Gyo (OVA)

Apesar de não ter nada contra o gênero, é verdade que não sou um grande leitor de títulos de horror. Posso contar nos dedos os poucos mangas e animes desse gênero que eu consumi. Um deles foi Gyo, obra do notável autor de horror, Junji Ito, responsável pelo famoso manga Uzumaki que havia chegado aqui no Brasil pela Conrad, mas que eu nunca tive chance de ler.

Gyo compõe dois volumes compilados, tendo sido publicado originalmente na revista seinen Big Comic Spirits entre 2001 e 2002. Sendo sincero, primeiro eu li uma outra história que compõe um dos volumes de Gyo; “The Enigma of Amigara Fault”. A partir dessa história eu fui automaticamente fisgado para ler o mais me esperava em Gyo e sua história principal.Sendo bastante econômico aqui já que não estou tratando do manga, podemos dizer que é uma história onde acontece uma invasão maciça no Japão de peixes e outras criaturas marinhas com pernas mecânicas. Soa ridículo? Certamente! Mas a habilidade de Junji Ito em transformar isso em um apocalipse grotesco e inesperado em sua essência, juntando horror com ficção científica, dão à Gyo uma qualidade imensa, pertuba verdadeiramente o leitor sem precisar apelar para as imagens que, sim, chocam, mas não pelo seu visual, e sim pela sensação inquietante que causam ao leitor.

Sendo assim, o anúncio de que Gyo viria a receber uma adaptação animada em OVA pelo estúdio Ufotable (Kara no Kyoukai, Fate/Zero) acabou sendo um misto de empolgação e receio. Depois de muita espera, finalmente ele foi lançado no Japão e consequentemente na internet pelos fansubs e podemos conferir no que deu.

Adianto logo: É a piada do ano.

Por algum motivo misterioso os produtores e roteiristas de Gyo pensaram “Podemos pegar essa história e fazer algo melhor que o Junji Ito!”. Sim, porque como adaptação Gyo passa longe de ser fiel. Temos a trama central (invasão de criaturas marinhas com pernas) e alguns personagens, mas tirando o básico, tudo é novo. E ruim.

Podemos começar com a mudança de protagonista. No manga, toda história gira em torno de Tadashi que vivencia o início da invasão enquanto está de viagem com sua namorada Kaori por Okinawa. Já na versão animada, Kaori está em Okinawa com suas amigas após ter se graduado na faculdade, enquanto Tadashi trabalha em Tóquio. Existe aqui uma completa mudança de foco do manga sem que isso venha a trazer qualidade. Se a Kaori do manga era uma personagem ciumenta, insegura, possessiva e com grande influência na história, neste OVA ela perde toda e qualquer personalidade para virar uma garota atrás do namorado perdido.

Se por algum motivo Tadashi não pode ser o protagonista, escolhe-se então um cameraman para acompanhar Kaori em sua busca. Se Tsuyoshi Shirakawa é um personagem “legal”, ele também é um elemento posto na trama sem nenhum sentido, sem nenhum propósito. Ainda que seja feita uma explicação ao final, ela não convence de forma alguma.

No fim, temos um OVA de 1 hora e 10 minutos sem um único personagem interessante ou mereça atenção do espectador. Sendo sincero, eu estava torcendo pelos tubarões.

A verdade é que esse OVA de Gyo parece uma desculpa para que o diretor Takayuki Hirao possa ganhar um pouco de experiência, mas principalmente, para que ele possa brincar com fetiches e fanservices. Gyo manga, é horror, é choque, é gore, mas é acima de tudo uma história. Gyo OVA é um gigantesco fanservice, com direito a peitos, mamilos, mortes violentas e até mesmo tentáculos (!!!) sem que haja um mínimo de coesão com o sentimento que deveria passar. Em momento algum a obra consegue passar um sentimento de horror, de incômodo.

Pior, reconhecido merecidamente como um estúdio de boas animações, a situação fica ainda mais complicada quando vemos a pobreza feita pelo estúdio Ufotable. Em uma clara obra sem grandes investimentos, a animação é pobre, o CG, normalmente tão elogiado em outras obras do estúdio, é de uma grosseria imensa, ficando próximo ao patamar do CG do estúdio Asread em Mirai Nikki. Vejam aquele tubarão com tamanho de elefante na terceira imagem desse post para ver que não estou exagerando.

Gyo OVA consegue errar em tudo: adaptação, animação, CG, música, direção, ambientação. Não consigo lembrar de nada ali que possa ser salvo. Talvez o único ponto positivo desse título é a possibilidade de dar mais atenção à obra original que merece ser lida, equanto sua adaptação merece ser (e será) rapidamente esquecida.

Quer ler outra opinião sobre Gyo? Dê uma olhada no post do blog Nahel Argama.

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