O caso Minami Minegishi do grupo AKB48: Quando um contrato vale mais que a dignidade humana

Eu sou Minegishi Minami do time B da Umeda (Ayaka) do AKB48.

Eu sinto muito por ter causado uma enorme preocupação para os membros, fãs, staffs, meus familiares e outras tantas pessoas com o artigo publicado hoje (30/01/2012) na revista semanal (Shukan Bunshun).

(Longa reverência)

Como um membro da primeira geração do AKB48, grupo formado em 2005, é minha responsabilidade sempre me comportar como um bom modelo para as mais novas. Eu me arrependo profundamente pelo que fiz dessa vez. Foi um ato impensado onde me faltou completamente noção da minha posição enquanto membro veterana.

Meu cérebro apagou e eu ainda não consigo descobrir o que fazer, o que eu posso fazer. Mas depois de ter visto a revista ainda há pouco eu não consegui evitar fazer algo. Então eu decidi raspar minha cabeça sem consultar nenhum membro ou staff da minha agência.

Apesar de que não pensar que seria perdoada por fazer isso, a primeira coisa que veio na minha cabeça foi que “Eu não quero sair do AKB48”.

Esse é um espaço onde meus queridos membros, com quem eu passei o desabrochar da minha juventude junto, estão. E é inimaginável até pensar sair do grupo onde eu estou com tantos fãs maravilhosos e doces.

Eu entendo que é fora da realidade, mas se for possível, gostaria de poder continuar como a Minegishi Minami do AKB48.

Isso é tudo minha culpa. Estou sinceramente arrependida. Deixarei meu destino nas mãos do Sr.Akimoto.

Embora eu não tenha sido capaz de arrumar minha mente, eu só queria passar meus sentimentos atuais para vocês.

Muito obrigado por ter me ouvido.

(Longa reverência)

Traduzido e adaptado por mim de acordo com a transcrição, tradução e adaptação para o inglês do site AKB48 Wrup Up.

Eu sei que até este ponto praticamente todo mundo já ouviu falar desse caso e muitos blogs, sites, jornais e pessoas em geral deram seus comentários. No entanto, depois de ter lido muita coisa por aí sinto que preciso deixar a minha opinião sobre o caso da idol Minegishi Minami que foi rebaixada dentro do grupo AKB48 e gravou um vídeo de desculpas após raspar a cabeça por ter passado a noite na casa de um homem, o membro da boy-band japonesa Generation, Alan Shirahama.

Foto de Minami que causou todo o "escândalo"

Foto de Minami que causou todo o “escândalo”

Para aqueles que não conhecem, AKB48 é a girl-band de maior sucesso atual do Japão, um verdadeiro fenômeno midiático ao formar dezenas de idols (num total de 91 garotas hoje) que aparecem em todos os lugares: cantam, dançam, atuam, fazem propagandas, servem como modelo e tudo que é exigido de uma idol japonesa.

“Escândalos” como esse (e eu me recuso a chamar uma garota de 20 anos sexualmente ativa como um real escândalo) não são novos no mundo do entretenimento japonês. É público e conhecido por todos que essas garotas (variando desde pré-adolescentes até jovens adultas) – e possivelmente em especial as do AKB48 pelo seu enorme sucesso – são obrigadas por contrato a não terem nenhum tipo de relacionamento amoroso/sexual.

Leia também: Por que não simpatizo com a maioria dos animes ecchi?

Por que isso? Por mais doente que a resposta possa ser, ela é bem simples. O AKB48 – e idols em geral – fazem parte de um modelo de vendas e lucro baseado nos conhecidos otakus – no sentido japonês da palavra, podendo ser conceituado como alguém patologicamente entusiasta de alguma coisa, qualquer coisa, nesse caso, as garotas em questão -, grupo conhecido por sua falta de bom senso na hora de consumir algo relacionado àquilo que adoram.

Minami em 2012

Minami em 2012

No entanto, este grupo de consumidores (e percebam minha diferenciação entre AKB fãs e otakus de idols) não estão na maioria das vezes interessados nas habilidades artísticas dessas garotas, mas sim em alimentar e serem alimentados pela fantasia de possuírem para si uma mulher bonita, fofa, adorável, pura e, principalmente, virgem. Assim, falando meramente de negócios, o relacionamento de uma delas com um homem tira o seu grande apelo e destrói toda uma base de fãs que estariam gastando seu dinheiro em todo tipo de produtos relacionados aos seus membros favoritos. Uma garota que transgride o que foi acertado em contrato não está indo contra somente à sua agência, ela está traindo seus fãs.

