Mangas Undergrounds #7 – Kyuuso wa Cheese no Yume o Miru

Recentemente gravei um podcast no qual comentei vagamente sobre “Quantidade x Qualidade” e como essas duas características refletem em uma bagagem de leitura de mangas. Durante a gravação, discuti sobre a necessidade de tentarmos abranger em nossas leituras o maior numero possível de braços da mídia que estamos querendo analisar, ou seja, tentar nunca se fixar em um único tipo de desenvolvimento que os mangas (e qualquer outro tipo de mídia, na verdade) possa ter, seja ele battle shounen, shoujo meloso, aventura, suspense, ou qualquer outro tipo de categorização, seja ela oficial ou não.

Dentro deste contexto, confessei uma fraqueza pessoal que sempre me incomodou não só como leitor, mas principalmente como pseudo-escritor: nunca li nenhum yaoi. Na verdade, durante o podcast comentei que tinham vários “gêneros” que nunca li ou me aprofundei com vontade de saber mais, como o moe, o shoujo e o próprio yaoi. Enfim, o importante é que logo após a gravação resolvi me impor essa missão de conhecer mais de mais tipos de mangas. E pra começar, nada melhor do que aquilo que é o braço dos quadrinhos japoneses que mais tenho preconceito.

E tenho tanto ódio infundado por esse tipo de arte sequencial que tive que escrever três parágrafos só pra justificar o porque comecei a ler esse mangá. Se bem que, pra ser sincero, acho que estou sendo um pouco injusto comigo mesmo, o meu ódio não é completamente infundado também, já li várias matérias e posts em blogs sobre o que seria o yaoi. Mesmo antes de ler, já tinha uma noção de quais seriam os clichês desse tipo de abordagem e o que deveria procurar analisar enquanto lia a obra. Mas o que é justo é justo, nunca li um yaoi e esse era de fato uma defeito meu, principalmente como alguém que tenta analisar mangas. Mas então, por onde devo começar?

Na minha desinformada e até, de certa forma, ingênua cabeça, imaginava que muita gente abandonava por completo o yaoi porque o primeiro contato com o gênero seria com obras de má qualidade ou com obras extremamente clichês. Com isso mente, resolvi que o primeiro mangá yaoi que leria seria da nata dos mangas homo afetivos, ou seja, estava a procurar por um “Yaoi Underground”.

Não usei estas exatas palavras quando fui pedir recomendação no Twitter, o que pedi foi por um “yaoi maduro, que fuja do clichê, que tenha algum tipo de desenvolvimento psicológico mais profundo”. Com base nesse inusitado pedido vindo da minha pessoa, várias fujoshis surgiram com recomendações, muitas falaram de uma autora chamada Zetona Mizushiro e mais especificamente do mangá Kyuuso wa Cheese no Yume o Miru. Resolvi dar a chance.

“Kyuuso wa Cheese no Yume o Miru”, ou “O Rato Encurralado Sonha com Queijo” numa tradução bem livre, conta a história do indecisivo e mulherengo Kyouichi, um homem casado, mas que por resultado de várias decisões erradas vive traindo sua esposa com outras mulheres. Tudo normal, até o dia em que o seu amigo de infância, Imagase, reaparece dizendo que é um detetive contratado pela sua esposa, mas que está disposto a guardar os segredos do personagen contanto que ele realize um pequeno favor: o beije em troca do silêncio. O que é aparentemente simples, acaba se desencadeando em uma relação que irá atrapalhar todos os envolvidos.

Os primeiros três capítulos do mangá são praticamente a imagem esculpida do que se pode imaginar que seria o resultado dessa sinopse que só pode ter saído de uma comédia romântica ou de um filme pornô. O personagem principal fica nessa indecisão em relação ao que sente sobre o seu novo amigo, este que por sua vez fica com joguinhos psicológicos pra cima do Kyouichi, em que a cada “fase concluída” deste jogo resulta, de alguma forma bizarra, em um descobrimento sexual mais avançando dos dois.

A minha vontade foi de literalmente abandonar a obra, é clichê, depois de clichê. Teve a “batalha silenciosa com o ex-namorado”, “amor escondido em forma de chantagem” e até o clássico “ciúmes infundado por ver com outra pessoa que no final descobre ser só um parente”. É possível apontar cena por cena os elementos mais simplistas de estruturação de um romance. Nessa primeira parte, pouco importa o casal ser homossexual ou não, é um romance clichê e ruim porque é um romance clichê e ruim, não porque é um yaoi. É até bem raso nesse sentido, fica parecendo (aqui ainda mais do que no restante do manga) que a história foi exclusivamente feita para esse nicho interessado na representação gráfica do relacionamento sexual amoroso.

Me falaram que a história melhora bastante dali em diante então resolvi dar uma segunda chance. E tenho que admitir, melhora, mas está extremamente longe de melhorar a ponto de justificar todos os elogios que recebe. Este é um mangá que começa e termina fraco.

É de certa forma até engraçado porque consigo imaginar muito bem as características que tornariam este yaoi diferente dos demais e acredito que o ponto fora da curva está no desenvolvimento do personagem Imagase. Mesmo com momentos forçadamente obsessivos e dramáticos em excesso, que tornam o personagem não tão real, o desenvolvimento construído em cima destes excessos e em cima do passado do personagem com o Kyouichi é bem interessante. Criamos uma curiosidade por quem é Imagase e os momentos em que nos é mostrada a mente por trás das suas ações acabam sendo os melhores de todo o manga.

