Anime, manga, fãs e religião – É possível?

Hoje é Natal! Gostaria de desejar a todos um ótimo dia de Natal e que Deus abençoe a todos. Aproveitando o momento, gostaria de convidá-los a um debate acerca da relação dos animes, mangas, os fãs, a sociedade em que vivemos e o cristianismo. 

Antes de começar a desenvolver a minha ideia preciso comentar da minha própria religosidade. Com uns 11 anos me considerava ateu, muito mais por rebeldia pueril do que por convicção verdadeira. Mais ou menos com essa idade que fui obrigado pelos meus pais a fazer aulas de cataquese, com o intuito de fazer a primeira comunhão. Não irei entrar em muitos detalhes, mas esses são pequenos “ritos” de crescimento dentro da religião católica; batismo, primeira comunhão, crisma e outras.

Ao contrário do que se poderia pensar, o fato de ter sido obrigado a ter “aulas sobre Deus” todos os sábados durante dois anos não aumentou minha vontade de ser ateu, ao contrário, abriu meu coração para receber Deus e crer em Jesus. Mesmo não sendo praticante, não indo muito a missa e tendo me confessado apenas uma vez, ali eu havia me tornado um católico de corpo e alma.Mas a vida é dura, as pessoas crescem, amadurecem, estudam, pensam, refletem e acabam mudando muito de opinião durante os anos. Inicialmente surgiram dúvidas, seguidas por questionamentos, até por fim um rompimento. Hoje eu não me considero católico, mas ainda me considero cristão.

Terminada essa introdução sobre como eu me vejo em relação ao lado religioso, voltemos a falar de animes. A primeira pergunta que eu gostaria de fazer nesse debate com vocês é a seguinte: É possível ser religioso (e estou me focando mais nas religiões cristãs que são as que eu conheço mais de perto) e fã de animes e mangas ao mesmo tempo?

Ilustro essa pergunta com um acontecimento que presenciei pouco depois de entrar na faculdade. Naquela época, uma grande amiga, evangélica desde criança, resolvera que “sairia desse mundo”, deixando de assistir a animes e ler mangas, por causa de uma experiência religiosa que teve. Várias vezes, em um curto espaço de tempo, havia estado acidentes de carro, cada vez mais perigosos, nunca por imprudência sua no volante. Um dia, em um sonho, recebeu uma mensagem do que seria um anjo, de que se não parasse de assistir animes e mangas, o próximo acidente seria fatal. Coincidentemente (ou não), ao conversar na manhã seguinte com sua mãe sobre o sonho, a mesma relatou que no culto da noite passada em sua igreja, o pastor havia alertado para os perigos “desses desenhos japoneses”. Essa experiência foi suficiente para que esta minha amiga tomasse a decisão de largar tudo, queimando todos os seus pertences relacionados a animes e mangas (e não eram poucas coisas, incluindo um belíssimo cosplay de Saber do anime Fate/Stay Night).

Lembro que na época, conversando com ela sobre isso, eu disse que não concordava, mas que apoiaria ela na escolha que fizesse na melhor forma que encontrasse para servir a Jesus. Disse isso, porque tenho para mim que as experiências religiosas são coisas muito pessoais. Quem sou eu para dizer que aquele sonho não passava de uma grande coincidência? As crenças das pessoas, acredito eu, vem do íntimo mais profundo do ser e por isso devem ser respeitadas como individuais (o que não nos impossibilita discutir religião em geral, algo que adoro).

Mas será que adorar a Deus e assistir desenhos animados feitos pelo Japão são coisas realmente excludentes?

A minha primeira camada de resposta é, não. Assim como livros, filmes, peças, desenhos animados (sejam eles japoneses ou não) são apenas um meio para passar algo. Não é a arma que mata o homem, o homem mata com a arma. Sendo assim, não há sentido em julgar algo meramente por sua precedência geográfica como muito se faz. Afinal, quem em sua vida de fã de animes e mangas nunca ouviu um “Esse desenho é do demônio!”. Não sei vocês, mas eu já passei por essa experiência (junto de RPG) e não faz sentido.

