O "de fã para fã" criou e matou a possibilidade de um mercado de animes no Brasil

Você alguma vez já se perguntou do porquê da existência dos fansubs de anime?

“Mas isso é óbvio, as séries não chegavam no ocidente, então os fãs resolveram fazer de tudo não só para ver aquilo que queriam, mas também para montar uma base maior de fãs e mostrar para as empresas que elas deveriam investir nesse mercado”.

Uma viagem no tempo e no espaço para entender o presente

Ok, essa seria a resposta padrão. Mas é sempre bom voltarmos um pouco no tempo para entendermos algumas coisas. Caso você não tenha acompanhado o #TezukaDay, é preciso dizer que os animes chegaram aos EUA por meados da década de 1960, com obras como Astro Boy e Speed Racer. No entanto, essa leva inicial foi interrompida por movimentos moralistas americanos que tinha como objetivo “melhorar” a qualidade da programação televisiva voltada ao público infantil, sendo o maior expoente deste movimento o “Action for Children Televison“. Ainda em busca de um mercado tão lucrativo quanto o americano, os distribuidores japoneses passaram a investir nas obras com teor mais adulto, o que, em um país onde os desenhos animados estavam tão marcados como produto voltado ao público infantil, resultou em retaliações que afastaram os japoneses do mercado.

Assim, o que poderia ter sido o início promissor da exportação da mídia animada japonesa para os EUA acabou não tendo grande sucesso contínuo, ficando limitado aos canais japoneses da Tv a cabo voltados para as cidades com maior concentração de populações asiáticas, sendo postergado para o final da década de 90 e início dos anos 2000.

É no vácuo deixado durante esse período e o surgimento das fitas VHS – cujo formato era compartilhado entre Japão e EUA, facilitando as coisas – que a ideia dos fansubs (“FAN SUBtitles”) começa a tomar forma nos moldes do que conhecemos, ainda que de uma maneira bem arcaica na década de 70. Como comenta Henry Jenkins no seu artigo “When piracy becomes promotion” de 2004 (e de onde eu tirei parte desse contexto histórico), ainda era um tempo onde grupos se reuniam, especialmente em universidades, para poder assistir às animações japonesas, mesmo que sem legendas. Jenkins conta de suas experiências na década de 70 quando ia a alguns desses clubes e antes da exibição do anime, alguém que entendia japonês narrava o que iria acontecer na tela para que as pessoas pudessem ter uma noção do que estava realmente acontecendo.

É somente na década de 80 e especialmente nos anos 90 que os fansubs começaram a crescer, mesmo que dentro de um processo lento e gradual. Afinal, mesmo com o avanço das fitas VHS, ainda era caro ter os equipamentos necessários para colocar as legendas na tela e as traduções eram bem grosseiras, muitas vezes erradas, mas que permitiam ao fã entender a base do que estava passando.

A ideia daquela época era simples, mas vanguardista: Primeiro, satisfazer as vontades pessoais dos fãs de ter a possibilidade de ter um contato com os animes e, segundo, criar demanda no país. A partir desse processo, muitos grupos e clubes de animes se transformaram em pequenas empresas que licenciaram títulos para trazê-los aos EUA de maneira oficial e com uma qualidade bem maior. Não só isso, a década de 90 marca a percepção por parte das companhias de que existia de fato essa demanda de mercado e que ali havia algo em que se investir. É assim que nasce o mercado norte-americano de animes e produtos relacionados, crescendo vertiginosamente até seu ápice em 2003, quando chegou a ser um mercado de 4.84 bilhões de dólares. Ainda que hoje este mercado tenha caído de valor de forma gigantesca (por diversos fatores que não cabem aqui analisar), em 2009 a JETRO – Organização do Comércio Exterior do Japão (em tradução livre) avaliou o mercado americano de animes e produtos relacionados (incluindo DVD, BD, filmes e goodies) em U$2.741 bilhões em 2009, sendo as vendas de DVD responsáveis por US$306 milhões de dólares (em comparação, no mesmo ano o lucro japonês com vendas de DVD e BD foram de U$865 milhões).

