Bin-jip – 3-iron – K-Movie

Às vezes acontece de procurarmos algo pra assistir, lermos a sinopse e acabar não convencendo muito. Na maioria das vezes simplesmente deixamos de lado, mas se há algum fator especial que nos atraia, como um diretor ou ator favorito, acabamos dando uma chance. Foi o que aconteceu com 3-Iron. Parecia uma proposta muito arriscada para dar certo, mas não é que funcionou?

Eu tenho que admitir que sou um grande fã do Kim Ki-duk, o diretor, que recentemente ganhou o Leão de Ouro pela sua obra Pietà. Algumas de suas outras produções são Time, que questiona sobre a própria identidade em uma sociedade de aparências, e Samaritan Girl, sobre prostituição juvenil e o impacto familiar dela. Todos eles são grandes tapas na cara, mas, ainda assim artísticos e universais, sem se limitar muito ao contexto em que foram criados. Em 3-iron, por sua vez, é debatida a situação do casamento em uma sociedade demasiadamente patriarcal como a sul-coreana.

A escolha da temática não surgiu do nada, e um pouco de contexto se faz necessário: a Coreia do Sul é o país com mais desigualdade de gênero entre o primeiro mundo[1]. Tendo sido subdesenvolvida até o final do século passado, não conseguiu abandonar seu pensamento patriarcal que tem suas origens no confucianismo. É dessa filosofia que vêm a ideia das três submissões: as mulheres devem ser submissas aos pais antes do casamento, ao marido durante e ao filho após a morte do marido. Isso acaba servindo como justificativa para possessividade e agressividade: 1 em cada 4 sul-coreanas relataram já ter sido agredidas pelo marido[2].

Mesmo que tenham ensino superior, no trabalho as mulheres são pagas em média 38.9% menos[3] que seus colegas homens. Há uma grande pressão social para que encontrem um marido antes dos 30, sendo que casamentos arranjados ainda são uma prática comum. Após o matrimônio, o comportamento esperado é de que abandonem seus empregos e dediquem o resto da sua vida a cuidar da casa, do marido e dos filhos[4].

É dessa situação que surge a personagem Sun-hwa, uma ex-modelo que se encontra frustrada em um casamento frio, sendo vista pelo marido apenas como um objeto e nada mais. Já o protagonista Tae-suk (Hyun-Kyoon Lee) é o mais próximo de um nômade que podemos encontrar em uma metrópole. Trabalha distribuindo panfletos publicitários nas portas das casas e, quando percebe que os donos estão viajando, aproveita para invadi-las. Tae-suk, porém, não é um ladrão: ele simplesmente vive a vida de cada um deles por um tempo, comendo, tomando banho e até mesmo lavando as roupas e consertando objetos quebrados.

Uma das casas em que entra não está vazia, embora não perceba, então passa o dia lá enquanto é vigiado silenciosamente por Sun-hwa. Quando é flagrado, Tae-suk vai embora, mas tendo notado suas feridas e seu comportamento, resolve voltar e acaba observando a forma possessiva e agressiva como o marido a trata. Ele não consegue assistir àquilo calado, agredindo-o e solidarizando-se com Sun-hwa, a leva em sua moto.

Ao invés de palavras, a história é narrada pelo silêncio. O próprio diretor disse uma vez:

“eu quero apresentar como os personagens agem e não como falam. Afinal, o cinema tem outras ferramentas para revelar o roteiro e apresentar as emoções, como a música, cor e luz”.

Dá pra ver que essas palavras compõem o mantra de suas obras. Mesmo que a maior parte das cenas se passem em lares, apenas com os sons monótonos do cotidiano, a fotografia e iluminação contribuem para uma atmosfera leve e calma, que é em alguns poucos momentos acentuada por música ambiente oriental ou romântica francesa.

O relacionamento entre os protagonistas se torna mais interessante justamente pela completa ausência de diálogo entre eles. A cada casa pela qual os dois passam, eles se abrem e se conhecem mais um pouco. Se logo no ínicio ela ainda se encontra entediada e infeliz, com o passar do tempo os dois já dividem os afazeres e compartilham a mesma cama. Tudo isso é manifestado apenas com a expressividade dos atores.