O personagem principal, por outro lado, é o exato oposto deste exemplo. Apesar do Kyouichi ser bem real em suas ações não relacionadas ao sexo, ele é extremamente desinteressante, começa o manga como babaca e termina como um babaca. Não é nem como se o desenvolvimento dele fosse fraco, o problema é que não tem desenvolvimento nenhum, nada que nos faça simpatizar com as indecisões egoístas do personagem.

E eu disse “ ações não relacionadas ao sexo”, porque é neste exato ponto que a história mais falha e que acaba contaminando todo o resto do enredo. E isso que eu fui com vontade de tentar ignorar este que acreditava que seria um pormenor da obra, mas simplesmente pareceu que o mangá insistiu em construir todos os plots voltados para as cenas sexuais.

Não acredito que seja psicologicamente possível um cara que passou anos casado e que um dia descobre por meio de seu ex-colega de classe que ele talvez seja homossexual que em apenas uma semana depois ele já está deliberadamente se oferecendo a pagar um boquete para o amigo. Poxa, quebra todo o desenvolvimento, será que era realmente necessária toda essa carga sexual no mangá?

Sei que pra quem já leu o manga está parecendo que estou exagerando sobre poucas páginas. De fato, o conteúdo sexual no mangá representa uma pequena porcentagem de toda a história, mas o problema é que são pequenos impasses, posicionados em momentos chaves do enredo. Praticamente a parte final inteira é baseada em cima do conflito do Kyouichi ter que fazer o papel do passivo na relação. Isso é forçado, não porque estamos falando de um casal gay, mas por estarmos falando de uma situação de desenvolvimento de conflitos pessoais que não conversam com a exposição sexual.

Tentando pegar um contexto mais geral (e polemizar um pouco) imagino que isso seja um problema com o gênero yaoi. Boa parte das características que faltam sincronias na construção do plot seriam resolvidas se este fosse um casal heterossexual, ou, de forma mais interessante no ponto de vista de objetivo de enredo, se ambos já fossem pelo menos auto assumidos como gays.

No enredo, a necessidade de se criar esse casal, no qual um dos personagens não está acostumado, ou que mesmo rejeite a sua sexualidade, entra em conflito com a necessidade de ter esse mesmo teor gráfico de sexualidade. Por exemplo, em um momento o Kyouichi está desesperadamente tentando negar sua relação com o Imagase e volta para a sua esposa, algumas cenas depois o mangá já volta a mostrar cenas gráficas da relação do casal homossexual. Talvez tenha sido um tentativa de mostrar a confusão por trás da cabeça do protagonista, mas por repetir várias vezes ficou inconsistente e pareceu forçado.

Por isso que, se o casal já tivesse ultrapassado a questão de preparação sexual, poderíamos ter uma história mais consistente. No caso, teríamos um bom, se não ótimo, romance. Poderíamos manter boa parte dos conflitos e desenvolvimentos, mas sem entrar em tamanha assincronia com a tal “tensão sexual” entre os personagens. O problema, é que, querendo ou não, mesmo uma obra que tenta ser algo mais, que é de fato o caso de Kyuuso wa Cheese no Yume o Miru, acaba se perdendo às amarras do gênero e a essas fantasias totalmente irreais construídas em cima de um relacionamento homo afetivo, exigidas pelo público-alvo.

Vou deixar claro, o problema do manga (e imagino que seja o problema do gênero como um todo) não é o fato de se construir um conflito sexual em cima de um casal homossexual, mas o fato de se construir esse mesmo conflito sexual, em cima de um outro conflito de questionamento de sexualidade entre o casal.

O conflito homossexual entre o casal é exigido pelo público-alvo pela necessidade da existência de um romance extremamente idealizado, onde os casais vivem as dificuldades e conflitos de um amor que supera até as mais altas barreiras sociais. É um tipo de plot interessante e que seria bem melhor desenvolvido sem a necessidade de apelo a cenas gráficas, estas que acabam criando o tal conflito sexual e que entram em choque com todas as questões desenvolvidas fora delas.

Quando voltei ao twitter para manifestar a minha indignação com a obra, recebi vários comentários de indignação, mas a resposta do amigo Zigfrid resumiu muito bem a minha opinião geral sobre o assunto: “Cara leia algo q fale de sexualidade e não algo que explore a sexualidade pra atrair leitores” (sic). Obras como Hourou Musuko falam sobre sexualidade, praticamente sem nenhum apelo gráfico para o ato em si.

Tudo bem que não vou ser hipócrita a ponto de dizer que Kyuuso wa Cheese no Yume o Miru explora a sexualidade somente para atrair leitores, mas ele certamente sofre com esse conceito, a ponto de boa parte de seus atributos positivos serem apagados por essa necessidade de fanservice.

Pra terminar (esse post que ficou longo demais), gostaria de dizer que não desisti por completo do gênero. Ainda conheço muito pouco pra poder julgar o yaoi como um todo e realmente acredito que deve existir coisas melhores escondidas por aí. Fica mesmo só essa decepção com uma obra muito bem elogiada, um mangá pseudo, ou seja, tenta ser, mas nunca será e é por isso que eu…

Não recomendo Kyuuso wa Cheese no Yume o Miru.

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