Ai no Mukidashi – Love Exposure – J-movie

Primeiramente as apresentações. Me chamo Luiz Rodrigo (twitter), programador e empreendedor, apaixonado por matemática, linguística, música e outras coisas mais. Algumas vezes por mês vocês me encontrarão por aqui apresentando-os a alguns títulos que representam a diversidade que fez eu me apaixonar pelo cinema japonês, coreano e até mesmo chinês. O objeto dessa minha primeira resenha foi escolhido especialmente por possuir diversas das características que me atraem, portanto, espero que gostem.

De cara eu devo comentar que Love Exposure é um grande Hit or Miss: ou você ama ou você odeia. Espero que você seja um dos que ame, pois esse longa aqui levará quatro horas do seu tempo, mas eu adianto: compensa.

Love Exposure, em suas quatro horas, é um filme bastante diverso em gêneros: começa dramático, tendo uma transição sutil para uma comédia (bem trash, algo que você não encontrará facilmente no cinema mais próximo de sua casa), engatando um grande suspense no começo da terceira hora e, por fim, fechando com um melodrama que fará quem acompanhou por completo chorar como uma criancinha.

Como o nome talvez indique, é uma história de amor. Mais precisamente, é um épico centrado nesse amor, o qual é usado como ponto de partida para vários outros temas, como perversões sexuais, lesbianismo, religião, alienação, distúrbios psicológicos, serial killers e muito sangue. Não recomendo para pessoas que se ofendem facilmente.

O plot gira em torno de três personagens, sendo o principal deles o “mocinho” Yu Tsunoda (Takahiro Nishijima), um garoto de família católica que ainda criança perdeu sua mãe para uma doença incurável. Antes de morrer, ela o havia o orientado para que encontrasse para si uma mulher como a Maria bíblica. Com Yu já aos 17 anos, seu pai, Tetsu, que se tornara padre, acaba entrando em um relacionamento com uma mulher chamada Keiko (violando o celibato). Mesmo tendo durado pouco, fez com que ele se tornasse cada vez mais severo com seu filho, obrigando-o a confessar seus pecados diariamente, até que um dia decidiu abandoná-lo em casa e mudar-se para a igreja. É aí que Yu entra pro submundo das lutas, furtos e do tosatsu (a arte marcial de tirar fotos das calcinhas das pedestres sem que elas percebam).

A “mocinha” é Yoko Ozawa (Hikari Mitsushima). O pai de Yoko é um mulherengo, que andava com uma mulher diferente todo mês, mesmo que a mulher que mais desejasse fosse sua própria filha. Sabendo disso, Yoko nutre ódio por ele e por todos os homens. Uma das várias mulheres de seu pai é justamente Keiko. Mesmo após terminado o affair, Keiko e Yoko decidem morar juntas. Esse é o ponto de partida para que Yoko tenha contato com o cristianismo e, mais tarde, com Yu.

Como não podia faltar, temos uma vilã, Aya Kyoko (Sakura Ando). Vende artigos religiosos superfaturados, faz tráfico internacional de cocaína e, mais importante, é a líder regional da Igreja Zero, um controverso culto cristão que usa de todos os meios para atrair novos membros e fazer neles sua lavagem cerebral. Após conhecer Yu em uma noite de tosatsu e descobrir que o pai de Yu é um padre, monta um plano: converter os dois à igreja Zero, na esperança de, com isso, converter à Zero também todos os membros daquela congregação.

Aya é não só uma excelente estrategista como também uma espiã, descobrindo tudo relacionado ao passado de Yu, Yoko e suas famílias, explorando as fraquezas deles para conseguir a conversão. A única pessoa que não cai nos planos de Aya é Yu, que após perder toda sua família à Zero, dedica-se até o fim a recuperá-los, desvendar os mistérios da Igreja Zero e revelá-los à sociedade.

Os personagens não são realistas, assim como muitos detalhes da história, mas é essa a essência de Love Exposure. Eu diria que são até caricatos, especialmente os secundários, como um dos amigos de vadiagem de Yu que anda com roupas furtadas cheias de etiquetas de desconto. As atitudes e personalidades dos protagonistas são bem irreais, mas no contexto aleatório do filme fazem todo o sentido.

Provavelmente o ponto fraco mais perceptível dessa obra é a atuação do casal principal, que mesmo não sendo ruim, não convence muito. Se relevado isso, pode ser até considerado um toque humorístico. Aya, por sua vez, teve uma excelente interpretação, tendo inclusive rendido à atriz, Sakura Ando, alguns prêmios. Uma vilã sociopata, maquiavélica, de humor sarcástico e provocativo, que ri e tira sarro de suas vítimas, e mesmo assim ainda as engana fingindo ser uma garota fofa e ingênua quando precisa.

O plot corre bastante rápido, considerando que cobre um período de aproximadamente dois anos, apesar da duração. Tem narrativa não-linear, sendo dividido em capítulos que têm como função focar um personagem específico ou cobrir eventos importantes, ao invés de meramente dividir a história em pedaços.