Mas como eu disse, essa lógica funciona perfeitamente se olharmos para tudo isso de uma perspectiva meramente mercadológica. Só que assim como tudo que envolve humanos, a questão não pode ser reduzida a isso.

Durante minhas leituras do caso pela internet, desde a Folha de São Paulo, o Twitter, o Sankaku Complex (NSFW. Conteúdo +18), o Shoujo Café, o Mais de Oito Mil, até o Anikenkai, pude perceber basicamente duas formas de entender a situação.

  • Malditos otakus sem vida social que fazem com que pobres garotas passem por esse tipo de coisa!;
  • Ela não pode falar muito depois de ganhar dinheiro em cima dos fãs sabendo a vida que iria enfrentar sendo uma idol;

Apesar de achar a primeira visão um tanto quanto limitada como forma de entender o fenômeno, a segunda visão, ressaltado para mim no texto do colunista Fred do blog Anikenkai me soa quase como uma afronta e um deboche frente a tudo que aconteceu. Ainda que eu concorde com ele quando afirma que não há santos nessa história, acho incabível nesse caso uma tentativa de equiparar a culpa dos fãs/indústria com a “culpa” de Minami. 

Apesar de usar o texto do Fred como exemplo, parte de seus argumentos ressoam claramente questões com as quais não consigo concordar e que li pela internet durante esses dias.

 Mas e quando você percebe que a banda explora o fã de forma pornográfica? O buraco fica mais embaixo…

(do Anikenkai)

É verdade que a banda e seu produtor, Yasushi Akimoto, vendem uma fantasia para os fãs, em um modelo de negócio que procura fazê-los gastar o máximo possível para que possam ter contato com suas figuras de admiração. Assim, singles vem com um cupom que você pode usar para votar e ajudar a sua garota favorita, além de participar de eventos onde pode encontra-la. Isso gera um fenômeno muito peculiar onde os CDs vendem feito água, entrando nos diversos rankings, para a maior parte deles irem para o lixo posteriormente. O fã faz tudo pelo seu ídolo. Mas culpar a engrenagem pela máquina é complicado.

Dentro desse argumento normalmente se encontra outro mais interessante de se observar: as garotas que entram para o AKB48 tem plena consciência do que estão fazendo e de como esperam que se comportem. Se elas querem ter uma vida amorosa/sexual ativa que saiam do grupo, mas respeitem a cláusula contratual! Isso é interessante pois quem defende esses dois argumentos não percebe a imensa contradição em que caem. Afinal, se prega-se o livre arbítrio para as garotas, porque os fãs não recebem o mesmo tratamento? Adaptando uma frase que li algumas vezes sobre isso, ninguém está obrigando eles a gastarem seu dinheiro com esses produtos apontando uma arma para suas cabeças.

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Fã compra milhares de singles para votar em sua idol favorita e encontra-la

Se existem pessoas doentes que gastam tudo e vivem em prol de uma fantasia, não deveríamos cobrar da outra parte uma condição de vida tão ou mais absurda.

Pior, nesse caso específico da Minami, poucos parecem lembrar que ela é da primeira geração do grupo, tendo entrado em 2005 quando tinha acabado de fazer 13 anos! Prometa uma mundo de fantasias, luxo, riqueza, fama e idolatria para 100 crianças de 13 anos com a ressalva de que eles não podem namorar, chuto dizer que a maioria dessas crianças aceitariam na hora.

No entanto, se naquela fase as questões sexuais não tinham uma relevância tão grande em suas vidas, aos 20 anos a coisa muda completamente de figura. Não somente é um absurdo querermos cobrar de uma mulher que ela se mantenha virgem porque existem milhares de pessoas pagando para que ela se mantenha assim como é ainda pior que essas mulheres seja recrutadas ainda na pré-adolescência.

…é natural você se sentir mal ao saber que a menina estava mentindo pra você esse tempo todo sobre o produto que ela queria vender

(do Anikenkai)

Muito mais do que as pessoas que não estão tão ligadas aos aspectos culturais e do entretenimento japonês, quem é fã de animes e mangas já deve ter percebido como a exploração da imagem da menina jovem, pura, virgem é espalhada. É um grande absurdo quando fãs reagem assim ao saberem (ou suporem) que suas adorações do papel não são virgens, como no famoso caso de Kannagi (Conteúdo +18), mas quando isso chega a causar a humilhação pública e mundial de um ser humano, a questão se encontra em outro patamar.

