais profundamente.

O que eu quero dizer é que não existe cultura superior, existem culturas e elas nunca se transformam através do isolamento, mas sim através do contato com outras sociedades – sei que esse conceito é de um autor, mas não consigo encontrar quem disse isso conceito do antropólogo Lévi-Strauss – e por consequência não existe forma de animação ou de desenhos em quadros sequenciais melhores. Existem obras melhores para uns e para outros não.

Fechado esse meu “axioma” gostaria de retornar ao vídeo que abre esse post. Possivelmente vocês já tenham visto (se não, por favor, assistam lá antes de continuar) e percebido que se trata de um divertido mash-up entre um funk carioca e a abertura do anime de Jojo’s Bizarre Adventure. Antes que o primeiro comece a gritar sobre o sacrilégio que é essa mistura, conte até 10, veja novamente e confira como ficou divertido, como ficou bem feito, como ficou bom.

Para mim, “LELEK’S BATIDÃO ADVENTURES PART 1 – Phantom Passinho” é o exemplo perfeito sobre o momento em que vivemos, onde a interação cultural se dá de forma cada vez mais fácil e avassaladora. O encontro entre esses dois mundos não começa nesse vídeo, mas no momento que o autor de Jojo, Hirohiko Araki, ouviu a música do grupo britânico The Beatles, “Get Back”. 

É através do contato entre diferentes sociedades, diferentes línguas, diferentes formas de expressão que a cultura se mostra. Um quadrinho japonês, criado a partir da ideia vinda de uma música britânica, recebendo um anime muito possivelmente produzido em partes da Coréia até finalmente ganhar um toque carioca através das mãos de um fã.

O Japão, por mais bonita que seja sua cultura tradicional (não vou comentar que muito veio da China…), foi (e talvez ainda seja) durante muito tempo do século XX o templo de encontro entre o oriente e o ocidente, é justamente a apropriação de fatores culturais de outros povos e suas adaptações locais que marca aquilo que tanto gostamos nesse país.

Por isso, vou fazer um pedido para vocês leitores do Gyabbo!: Sei que dificilmente vocês tem essa mentalidade fechada do “Japão superior”, mas com certeza conhecem muitas pessoas que pensam assim. Peço que levem esses post para seus amigos, seus grupos, comunidades, publiquem no Facebook ou mesmo diretamente quando verem alguém comentando algo dentro dessa linha.

Anime e mangas são o que são hoje pela criatividade de pessoas que ousaram recriar aquilo que estava posto e que gostavam. A criatividade é uma capacidade inativa do próprio ser humano, seja ele japonês ou brasileiro. Quando vemos algo como o mash-up ali de cima, podem ter certeza, novas formas de cultura estão surgindo sem que ninguém saiba onde isso vai parar.

Tenho certeza que Tezuka não acreditaria que eu, aqui no coração da floresta amazônica, estaria passando tanto tempo falando daquilo que ele começou. Assim como doeria muito ao mestre ver sua arte limitada a um suposto gosto superior ao Japão.

AH LELEK LEK LEK LEK LEK! Na última quinta-feira foi […]

18 thoughts on “De Tezuka ao funk carioca: Os animes enquanto produtos do encontro de culturas”

  1. Matéria épica, sem mais. Mas isso me deprime ao pensar que vivemos em uma sociedade do tipo, eu tento ignorar mas não tem como, o preconceito e a ignorância de certas pessoas chegam ao limite, acho que não só aqui mas em qualquer lugar, a visão universal não vai mudar tão facilmente.

  2. I couldn’t agree more.
    (Aliás, não sei se você tinha outro autor em mente, mas quando afirmo que é o contato cultural que faz uma cultura florescer, eu cito o “Raça e História” do Claude Lévi-Strauss).

    Quando fiz a disciplina “História do Japão” na faculdade, parte da avaliação era escrever um artigo. O tema que eu escolhi foi justamente “influência cultural ocidental no Japão no período de 1853 a 1937”.
    Ao pesquisar material para esse artigo, eu percebi o quão importante é a “importação de cultura estrangeira” para a identidade nacional japonesa. Não só da China e da Coréia (a influência dessa última costuma ser subvalorizada), mas de praticamente todos os países que eles tiveram contato posteriormente: holandeses, americanos, portugueses, prussianos, ingleses, franceses, etc.

