Dorama Daisuki #1 – Mioka

Olá, sou Trucyx, escrevi por algum tempo no falecido Subete Animes e agora ando por aí fazendo alguns guest posts e levando um blog de J-Music chamado Zutto Daisuki Da Yo. Aqui no Gyabbo!, o lugar mais apropriado para esse tipo de post, falarei de dorama, assim como já temos o colega Luiz Rodrigo e seus posts sobre filmes asiáticos. Não há uma periodicidade exata para a ocorrência dessa coluna, provavelmente bimestral.

Não gosta ou não tem interesse por dorama? Recomendo ler este post, do próprio amigo Gyabbo!, intitulado “Por que assisto novelas japonesas, mas não assisto novelas brasileiras”. Como estréia desta coluna, inicialmente iria falar de dois doramas em conjunto: Mioka e Beautiful Rain, dois doramas que inicialmente podem ser rotulados do gênero tragédia, mas ambos tem suas escandalosas divergências, logo, preferi dar um foco em Mioka.

Trailer | Música Tema: Fukuyama Masaharu – Hotaru

1 litro de lágrimas (Ichi rittoru no Namida – 2005) acredito que seja o J-Drama mais conhecida fora do Japão, e não é por menos, é um drama chocante, trágico, absurdamente emocionante em todo fim de episódio, hoje é referência do gênero tragédia e novela japonesa por onde muitas pessoas começaram a assistir doramas. Vale a pena citá-lo antes de começar a falar de Mioka (2010), uma história de uma adolescente, já na faculdade, que é diagnosticada meses antes do começo do dorama como portadora de uma doença terminal, pouquíssimos meses de vida a protagonista tem pela frente, uma vida limitada, e neste pequeno e árduo caminho presenciará a paralisia de seus membros; a perda de sua memória; o preconceito; a guerra para encarar a morte; e com o amor.

O amor dos pais (sempre o mais precioso nos dramas japoneses), o amor do namorado, dos amigos e de pessoas que mal a conhecem. Pessoas essas onde ela “deixará sua marquinha após sua morte”, como diria a personagem. A história começa quando Taichi (Kento Hayashi de Arakawa Under the Bridge) em mais um dia pacato deitado no gramado com seus amigos, olha para cima e observa nossa protagonista na beira do terraço de um dos prédios da faculdade. Inicialmente ele pensou que ela iria cometer suicídio se jogando lá de cima, mas quando Taichi chega lá em cima após uma breve corrida, descobre que ela apenas estava admirando a paisagem. Posteriormente a protagonista se une ao grupo de amigos do Taichi e aos poucos essa doce menina, já consciente de sua doença terminal, vai construindo um relacionamento que tende a ir além da amizade com Taichi.

Essas pouquíssimas linhas é tudo oque você deve saber sobre o plot de Mioka. Tragédias não costumam variar muito a formula (plot para esse tipo de série é irrelevante, basta saber que temos uma menina com doença terminal que em muitas das vezes morre no final) e com o tempo os conceitos, clichês, arquétipos e temas recorrentes do gênero vão sendo facilmente identificados pelo espectador. Isso de forma alguma é péssimo, é natural. Todos os gêneros (TODOS) tem seus arquétipos e ainda assim continuam saindo muitas coisas diversificas e criativas de qualidade por aí, é só saber utilizá-los.

Aliás “não costumam mudar de formula”, mas isso não é seguido a risca, cada dorama possui suas peculiaridades e Mioka, não só nome do dorama como nome da protagonista (interpretada por Yoshitaka Yuriko de Snakes and Earrings; Love Shuffle e GANTZ), é uma personagem deveras carismática. Inicialmente apenas uma personagem louquinha que está prestes a morrer e como consequência começa a achar tudo belo: a sua cidade é linda, o céu maravilhoso, a vida esplêndida. Mas depois pegamos simpatia pela personagem pois esse seu novo jeito de viver e enxergar as coisas é bem dosado, tem seus limites, e mesmo que o ultrapasse, chega a ser convincente com o mundo e com a situação em que Mioka se encontra, até mesmo com aquele típico papo de “aproveitar a vida ao máximo sem se preocupar com os outros” algo que não faz muito sentido em nosso sistema padronizado, irreal diria, mas Mioka, já devidamente a par de sua vida limitada, resolve seguir esse caminho: sempre está trocando de namorado; falta nas aulas desinteressantes; fica no beiral do último andar de sua faculdade; não exita em enfrenta a homens em uma briga. Tudo feito sem medir esforço, sem pensar no futuro, sem se preocupar com sua doença. Quanto mais ela lembrar o que ela tem e o que lhe aguarda no futuro, pior, então, porque não esquecer que está doente e apenas viver feliz do jeito que quer? Claro, tudo isso deve ser bem dirigido e controlado, ao contrário se torna uma personagem ridícula, mas Mioka é sim bem dirigido, entregando uma ótima personagem de início.

Seu jeito alegre de viver, além de dar uma certa qualidade a personagem também dá um clima mais íntimo ao dorama. Não só, quem assisti doramas com certa frequência já deve ter percebido o quanto os personagens são distantes, pouco calorosos, ao contrário de nós brasileiros com nossos beijos nas bochechas, andando abraçados nas ruas ou ainda sentando no colo do companheiro. No Japão isso tudo é muito deselegante, estranho, questão de cultura apenas, mas é legal ver uma quebra desse padrão mesmo que de forma muito (muito) mínima ocorrendo em Mioka, uma personagem que não se importa com o que os outros pensarão por ela gritar para seu namorado que o ama; querer andar de mãos dadas com ele; ou apenas gritar de alegria.