Em vez de apresentar sua opinião diretamente quanto às questões levantadas, o diretor apenas grava a vida dos personagens e deixa os posicionamentos a nosso cargo. Pessoalmente, eu gosto de como não há nenhuma verdade absoluta tentando ser empurrada goela abaixo. Não há ninguém ditando que “casamento com mulher mais nova não dá certo”, “mulher também tem que trabalhar” ou ainda que “divórcio é a solução”. É como se ele dissesse que embora as pessoas apresentem problemas, cabe a nós, seres de carne e osso, solucioná-los na realidade.

Desta forma, 3-Iron consegue ser romântico sem ser meloso, leve sem ser superficial e repleto de significado sem ser denso: características que muitas vezes são sinônimos foram devidamente distinguidas aqui. Recomendo tanto para uma apreciação despretensiosa como para uma reflexão mais profunda, e também como porta de entrada para o cinema de Kim Ki-duk.

Depois de assistir, leia algumas comentários contendo minhas interpretações sobre algumas pontos que me chamaram à atenção, logo abaixo. Lembrando que não considero de forma alguma minha análise absoluta e, caso você tenha enxergado de outra forma, sinta-se à vontade para comentar.

A partir daqui poderão haver spoilers. 

Mesmo não sendo feita explicitamente, o espectador consegue perceber que há uma espécie de divisão do longa em atos menores e coesos. No início do segundo, há uma reviravolta que separa o casal, o que se prova uma jogada inteligente. Em vez de transformar tudo em uma descrição entediante da aproximação e das pequenas aventuras dos dois, essa separação foi excelente para permitir que os personagens pudessem crescer individualmente.

Não é minha intenção fazer um discurso enorme sobre, mas fica bem claro que Sun-hwa é a personagem que representa essa mulher sul-coreana que eu abordei nos parágrafos iniciais. Vários momentos explicitam a transformação dela, como, por exemplo, quando uma das casas invadidas é a de um fotógrafo que já havia registrado Sun-hwa. A reação dela, de transformar a foto em um quebra-cabeças, nos mostra a determinação dela em esquecer seu passado. O corte do cabelo e mesmo o vestido que usa, o qual o marido odeia, também revelam essa nova identidade que Sun-hwa busca. Quando volta para as mãos do marido, ela já demonstra ter muito mais voz e controle sobre si própria.

Os acontecimentos relativos a Tae-suk são ainda mais interessantes. Tae-suk é um rapaz, independente da situação, íntegro. Mesmo tendo sido acusado injustamente de diversos crimes, prefere ver como as coisas se desenrolam naturalmente a se precipitar e inventar justificativas. A prisão que vem a ocorrer foi, para ele, uma oportunidade de desenvolver as habilidades de luta e furtividade necessárias para que pudesse realizar sua vingança.

O conceito de vingança daqui é um pouco diferente daquela cega a que estamos acostumados, tanto que nem acho essa palavra muito apropriada, está mais para “devolver à medida do sofrido”. A primeira coisa que faz quando em liberdade é acertar suas contas com o agente corrupto que o prendeu, e não com o marido de Sun-hwa, que o havia torturado (até porque Tae-suk já o havia castigado antes).  Os passeios que faz nas casas que havia visitado são relacionados a essa ideia de devolução.

As cenas finais, por conterem a única fala de Sun-hwa em todo o script, acabam tendo um impacto emocional especial, com o humor leve contrastando com as cenas carregadas anteriores. A opção por mostrarem apenas o reencontro dos dois de início me deixou com a dúvida óbvia de “será que ela vai se separar do marido ou vai continuar tendo Tae-suk apenas como amante?”, mas essa é a pergunta errada.

Como já devo ter dito, a graça de 3-Iron não é o desfecho, e sim desenvolvimento dos personagens, os pequenos detalhes e as reflexões que nos traz. Não há um “felizes pra sempre” e até mesmo se o final é, de fato, feliz é questionável. Não há um “caminho certo” que todas as Sun-hwas devem seguir. Não adianta Sun-hwa ser feliz na ficção e nada mudar para as Sun-hwas da vida real.

Às vezes acontece de procurarmos algo pra assistir, lermos a […]