Não estamos aqui falando de uma relação entre consumidores e produtos consumidos. Não! Estamos falando sobre desejos naturais humanos como amar e ser amado, fazer sexo, ter a companhia mais íntima de outra pessoa e nada disso pode ser regulado pela ganância e loucura de outras pessoas senão a própria pessoa em questão.

Ao perdemos de vista o ser humano que é Minami Minegishi, perdemos toda e qualquer discussão.

fl20130122lpa-870x489Apesar do meu principal argumento e o motivo da minha revolta durante todo esse caso ter sido a humilhação causada, permitida e encorajada por uma empresa e por parte do público (japonês e internacional), esquecendo que estamos falando de uma mulher de verdade, também é bom salientar que uma cláusula de castidade simplesmente não encontra apoio no direito japonês:

Labor contracts, like all contracts, are predicated on the assumption of agreement between two parties. But that does not mean that anything goes when it comes to their provisions. Four conditions must all be met to legitimize each and every term of a contract: kakuteisei (determinacy), jitsugen kanōsei (achievability), tekihōsei (legality) and shakaiteki datōsei (social justification).

It is the fourth, shakaiteki datōsei , that concerns us in the AKB48 case. This concept entails general ideals of morality and justice, specifically kōjo ryōzoku (public order and morality), a crucial and broadly ranging legal principle enshrined in Article 90 of the Civil Code.

Contract terms that violate kōjo ryōzoku are invalid.

Japan Times – Aconselho a leitura desse artigo por completo.

Exigir castidade de uma funcionária não encontra embasamento legal e justificativa social, é justamente na brecha que permite que garotas sejam culpabilizadas por algo natural do ser humano é que se encontra o problema. Trata-se mulheres como mercadorias onde seus consumidores parecem ter mais direitos sobre elas do que elas próprias.

Ainda que eu não acredite que a Minami tenha raspado os cabelos por livre e espontânea vontade – até por ela viver pela sua imagem -, esse lado da cultura japonesa, que é sim machista, patriarcal e sexista como tratamos no artigo “Esse cara sou eu! Comparações com Sukitte Ii na yo.“, é formador também de pessoas, incluindo mulheres, que acreditam nisso como algo correto, normal e necessário.

Mas mesmo que partamos do relativismo cultural, complicando uma visão macro da questão quando estamos fora do contexto sócio-cultural japonês, para mim a situação é bem clara. Adoro o Japão e passo muito do meu tempo em contato com aquilo que vem do arquipélago, mas muitas coisas não podem ser toleradas.

A humilhação, o desespero e o sofrimento de uma mulher em escala mundial é uma delas.

Agora quero ouvir de você nos comentários a sua opinião desse caso. Essa é uma discussão que precisa acontecer e aguardo vocês com novos olhares para entendermos melhor a situação.

Fontes e recomendações de leituras:

  • Shoujo Café – Algumas palavras sobre a garota do AKB48 que raspou a cabeça para se desculpar com seu público.
  • Folha de São Paulo – Cantora japonesa raspa a cabeça como castigo por passar a noite com rapaz.
  • AKB48 Wrap Up – AKB48 announced punishment on Minegishi Minami, demotion to Kenkyusei (KKS).
  • Mais de oito mil – Algumas palavras sobre o caso Minami Minegishi.
  • JPop Asia – AKB48’s Minami Minegishi Spends The Night At GENERATIONS’ Alan Shirahama’s Home.
  • Japan Times – AKB48: Unionize and take back your lost love lives
  • Sankaku Complex – AKB48 Otaku Casts 1770 Votes – “Why Do They Do This!?” (NSFW. Conteúdo +18)
  • Anikenkai – Coluna do Fred: AKB48. Até que ponto é demais?

PS: O blog Anikenkai é um grande parceiro do Gyabbo! e é certo que tanto seu dono, Diogo Prado, quanto o blog em si não endossam condições de humilhação em nenhum caso. O texto foi utilizado como exemplo para contra-argumentação, algo saudável e comum entre sites de opiniões, pedindo aos leitores uma leitura crítica de ambos os textos.

Eu sou Minegishi Minami do time B da Umeda (Ayaka) […]