    E isso é muito interessante: quando você percebe que, entre outros, o budismo, o bushido, a sakura e as revistas de quadrinhos são tão “puramente japoneses” quanto o futebol é “puramente brasileiro”, isso te dá uma perspectiva muito interessante sobre a cultura nipônica. E sobre os “otaquinhos” que quase todo mundo odeia (mas eu, por motivos profissionais, adoro =P)

    1. Vlad, quando pensei nessa ideia quem me veio a mente foi justamente Lévi-Strauss, mas não consegui confirmar então preferi não arriscar, mas era ele mesmo, obrigado pela confirmação!

      Sim, essa “importação cultural estrangeira” foi e continua sendo fundamental para a própria formação de uma identidade do que é do que pode ser japonês. Apesar disso acontecer em todos os países (ainda mais nós que somos brasileiros), me parece que o Japão foi aquele que melhor conseguiu receber, adaptar e recriar, desde a China antiga e a Coréia (você está muito certo quando diz que a influência dela é subvalorizada quando falamos da história do Japão) até a ocidentalização notoriamente de influência norte-americano pós segunda grande guerra.

      Fiquei curioso sobre seus interesses profissionais nos “otaquinhos”, você trabalha academicamente sobre esse tema?

      Obrigado pelo comentário,

      Gyabbo!

      1. Sim, justamente.

        Me formei em Ciências Sociais em Dezembro, com a monografia sobre otakus, e começo o mestrado em Antropologia Social agora em Março, com a dissertação também sobre otakus.

        E, como a Antropologia não julga… otaquinhos rulez!
        =P

  3. É algo parecido com o que acontece com Avatar, conheço pessoas que não querem ver simplesmente porque não é japones, mal sabem a excelente série que estão perdendo.

    1. eu tinha esse “preconceito” quando fui ver avatar eu só achava dublado em ingles, eu pesquisando mais eu percebi que não era japones, ai eu já fiquei com um pé atrás, mas eu baixei, quando fui assistir, putz….é um série excelente

  4. Realmente, “não existe cultura superior, existe cultura”. O Japão é como é por uma série de motivos que incluem até mesmo a sua geografia (afinal, viver num país com recursos naturais mínimos, sujeito a terremotos, tsunamis e furacões tem que ter alguma influencia na cultura, não?). E acho que muita gente se confunde e diz “anime é melhor do que cartoons ocidentais” quando deveria dizer “eu gosto mais de anime do que de cartoons ocidentais”.

    Não tem problema nenhum você gostar mais de uma coisa do que de outra, o ruim é achar que algo não tem valor só por que não te agradou.

  5. Amei o texto!
    Não acho legal quando ridicularizam demais os otakus, mas até que dá pra entender, afinal eles se fecham tanto em seu hobby de uma maneira tão extrema que fica bem engraçado, quase digno de virar piada mesmo. E o Japão é um país que assemelha tantas outras culturas dentro da sua própria (apesar de parecer haver um movimento inverso atualmente, né?) que é até engraçado ver que pensam assim… Adoro ver quando duas ou mais culturas se mesclam, os trabalhos ficam muito mais ricos assim.

  6. acho que depois de assistir ao ultimo fala otaku acho que entendi porque o denis quis criar um blog, mas enfim….

    Na MINHA opinião o “fala otaku” tinha que ser um pouco mais sério, não precisa ser um documentário mas acho que o papo de bar que é, me incomoda um pouco, a não ser que seja esse o objetivo.

