Corrente de Reviews: Scrapped Princess

Ontem iniciou a Corrente de Reviews, evento idealizado pelo Didcart do blog Anikenkai onde exatos 31 blogs irão analisar e comentar cada uma obra diferente, seja um anime ou um manga, escolhidas de forma secreta por outro blog participante. A primeira indicação – não poderia ser diferente – foi dada pelo próprio Didcart com a Mary Vanucchi do blog Across the Starlight falando sobre o anime de Genshiken. E seguindo a corrente, venho para ser o segundo, falando sobre a obra Scrapped Princess.

Antes de começar a falar sobre o anime em si, serei sincero em dizer que até o momento da indicação eu só conhecia Scrapped Princess por nome e ainda assim confundindo com outro anime. Após fazer minha pesquisa inicial, descobri se tratar de um anime de 2003 do estúdio Bones, o que me fez pensar, afinal, se esse anime fosse bom, porque eu praticamente nunca havia ouvido falar dele direito? Minha primeira reação foi xingar mentalmente quem quer tivesse me passado um anime de 24 episódios que, aparentemente, ninguém fazia questão de lembrar, ainda mais com a minha sorte de cair em segundo na corrente.

Baixei a série com certa relutância, imaginando no esforço que seria ver todos aqueles episódios em um curto espaço de tempo sem nenhuma garantia de ser algo pelo menos bom. Mas agora, após terminar de assistir à Scrapped Princess, devolvo os xingamentos internos para mim: Como você não havia visto esse anime antes?!

Baseado em uma série de light novels de 13 volumes iniciada em 1999 e encerrada em 2005 escrita por Ichirou Sakaki, Scrapped Princess (algo como “A princesa fragmentada”) conta a história de Pacifica Casull, que marcada pela profecia de que seria o veneno que destruiria o mundo de “Dustvin” quando completasse seus 16 anos, viaja junto de seus dois irmãos adotivos – Shannon e Raquel Casull – buscando fugir da caça feita pelo reino  Leinwan e pela igreja do seus Mauser que após falhar em matar a Scrapped Princess quando recém-nascida, buscam com todos os recursos mata-la antes que a idade da profecia chegue.

A obra se inicia de forma bem simples, com os irmãos Casull viajando e lutando para manter viva sua irmã mais nova. Shannon é um habilidoso guerreiro, enquanto Raquel é uma poderosa maga. Já Pacifica, por mais que seja a Scrapped Princess, não aparenta ter muita força, renegando-se a ser ajudada pelos irmãos enquanto segue no seu quase tsunderismo em forma de cachinhos loiros e olhos azuis.

Se os primeiros episódios são basicamente episódicos, com o enfrentamento de inimigos menores e a apresentação de alguns personagens que serão importantes na trama, com o passar do tempo começa-se a perceber uma mudança gradual no enfoque “Fantasia Medieval” onde a obra parece se situar para algo… diferente. Inicialmente, podemos pensar que são exageros de produção, mas cada vez mais presentes, esses detalhes vão entregando os mistérios da obra e fazendo-a crescer para muito além do seu estereótipo inicial.

É complicado falar da qualidade de Scrapped Princess mais a fundo sem cair para o lado dos spoilers, então caso você não tenha visto a série e queira ser totalmente surpreendido por essa ótima obra, pule para o ponto “Fim do Spoiler” e continue lendo o post.

Inicialmente mais uma obra se passando em uma releitura da idade média com toques de fantasia, Scrapped Princess vai aos poucos – e aqui está uma das suas grandes qualidades: dosar bem as informações a serem passadas para criar o bom impacto no espectador – revelando mistérios por trás dos mundo de Dustvin ao apresentar um pouco de tecnologia que você não esperava encontrar, ruínas antigas que remontam à arquitetura da nossa atualidade, túneis abandonados que na verdade eram linhas de metrô. São com esses pequenos detalhes que o espectador começa a ficar intrigado, desconfiado de que ali existe mais do que se poderia esperar. E é justamente no auge dessa desconfiança que a obra se revela.

Scrapped Princess se passa na verdade no futuro, onde a humanidade é controlada para se manter em uma fase estável de desenvolvimento tecnológico e cultural após ser derrotada 5000 anos atrás em uma guerra com povos alienígenas. Preocupados com a sustentação do universo e da própria humanidade, esses povos de outros lugares intervém na Terra a fim de interromper esse ciclo de auto-destruição.

Para lutar contra, a humanidade desenvolve os chamados Peacemakers, seres com grandes poderes com o objetivo de salvar a humanidade. Mas é justamente por buscar salvar seus criadores que os Peacemakers se aliam aos inimigos em busca de permitir que a humanidade continue a existir, servindo como guardiões dos seres humanos pelos últimos 5000 anos, agora presos em um sistema artificial que os impede de se desenvolverem novamente.