Podemos analisar essa queda de valorização por diversas matizes (crises internacionais, investimentos tardios em exibições online, pirataria etc), mas é inegável que o esforço dos fãs americanos resultou sim em um verdadeiro mercado de anime (e talvez por consequência, mas não posso afirmar com certeza) e mangas no seu país.

E o Brasil?

Apesar dos animes já fazerem parte da televisão brasileira e do cotidiano de um nicho de fãs bem antes da explosão que foi Cavaleiros do Zodíaco a partir de 1994, é com ele que começa nossa história de fansubs e distribuidores. Um dos primeiros – se não o primeiro, infelizmente não achei uma fonte confiável sobre a história dos fansubs no Brasil – grupo a traduzir, legendar e distribuir pelos correios, ainda em fitas VHS à preço de custo, “de fã para fã”, diversos animes foi o BAC – Brasil Anime Club. Fundado em 1997, tinha como mote a mesma ideia dos grupos americanos: Possibilitar que os fãs dos desenhos japoneses entrassem em contato com as obras mais recentes e diversificar as temáticas, além de criar demanda para que os animes fossem levado a sério pelas empresas brasileiras e que um mercado se formasse como acontecera nos EUA.

E de fato isso aconteceu. Posteriormente surgiram outros grupos e a popularização dos computadores pessoais e da internet possibilitou que hoje tenhamos uma gama significativa de fansubs trazendo para o país os mais diversos animes que de outra forma não poderiam ser vistos pelo público brasileiro (que não entende inglês).

Porém, ocorreu uma mudança fundamental no Brasil que nos diferencia do fenômeno nos EUA. Apesar de termos sim criado uma fanbase sólida com interesse maciço nas animações japonesas, o mercado oficial não acompanhou essa deixa e no momento certo nada foi feito.

O que eu quero levantar aqui, primeiramente, é que o Brasil teve um momento muito propício para que o mercado de animes pudesse ter deslanchado. Assim como nos EUA, o início dos anos 2000, com o crescimento fértil dos fansubs na internet à fora, o grande número de produções sendo exibidas nos mais diversos canais com alguns fenômenos de audiência como Pokemon e Dragon Ball Z, era o momento chave da profissonalização desse mercado por aqui. Seja por falta de empreendedorismo dos próprios fãs (se comparmos com os EUA), seja a falta de iniciativa das empresas ou mesmo planejamentos completamente atrapalhados (alguém lembra dos DVD de Vampire Princess Miyu lançados pelo estúdio Gabia?) ou pelas dificuldades burocráticas que são um dos maiores empecilhos para o crescimento do país e para inovações, a questão é que o próximo passo nunca foi dado.

O de “fã para fã” matou o mercado brasileiro de animes

A questão é simples, o primeiro erro cometido foi das empresas, não há como negar. O objetivo primário dos fansubs já foi conseguido há muito tempo, infelizmente sem desencadear o que se esperava. E então surge o outro problema e o porquê desse post. Ainda que o mercado não tenha respondido à demanda dos fãs (e nem penso que vai, principalmente ao ler os posts da Sandra Monte sobre a Licensing Brasil Meeting 2011 no blog Papo de Budega), os fãs não deixaram de existir, na verdade é possível (ainda que sem certezas) afirmar que a demanda apenas aumentou: muitas pessoas assistem e querem continuar assistindo animes. Desta forma, restou continuar refém dos fansubs.

Mas se o momento do início da década passada era propício para a formação de um mercado oficial de animes por aqui, hoje eu acredito que isso é praticamente impossível, justamente por culpa dos fansubs. Daquele tempo para cá ocorreu uma acentuada caracterização na forma como as pessoas querem ter e ver o seu entretenimento. A internet cada vez mais propagada pelo Brasil à fora maximizou a vontade de ter tudo, aqui e agora. Isso torna simplesmente impossível que uma empresa pense em lançar uma série em DVD por aqui, exceção feita aos clássicos que por sofrerem com o saudosismo das pessoas conseguem superar essas dificuldades (vide Cavaleiros do Zodíaco). Até que o contrato seja assinado e o todo o processo de produção dos discos seja feito, o fã não só já viu a série inteira como também a possui em seu HD/DVD/BD na melhor qualidade possível e de graça!