Mas devo dizer que Mioka é uma personagem deveras repetitiva, seus conceitos são repetidos inúmeras vezes, repetições essas divididas por fases: a fase do tentar deixar sua marquinha assim que morrer; a fase de amar seu namorado; a fase de amar seus pais; ou ainda a fase de agradecer por viver. Mas em cada uma dessas fases somos massacrados por esses repetidos conceitos que acabam deixando o dorama um pouquinho mais lento do que deveria. Enquanto poderia dar ênfase em ir “tirando as perninhas” de Mioka (entenda isso como ir matando Mioka bem aos poucos dando maior atenção em seu sofrimento) tal repetição acaba sendo algo falho em Mioka. Engraçado que foi onde 1 Litro de Lágrimas acertou em cheio, não ter medo de fazer a personagem “sofrer”: sofrer com preconceito; sofrer para subir as escadas; sofrer por causa dos vizinhos; sofrer para pegar um ônibus; sofrer por não poder jogar bola. Coisas simples e fáceis de serem executadas mas que adicionam em muito para um desenvolvimento mais amplo da personagem, um desenvolvimento mais versátil do roteiro, às vezes forçado, é claro, cliché até, mas dentro do aceitável.

A progressão da doença de Mioka é de fato lenta, porém o drama é progressivo, existe de fato um drama familiar, o amor de mãe e filha em Mioka é excelente. A mãe por vezes confusa, errada, desesperada e depois preocupada, conformada. Triste. Mas esse tal drama familiar está lá e serve perfeitamente como apoio a lenta progressão da doença de Mioka, assim como outros doramas e animes do mesmo gênero que usam e abusam da amizade de colegas como ponto a ser mais bem desenvolvido e enfatizado dentro de um drama descartando o foco no sofrimento.

Aliás, um ponto que pode desagradar bastante o espectador e que poderia se tornar algo fortíssimo em Mioka é o mal desenvolvimento e a  falta de exploração do grupo de amigos de Mioka e Taichi. Inicialmente é um grupo muito agradável, promissor, às vezes a válvula de escape de toda aquela situação que o dorama se encontra. Porém, de repente já não são tão importantes na obra, são deixados de lado, passando a ser apenas um grupo bobo e forçado de amigos da protagonista, o que é uma pena já que são personagens tão importantes. Claro, assistindo o dorama percebe-se que é sim um grande estereótipo chato, mas de início não chega a incomodar tanto quanto a personalidade de Mioka, mas poderiam ter seguido em diante pois caso fosse bem desenvolvido também poderíamos encontrar um ótimo resultado.

O curioso do roteiro é que mesmo não sendo brilhante ele consegue construir situações muito interessantes, principalmente na quebra de ritmo da vida de Mioka que, quando está ali em seu ponto mais alto de felicidade intensa é surpreendida pelo andamento inesperado de sua doença causando um choque muito grande tanto na personagem quanto no espectador, todo um clima é construindo em volta dessas situações chaves. Tais situações que não ficam restritas apenas a progressão de sua doença, mas também em situações do dia a dia, como em uma conversa com algum desconhecido que solta um “Não vejo a hora de ter ver entrando na igreja com um vestido de noiva”, entre outras falas relacionadas muito bem construídas que ferem muito a personagem.

O romance também a de se destacar, interessante pelo protagonista se apaixonar por uma menina que, coincidentemente, tem uma doença terminal, o que aparentemente acaba sendo um estímulo para que Taichi leve aquele caso mais a sério e assuma o namoro, aceitando a responsabilidade de lutar ao lado dela, mesmo sabendo que será deixado ou esquecido brevemente. É um romance bom sim, diria que bem real inclusive, convincente, não contempla cenas muito lindas, mas Taichi serve como um elemento a mais na história para que a mesma se torne mais fantasiosa, bonita e redonda. Logo, necessário neste caso.

Mas infelizmente muitos desses momentos são estragados por Kento, ator que interpreta Taichi, e, evidentemente, ele é o que mais aparece em tela, vez em outra até mesmo mais que Mioka, o que é triste pois faltou naturalidade na atuação de Kento, sem contar as expressões muito repetidas que incomodam bastante. Já Yuriko – atriz de Mioka – e, principalmente os pais da personagem, são excelentes, cumprem bem seus papéis e no caso da mãe de Mioka, Kaori, interpretada por Maya Miki, é a absurdamente acima da média.

Mioka não chega a ser uma história tocante, o gênero não é lá muito comum no Japão e comparar diretamente com 1 Litro de Lágrimas é de fato um pouco absurdo, mas não deixa de ser uma temática interessante em ser abordada, não apenas para ter consciência de “problemas” como esses, mas também como um modo de enxergar como uma outra pessoa encara a vida ao se deparar com tais problemas. Como dito, apesar de toda ficção, fantasia, e produção, é possível ser bem realista. Não só, é uma maneira de você reforçar sua própria vida ao ver tragédias como esta, tragédias que mostram a fragilidade da vida de um humano e o tempo limitado que temos. Mioka cumpre bem esse papel de reflexão. Dorama recomendadíssimo, mas se não viu 1 Litro de Lágrimas antes, o veja.

“Não tem como, estou triste.

Estou só! Estou só!

Tempo! Pare!”

– Aya Kito

Olá, sou Trucyx, escrevi por algum tempo no falecido Subete Animes […]