No entanto, se os Peacemakers conseguem controlar a humanidade com facilidade utilizando-se de poderes psíquicos (ou magia, ou tecnologia, a esse ponto é difícil precisar qual), Pacifica Casull, a Providence Breaker, está imune a esse controle e com o tempo passará essa imunidade para os outros seres humanos, explicando o motivo da necessidade de sua morte antes que seus poderes atinjam a plenitude.

Fim do spoiler.

Scrapped Princess é cativante, o diretor Soichi Masui (em seu único trabalho com esse cargo) consegue imprimir a velocidade certa para que a trama – que sim, possui vários furos – atinja em plenitude o espectador. De um começo simples, o roteiro vai segue crescendo progressivamente até chegar ao seu ápice quando das revelações da verdadeira natureza de seu mundo, seguindo dali de forma constante até o final.

Mas então, se eu afirmo que o anime é tão bom assim, como ele pôde ter sido esquecido tão facilmente durante esses anos? Afinal, ele está bem no meio das obras até hoje lembradas (e até certo ponto veneradas) Wolf’s Rain e Fullmetal Alchemist na cronologia de produções do estúdio Bones. Vamos por partes.

Apesar de apresentar um senso cinematográfico ótimo, superando o que poderia ser um problema com a animação sem grandes investimentos, a verdade é que, se assistir Scrapped Princess hoje é já uma experiência um pouco complicada pelo visual e animação datados, mesmo naquela época os animes já começavam a caminhar para uma mídia áudio-visual diferente. Arrisco a dizer que ScraPri, enfiada entre duas grandes produções do início dos anos 2000 como já citado, foi entregue a um orçamento possivelmente baixo e ficou renegado a um modo antigo de fazer animes enquanto os grandes blockbusters caminhavam em outra direção.

Aqui acaba indo muito para o lado pessoal de quem assiste, até que ponto uma animação realmente influi na qualidade de uma obra e até que ponto uma animação influi na forma como você encara uma obra?

Porém, eu fiquei muito propenso em usar um argumento que odeio para tentar explicar o esquecimento de Scrapped Princess com o tempo – “Não gostou quem não entendeu”. Percebam que eu não estou usando esse argumento, mas até poderia. A verdade é que a obra, da mesma forma que nos engana quanto à história do seu mundo, também nos engana no seu próprio propósito. A verdade é que as expectativas formadas no início do anime – e até mesmo antes de começar a vê-lo – é de um grande épico envolvendo grandes batalhas medievais pela luta e sobrevivência, envolvendo reinos, magias e espadas. No entanto, o foco em nenhum momento está na ação. É só percebermos como as batalhas são rápidas, sem grandes movimentos e muitas vezes terminam de forma frustrante para quem esperava algo mais.

Até certo ponto do anime eu era um desses, sentia com o passar dos episódios que apesar da obra ser muito interessante, faltava um ponto mais épico para que tudo valesse a pena. Até que entendi – ou pelo menos me convenci, vocês podem decidir isso por vocês quando assistirem – que o enredo não se movia pelos personagens ou pela história, esses dois eram planos de fundo que permitissem questionamentos, sim, filosóficos da natureza humana.

E ao perceber isso comecei a aproveitar melhor a obra. Do sentimento de culpa do ser em sua angústia primordial, da liberdade e consequentemente da responsabilidade que nos é condenada, da utilidade máxima dos nossos atos e do valor ético que nossas escolhas possuem, o valor do destino, tudo isso e outros pontos são postos em cena sem a necessidade de grandes alegorias presentes em animes que tem esse propósito como Evangelion. E é justamente ao tomar ciência do verdadeiro propósito da obra que podemos aproveita-la da melhor maneira possível, percebendo que os furos no enredo não prejudicam em nada o objetivo primário.

Claro que isso pode soar como uma grande desculpa, apresentar de forma consistente esse tipo de conteúdo não impede que seja desenvolvido um lado de ação e aventura, Matrix se aproxima muito da ideia de Scrapped Pricess e consegue unir perfeitamente essas características, mas ainda assim, tente assistir Scrapped Princess nessa ótica e verá que mesmo com grandiosos motivos de ficção científica, é nos diálogos trocados entre os personagens que o anime realmente brilha.

Scrapped Princess mais uma vez me mostrou como é vasto o acervo de ótimas obras no passado dos animes e aumentou mais ainda a discussão interna sobre a importância às obras mais recentes no blogar. Também me fez lembrar como 2003 nos apresentou uma safra tão boa de animes, um ótimo período para garimpar alguma pepita de ouro que você possa não ter visto e ninguém ter comentado.

Uma delas é Scrapped Princess.

E continuando com a corrente de reviews teremos o blog Mangatologia. E já que a ideia era dar ao participante um desafio, tira-lo da sua própria zona de conforto, nada melhor que desafiar uma equipe tão focada em mangas para o público masculino como um dos meus shoujos – e na verdade mangas em geral – favoritos: Sunadokei: O relógio de areia.

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