    Sem querer puxar saco eu concordo com praticamente tudo que você falou, não me incomodo de alguém agir da maneira X e vestir a roupa Y e adorar o anime Z, vai lá ser feliz, a única coisa que realmente me incomoda um pouco no otaku “mainstream” (???) é que muita das vezes é a falta de nacionalismo, não no sentido de achar o brasil e as coisas brasileiras melhores, todo mundo pode achar outro lugar melhor, por exemplo alguém pode gostar muito da cultura japonesa, querer morar lá, e não sentir afinidade com a cultura brasileira por mim isso é tranquilo, mas o que eu quis dizer com o nacionalismo é que acho que alguns pensam que o brasil não pode produzir nada de bom.

  7. Gostei muito do post, e acho que a discussão (ou melhor, “elucidação”) desse tema é muito importante, não só para o tolo debate anime X cartoons, mas também porque se aplica à diversas outras coisas.
    Por exemplo, há um tempo houve uma polêmica depois que o blogueiro Gravataí afirmou muito lucidamente em seu blog que sertanejo universitário também era uma manifestação da cultura popular. Ele está certo, porque na música o que não é clássico é automaticamente considerado popular (independentemente da “popularidade” ou “qualidade”), seja Rock ou Axé.
    Ainda dentro do gancho da música, podemos perceber que as pessoas estão com um conceito equivocado de cultura. Elas creem que cultura é “aquilo que é bom”, sem parar pra pensar na abrangência do termo ou na análise objetiva da qualidade das coisas (independentemente do gosto pessoal).

    Voltando ao foco, o que eu queria dizer é que não existe cultura “menor” ou “maior”, e que algo não deixa de ser bom só porque você não gosta (e o contrário também é válido, o seu amor pelas coisas não as torna automaticamente boas). Falta objetividade e também respeito, afinal, gosto é gosto, cada um tem o seu e tem direito de gostar do que quiser!

    Sem falar que esse papo todo de “endeusificação” do Japão é a maior bobagem. Existem coisas incríveis, mas também seus absurdos, como em qualquer outro lugar. Tenho certeza que se lembrarmos que em Akihabara existem lojas que vendem câmeras espiãs para serem pregadas em saias de mocinhas, tudo entra em perspectiva…

    (E btw eu não gosto dos tais “otakus retardados”. Nada contra, por mim eles podem fazer o que bem quiserem quando quiserem, o que não quer dizer que eu precise andar numa rodinha cheia deles falando seus “sugoooois!!!!” respeito totalmente o espaço deles, mas me reservo o direito de não precisar conviver nos meus círculos sociais mais íntimos com os mesmos)

    1. gyabbo sou novo aqui.mais tpw se alguem se diz otaku fala kawaii desu e me colocam no mesmo panorama que ele achando que vou falar isso se eu disser que gosto de anime n vai me deixar em maus bocados por nao gostar desse tipo de “giria otaku”
      n lembro qual blog foi que assisti dum video cantando um panorama do cdz mais fala bem como me sinto quando poe um otaku totalmente hard core no programa da fatima bernardes e se eu falar que sou otaku vou ser comparado com ele

  8. Primeiramente, eu aprecio mais cultura japonesa do que essa P$&&@ de música chamada funk carioca(É obsceno, só fala de putaria, defende o crime e ainda desmoraliza as mulheres). Pelo visto o preconceito contra otakus no Brasil é algo tão estúpido, pois é praticado por pessoas babacas FDP FDKR que não os compreendem, acham que o que eles curtem é anormal. O Brasil tá cheio de putaria, prostituição pois é isso que pessoas idiotas gostam, agora as coisas que os nerds apreciam, como games, animes e etc., são vistas como coisas estranhas e por tal razão os nerds são incompreendidos, estereotipados pela [email protected] da sociedade. Uma frase para os babacas que odeiam nerds: Não gostam de nerds? Então queimem no fogo dos mil infernos com sua frescura, seus babacas entorpecidos e ignorantes, pois eles são mais humildes que vocês, seus otários estúpidos!! Desculpe-me se o meu comentário foi muito ofensivo, é que existem pessoas idiotas demais no mundo…

  9. Brasileiro cada vez mais enaltecendo a mediocridade cultural promovida pela mídia esquerdista. Por isso não frequento mais eventos de anime, não me misturo. Favelizaram os eventos de animes. Nojo!

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