A trilha sonora é diversa, mesmo sendo bastante trivial. Consiste basicamente de algumas composições clássicas famosas, como Bolero de Ravel e o Alleggreto da Sinfonia #7 de Beethoven (se não as conhece pelo nome certamente reconhecerá quando ouvir) e algumas músicas japonesas contemporâneas que desconheço, todas elas sendo bastante repetidas no decorrer das cenas. É uma opção que não daria certo na maioria dos outros casos, mas que se encaixa bem na natureza crua da obra.

A direção de Sion Sono e a fotografia de Souhei Tanigawa são magistrais, captando o estilo mais adequado a cada momento e o utilizando. Ângulo, cortes, closes, efeitos, tudo muda se o momento for engraçado ou trágico, se a intenção é ser rápido ou lento, servindo como catalisadores das emoções que querem transmitir.

Aqui encontramos algumas características típicas do cinema de Sono, como temas polêmicos, cenas perturbadoras, a narrativa permeada por idas e vindas no tempo, além do experimentalismo. A grande sacada foi conseguir reunir todos esses elementos de forma acessível para o público que não é acostumado com todo esse vanguardismo, sem perder sua essência. Sendo famoso por criar experiências que deixam o espectador confuso e perturbado, exigindo serem assistidas duas ou até três vezes, nos trouxe uma trama direta, com personagens transparentes e objetivo claro, sem se perder em simbolismos.

Love Exposure é considerado pela crítica o magnum opus do diretor, também responsável por Suicide Club e Exte, ambos de grande notoriedade até mesmo nos festivais ocidentais. Contudo, nem mesmo as mais renomadas obras estão isentas de críticas. Algumas atuações fracas e momentos que passam vagarosamente demais podem acabar decepcionando um pouco quem esperava encontrar perfeição. Entretanto, nada disso mata o apelo do filme. É uma experiência única na cinematografia japonesa, que não deve de forma alguma ser deixada de lado.

Trailer:

Primeiramente as apresentações. Me chamo Luiz Rodrigo (twitter), programador e […]

4 thoughts on “Ai no Mukidashi – Love Exposure – J-movie”

  1. Esse filme é épico em todos os sentido da palavra, só que é um grande “ok, foda-se”.
    O Sion Sono é um grande cineasta desses filmes porra louca, só assistindo inteiro para entender o que é um filme dele, só que não há garantias de que você vá entender do que se trata.

    Assisti alguns filmes dele e todos compartilhavam um grande clímax em que ele coloca uma música com batida constante para dar tensão, coloca os personagens em um ambiente fechado e deixa a merda acontecer. Entretanto tudo parece ser resumir a uma gritaria infernal para te confundir ao invés de te esclarecer o que você não entendeu daquela situação toda.
    Chega na hora H o Sion parece engasgar e começa a gaguejar, não sabe o que dizer, ou pelo menos não consegue desembuchar.

    Eu achei Love Exposure (e assisti a suas 4 horas direto madrugada adentro feliz da vida) um filme maravilhoso, mas chega o final eu não consigo elogiar. Aquela cena da praia foi muito burocrática, ele parece que se perdeu ali. Tudo bem aquele ponto ser um anticlímax, o Yu pega a Yoko e vai fazer e acontecer mas não faz. Mas então ele vem e começa regurgitar Coríntios 13 na minha cara? Por favor, faça melhor que isso.
    No final parece ser um monte de gente doida, muito feio o Yu fazendo escândalo no final como se tivesse visto e tendendo algo mais horrível do que já tínhamos presenciado.

    Eu entendo a parte do Yu amar a Yoko e ela se sentir mal por isso, porque o amor dele é possessivo, e aí que entra o C13 e ele faz sentido, mas porra! a garota estava perdida, ele não queria ter ela só para ele ou abusar dela, ele queria dar uma vida decente para ela longe de aproveitadores e onde pudesse ser amada de verdade. Para ela a forma certa e justa como ele deveria amá-la era não se importar, deixar se perder pela vida, sofrer e se tornar uma puta velha se não morresse cedo? Não acho isso tão certo. É escolha dela, ok, eu tendo “não quero você, para de me aporrinhar”, mas não foi isso que ela disse, o que ela disse ali foi “se quiser me amar, vai ter que ser do meu jeito”.
    Ai não dá, parece que o Sion confundiu Liberdade com Amor. A questão ali era liberdade para amar, fugiu um pouco do conceito de amar e das formas de amar.

    Enfim, foda-se.

    1. Hahaha, os filmes do Sono são bem “foda-se” mesmo. Dos que eu assisti, esse é o mais fácil de entender. Suicide Club e Strange Circus são quase dadaístas, bem complicados.

      A cena da praia é realmente broxante (estava pensando especificamente nela quando falava de cenas que passam lentas demais). Parece documentário, um esperando o outro fazer alguma coisa e nada acontece. Quebra bem o clima do filme, mas no meu caso e no de algumas pessoas com quem discuti o filme, não chegou a acabar com tudo, e o final de alguma acabou agradando. Será que pra amar o filme precisa levar no “foda-se”?

      1. A partir do momento em que o pessoal fez uma seita/arte marcial/gangue sobre fotografar calcinhas… sim, é belo “foda-se, esse filme é foda!”.

        E o Yu tentando conquistar a Yoko em um romance lésbico fantasiado de Scorpion… meu deus do céu! Assistam isso!

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