No entanto, se o “de fã para fã” ainda resista em alguns pequenos pontos de forma genuína e honesta, a verdade é que ele serve como desculpa aos fãs e aos “fansubs” (que de fãs não tem quase nada) para perpetuar um modelo de comportamento completamente antropofágico. Se antes o movimento “de fã para fã” tinha algo a alcançar, o “de fã para fã” atual é o maior perigo e o maior impedimento para que sequer exista um mercado brasileiro de animes.

Como eu afirmei no meu post sobre a briga do Punch x Sites de Reencodes, o “de fã para fã” não existe mais, hoje a questão não é mais popularizar os animes ou a cultura japonesa, isso já foi feito!, o que se visa hoje é o dinheiro, o que resulta não só na criação do nosso mercado de animes, mas também no próprio desenvolvimento dos fansubs em si. Afinal, depois de tantos esses anos porque os principais trackers de torrent fecharam e não conseguimos ter algo similar ao TokyoTosho por aqui? O Nahel Argama dá a dica ao comentar sobre a ideia do Punch em criar um sistema de VIP visto o caos que se instalou na internet pós-queda do Megaupload:

Mais que justo, louvável o pensamento destes verdadeiros visionários que só um país como o Brasil é capaz de produzir; lembra um pouco a audácia de Juscelino Kubitschek ao decidir levar o capital de nossa pátria para um lugar organizado como Brasília – afinal, porque copiar o que dá certo ao redor do mundo quando só aqui temos uma solução palpitante e inovadora?

E assim os consumidores de animes agradecem de joelhos aos trabalhos dos fansubs, ainda que precisem pagar por isso. Não! Isso está errado, estamos evoluíndo o que não deveria evoluir, estamos crescendo o que não deveria crescer. Tudo isso pautado naquilo que já virou crença popular: Fansubs (e os sites de reencode) são um favor ao fandom brasileiro de animes ao oferecer esses serviços, ainda que eu precise dar um pouco do meu dinheiro para tal, visto que eles fazem um trabalho “de fã para fã”.

Percebem a total inversão de valores do “de fã para fã” original para o de agora? Criamos um sistema para o fandom que pauta pensamentos que vão contrário à novas opções oficiais por simples caprichos como “não vou poder guardar meus animes no meu HD? Não quero então”. Os fansubs pós-2002 ao mesmo tempo que mantém a chama dos animes viva, queimam por completo qualquer possibilidade de virarmos um mercado de 2 bilhões de reais, algo semelhante ao mercado em crise de animes nos EUA.

SOPA, PIPA e ACTA

Durante os últimos dias muito se falou do SOPA, PIPA e agora, retornando do final do ano passado, o ACTA. Em resumo são legislações (as duas primeiras internas americanas e a terceira de acordo internacional) com o objetivo de proteger a propriedade intelectual, direitos de imagens e autorais. Me questionaram no Formspring o que eu pensava sobre isso, principalmente pela minha posição forte contra o plágio. Acabei não respondendo lá por precisar pensar melhor sobre o assunto e por ter a ideia de escrever isso aqui no blog.

Vou tentar ser objetivo na resposta mais superficial: Não sou exatamente contra a ideia de legislações que discutam as bases dos direitos autorais e suas infrações causadas por terceiros em prol de ganhos financeiros. A questão, principalmente da SOPA e PIPA, é que dar ao governo americano poderes que vão contra a liberdade de expressão, com a possibilidade óbvia de ideações morais e políticas ditando o que pode e o que não pode na internet. Além disso, ambas são legislações que, ao facilitar o processo contra alguém que poderia estar infringindo direitos autorais, mostra-se completamente autoritarista, negando a um direito primário das democracias que é o de inocência até que se prove o contrário em uma casa apropriada para tal julgamento. Por último, castra da internet infinitas possibilidades de inovações ao criminalizar ferramentas, ao invés de buscar formas melhores de combate à pirataria e de reinventar formas de negócios que tenham mais sintonia com o mundo em que vivemos onde o compartilhamento gratuito de cultura é uma das bases. Para um texto mais focado nessa questão recomendo a visão da Valéria Fernandes do Shoujo Café.