Seguindo esse raciocínio venho para a segunda camada da resposta: Aquilo que se assiste. Afinal, se entendermos que a questão não está na forma do entretenimento, mas sim naquilo que tal obra passa, seria impossível dizer que um Usagi Drop iria contra os preceitos de alguma religião, sendo anime ou não. Mas aí vamos entrar na questão de que muitos animes, sendo parte de uma cultura de base religiosa e cultural bastante diferente da judaica-cristã, irão abordar temas que podem ir contra preceitos religiosos. Não é preciso ir muito longe, basta ter a mente um pouco mais fechada e obras como Inu-Yasha, Sakura Card Captor, Shaman King, One Piece e tantas outras facilmente poderiam se encaixadas como “do demônio” baseadas em alguma cena e em alguma passagem bíblica.

E aqui eu gosto de fazer uma virada de mesa com o seguinte argumento que aprendi ao defender o metal contra julgamentos iguais: Se eu apenas ouço uma música religiosa, não estou seguindo Deus e nem sendo um verdadeiro cristão, correto? Então por que ouvir uma música com temática não muito condizente com o cristianismo me torna alguém do outro lado? Da mesma forma estendo esse pensamento para os animes; estando eu ciente do que vejo e consciente do que é correto ou não, assistir um anime, seja qual for, não poderia me deixar menos ligado a Deus.

Infelizmente vivemos em uma sociedade cada vez mais intolerante com as diferenças e que busca retificar mesmo aquilo que há de mais individual no homem, sendo uma delas sua relação com seu Deus. O julgamento é fácil, ainda que um dos preceitos cristãos é o de não fazer julgamento dos outros. Pior, segue-se em um constante vigilância religiosa, onde acabamos por nos defrontar com textos de igrejas que julgam ser errada a tolerância.

Dentro daquilo que eu acredito, e que não necessariamente vai de acordo com o que está escrito na Bíblia, mais importante do que o rótulo que carregamos (crentes ou não crentes, católicos ou evangélicos, religiosos ou ateus), são os comportamentos que temos e a moral que levamos (sendo que não, não é preciso ser religioso para ter uma moral considerada boa). Ver animes, ler mangas, não vai de encontro ao que um Deus verdadeiramente bom quer, se nossos atos são voltados, não para ele, mas para um bom convívio com os outros.

Não devemos ser bons pelo medo do castigo, mas pela vontade e crença de que aquilo é o certo. Por mais fácil que seja generalizar, mesmo dentro de um fandom coeso (que definitivamente não é o caso do fandom brasileiro de animes e mangas), cada indivíduo é uma pessoa diferente e se torna impossível achar que um ponto em comum entre elas vai determinar sua índole.

Para mim, a verdadeira mensagem do Natal é a de que devemos buscar aquilo que é bom. Para mim, que sou cristão, é buscar estar cada vez mais próximo de Jesus, não pelo meio da fé, mas pelo meio dos atos. Estar próximo de alguém que buscou ser justo, companheiro, amigo e bom. Mas para alguém que é ateu, o raciocínio é o mesmo, a mensagem continua igual; busquemos ser o melhor que podemos ser, saindo do egoísmo pessoal e estendendo para os próximos.

Não é a religião ou os gostos que dizem quem uma pessoa é. É o seu todo que pode nos informar uma parte dela. Somos seres de possibilidade, seres de desejo, e sendo assim, nunca poderemos ser encerrados em um único ponto.

Gostaria de verdade de ouvir a opinião de vocês nesse post, se possível relatando experiências que tiveram com animes, mangas e as religiões. Porém, a ideia não é destruir, mas compartilhar, por isso não serão aceitos comentários ofensivos a qualquer parte.

Hoje é Natal! Gostaria de desejar a todos um ótimo […]