Kuuki Ningyou – Air Doll – J-Movie

Era uma vez uma boneca chamada Nozomi…

Uma boneca inflável de um modelo barato, dessas comuns de sex shops. Seu dono, Hideo (Itsuji Itao), é um homem de meia-idade, que mora sozinho e trabalha como atendente numa lanchonete. Ele passeia, banha, conversa (ou melhor, tem monólogos) e, obviamente, faz sexo com ela. Até que um dia, após seu dono sair para o trabalho, Nozomi inexplicavelmente ganha vida. Ela não “nasce” já madura, é claro, então aos poucos, entre um passeio e outro, aprende a falar, a andar, a se portar, enfim, adquire as habilidades e conhecimentos essenciais ao mundo onde acabara de entrar, tudo isso sem que seu dono soubesse.

Num de seus passeios, movida pela curiosidade, acaba entrando numa locadora de vídeo onde conhece Junichi (Arata). Logo ela também consegue um emprego lá, embora não conhecesse nada sobre filmes. É Junichi que se torna seu guia, explicando não só sobre cinema mas também respondendo suas dúvidas bobas sobre o mundo, sobre as flores, as estrelas, o mar, a vida.

Em meio a isso surgem outros personagens secundários, cada um como um estereótipo comum ao cotidiano japonês: a office lady que está ficando velha e teme a perda do emprego, o pai solteiro que cuida sozinho da filha, o senhor de idade da praça, a viúva solitária, a jovem bulímica, o hikikomori. Embora todos tenham em algum momento feito parte da existência de Nozomi, nenhum deles é aprofundado. Eles são o recurso que o diretor utiliza para expressar o tema principal, que é a solidão no meio urbano.

É sempre interessante ver como há uma variedade de obras influenciadas pelo tema no contexto de uma sociedade coletivista como a japonesa, onde as pessoas devem seguir o tatemae, o comportamento e forma de pensar esperado pela sociedade, e ocultar seus honne, os verdadeiros sentimentos e desejos. Esse contraste entre a conduta pessoal e a conduta social acaba criando relações totalmente superficiais, que não suprem a necessidade humana dos outros para preencher nossa própria existência.

A própria figura da boneca é uma alegoria para o produto dessa superficialidade nas relações: humanos que são totalmente vazios por dentro, como bonecos. E, de fato, o filme argumenta que humanos e bonecos não são tão diferentes assim. Da mesma forma como Hideo, quando Nozomi some, compra outra boneca e dá a ela o mesmo nome, empregadores trocam funcionários mais velhos por jovens, hikikomoris trocam o contato social pela reclusão em casa, etc. Tudo se torna vazio e substituível.

Certo, uma mensagem forte e muito bem entregue, mas que se tornou uma faca de dois gumes. É até um pouco difícil admitir, visto que sou um grande fã de Air Doll, mas o filme acaba se limitando a isso. Quanto a desenvolvimento, não há um desenrolar interessante ou personagens aprofundados, pelo contrário: personagens como Junichi se comportam de forma nem um pouco verossímil.

Na segunda metade, onde Nozomi começa a descobrir as frustrações de ter um coração, havia tantos caminhos interessantes a serem explorados ou outras mensagens a serem transmitidas, mas o diretor preferiu simplesmente continuar batendo na mesma tecla. Dessa forma, o que poderia ter sido exibido perfeitamente em 80 ou 90 minutos acabou se extendendo a duas horas.

Por isso, recomendo que aprecie Air Doll não como uma narrativa em si, e sim como uma experiência audiovisual. No que peca em história, acerta em arte e técnica. Nesse sentido eu tenho poucas objeções, nomeadamente alguns ângulos nas cenas finais, mas coisas pequenas e quase irrelevantes.

Mesmo com personagens rasos, temos atuações bastante fortes. Não tem como não elogiar, por exemplo, a atuação da coreana Doona Bae (O hospedeiroMr. Vingança) como Nozomi. Ela encarna perfeitamente a boneca desajeitada com suas expressões, movimentos e características físicas. Suponho que até mesmo o fato de não ter fluência nativa em japonês tenha a ajudado a melhorar suas falas. Suas (várias) cenas de nudez são apresentadas de forma natural, sem sexualização de qualquer tipo. Mesmo sendo um objeto de luxúria, o objetivo não é mostrar seu aspecto sensual e sim a puerilidade de quem acaba de conhecer o mundo.

A cinematografia e os cenários também são excelentes e, somados, alcançam com maestria o objetivo de apresentar Tokyo como uma cidade solitária. As casas velhas no subúrbio, o metrô, as ruas e praças vazias, filmadas com cores frias, pintam um belo constraste com a imagem comum que temos dela de uma metrópole superpopulosa, que não para.

A música é outro ponto forte. Composta por Katsuhiko Maeda, do World’s End Girlfriend, tem o toque “conto de fadas” que a obra exige. Starry Starry Night, outro filme que já comentei aqui e com o mesmo compositor, utiliza a trilha sonora de forma mais ordinária, ao passo que aqui a música se integra de tal forma que, muitas vezes, fala mais que as próprias cenas.

Somando o cuidado com os enquadramentos e movimentos da câmera, a delicadeza da música e eventualmente do texto, obtemos um resultado que muito se assemelha a videoclipes. Algumas cenas, e aqui eu destaco a do poema e a do criador das bonecas, utilizam desses três tipos de estímulos simultaneamente para se tornarem marcantes e, no meu caso, inesquecíveis.

Finalizando, Air Doll é uma experiência emocionante e valiosa, apesar de seus defeitos. Eu até mesmo o prefiro à magnum opus do diretor Hirokazu Koreeda, que é Dare mo Shiranai, justamente pela abordagem mais intimista, a temática com a qual facilmente nos identificamos e pelo notável trabalho audiovisual.

Era uma vez uma boneca chamada Nozomi… Uma boneca inflável […]