E apesar dessas legislações terem sido engavetadas após o colossoal movimento popular (ainda que mediado por grandes empresas), nem tudo são sorrisos. Após toda essa movimentação, fomos surpreendidos pela fechamento do site de compartilhamento de arquivos MegaUpload, o que mostra que não é preciso de SOPA ou PIPA para que todos os direitos básicos sejam ignorados. Além da ironia desse movimento ter acontecido às vésperas do MegaUploads lançar um serviço que mudaria drásticamente o que conhecemos como mercado fonográfico.

 Obviamente que em um país onde os fãs se alimentam de anime quase que exclusivamente por meios ilícitos (e vamos deixar claro isso e deixarmos de ser hipócritas), o fechamento do maior site desse tipo e a consequente caça às bruxas contra sites semelhantes acaba por abrir um espaço que até um mês atrás não se imaginava ser possível. A grande maioria dos sites que disponibilizavam animes no Brasil se utilizavam desses sites de compartilhamento e estão em um verdadeiro caos migratório desesperado para continuar no ar e desesperados pela fonte de renda que vem secando. Apesar de não apoiar tanto PIPA, SOPA ou ACTA, ao entender que a cultura deve sim ser compartilhada o máximo possível entre as mais diferentes pessoas quando isso não envolve e vontade de ganhos financeiros em cima do trabalho alheio (afinal, se Osamu Tezuka, Shotaro Ishinomori e Leiji Matsumoto participaram e usufruiram na década de 50 de um mercado negro de filmes americanos e europeus que rodou o Japão (NAGADO, 2011) para depois se transformarem nos gênios criadores que viriam ser e transformar o que hoje conhecemos como mangas e animes, como pensar o contrário?), e até por isso o Gyabbo! utiliza-se das Creative Commons, vejo nesse caos a possibilidade do Brasil iniciar seu mercado de animes, sendo a bola da vez a versão brasileira do Crunchyroll.

Como eu comentei em um post anterior, o serviço de streaming é o futuro, principalmente para os animes no Brasil (se eles ainda tiverem uma real chance depois de todo esse processo), mas precisa responder à demanda que terá com certos pré-requisitos. O primeiro passo após o anúncio do lançamento foi dado (ainda que de forma demorada), com uma pesquisa de público sendo abertamente realizada. Fazendo um trabalho de real qualidade, existe esperança. Mas estando nas mãos de quem está, eu fico com um pé atrás.

Concluindo, gostaria de saber a opinião de vocês sobre essa (possivelmente) polêmica opinião minha sobre os fansubs brasileiros. Acredito termos poucas esperanças para que ainda venha ser criado um mercado consistente de animes no Brasil, mas da forma mais errada a chance para que ele exista foi reaberta.

Opine!

PS: Não estou pregando a eliminação de todos os fansubs, mas o modelo que temos hoje não é sustentável se pensarmos de uma maneira mais macro como fãs de animes que querem ver o mercado oficial crescer. Fansubs tem seu papel, mesmo que tenham esquecido, e sempre vão existir.

Fontes:

http://shoujo-cafe.blogspot.com/2012/01/algumas-consideracoes-sobre-as.html
http://www.animepro.com.br/a_arquivo/a_colunas/colunas_shoujo51.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vampire_Princess_Miyu
http://www.technologyreview.com/biomedicine/13722/page2/
http://web.archive.org/web/20060823063353/http://www.omda-fansubs.com/group.php
http://www.law.ed.ac.uk/ahrc/script-ed/vol2-4/hatcher.asp#Dissection
http://www.mbbanikenkai.com/?p=2973
http://angela-e.suite101.com/the-history-of-fansubbing-part-1-a203788
http://en.wikipedia.org/wiki/Fansub
http://www.youtube.com/watch?v=IUYlqLlbix0
http://en.wikipedia.org/wiki/PROTECT_IP_Act
http://en.wikipedia.org/wiki/Stop_Online_Piracy_Act
http://en.wikipedia.org/wiki/Anti-Counterfeiting_Trade_Agreement
http://nagado.blogspot.com/2011/12/cultura-pop-japonesa-e-book-gratuito.html

Você alguma vez já se perguntou do porquê da existência […]