Puella Magi Madoka Magica – Conclusão

ATENÇÃO: Esse post irá conter spoilers sobre o final da série Mahou Shoujo Madoka Magica. Leia por conta e risco!

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Há pouco mais de um mês deveríamos ter assistido ao 11º episódio da série Mahou Shoujo Madoka Magica, que próxima do seu final deixava seus fãs extremamente ansiosos pelo que aconteceria em seguida. Devido a diversos fatores, incluíndo aí o grande desastre que foi o terremoto que assolou o Japão, os dois últimos episódios foram adiados e somente nesta semana pudemos vê-los para concluir a saga de Kaname Madoka e Akemi Homura na apocalíptica batalha contra a bruxa Walpurgis Night.

Se o hype pode fazer estragos em séries antes mesmo delas estreiarem, o que dizer de uma série já estabelecida e na sua reta final? O mundo estava aguardando por esses episódios, há tempos eu não via tanta comoção pelo fim de um anime. O que é plenamente justificável, Madoka Magica veio conquistando fãs com suas cenas chocantes, sua desconstrução do estilo Mahou Shoujo, animação de excelente qualidade, que ainda se permitia um pouco de experimentalismo, mas principalmente por um enredo bom, construído de maneira sólida em que cada episódio só fazia a série crescer mais.

Recapitulando um pouco, descobrimos qual é a real motivação de Kyuubey para firmar contratos com garotas humanas, transformando-as em garotas mágicas em troca de um desejo aparentemente sem limites. Apesar de ainda configurar um dos maiores vilões dos animes para mim, Kyuubey na verdade não tem nada de maligno, sua natureza é amoral, não existem sentimentos ou emoções em sua espécie. Como ele mesmo comenta, antes de conhecer os humanos a eles era impossível sequer imaginar a possibilidade de emoções.

Kyuubey segue apenas um pensamento lógico, o todo é mais importante que suas partes, sacrifícios são necessários e bem-vindos se para ajudar o bem maior (alguém mais pensou na sociedade Japonesa e sua anulação do indíviduo em prol da sociedade?). Nessa lógica, Kyuubey, um Incubator, vem à Terra a fim de gerar energia para outras sociedades universo a fora. Energia essa gerada pelas transformações das garotas em Mahou Shoujo ou, com suas mortes ou perda de esperanças, bruxas. Os Incubatores seguem uma lógica simples, eles querem essa energia, aos humanos é dada a escolha de trocá-la, ainda que isso não seja especificado, por um desejo. Kyuubey não engana, ele dissimula, a escolha é e sempre será dos humanos.

Descobrimos também a história de Akemi Homura, que pelo amor e devoção que possui por Madoka, vem lutando seguidas vezes tentando mudar o seu destino.  Sua amizade se torna uma obsessão, sua vida uma luta contínua pelo tempo-espaço, sempre em vão, trazendo apenas sofrimento a si e no fim, sendo o motivo do grande poder que Madoka apresenta. Se todas as Mahou Shoujo tem o seu poder por causa do desespero em suas vidas, Homura é levada por si própria ao limite, não se entregando à insanidade e virando uma bruxa somente pela devoção à sua amiga.

Esse é possivelmente um dos desenvolvimentos de personagem mais interessantes que eu vi em muito tempo em um anime. Homura tem uma personalidade não-linear, vulnerável a tudo que acontece ao seu redor. Seus comportamentos frios são explicados, entendidos e ainda sim mutáveis. O que não impede Urobochi, roteirista da série, de fazer com que todo seu trabalho tenha sido em vão.

Sim, porque se o final de Madoka não é triste, por outro lado ele deixa um gosto amargo marcado. Apenas em seu último episódio Madoka se transforma em uma Mahou Shoujo, impossibilitando com que Homura consiga salvá-la desse destino. Em um ato até previsível (o que de maneira nenhuma deprecia o momento) a protagonista utiliza-se do seu desejo para, ela mesma, pôr fim a todo sofrimento e desespero que as Mahou Shoujo passaram, passam e poderiam passar por terem acredito nas palavras de Kyuubey e lutado por um mundo melhor. Assim, Madoka exige a destruição de todas as bruxas, em todo o espaço temporal, em todos os mundos. Sua existência é esquecida já que ela mesma irá do começo ao fim dos tempos realizar esse ato. Madoka deixa de ser um garota ou mesmo uma garota mágica, para transcender a matéria, o tempo, a vida, tudo.

Salvo a prória Homura, seu final é o mais cruel, ser esquecida por todos, seu trabalho é o mais pesado, mas Madoka, que não fez muita coisa a série inteira, se mostra idealizadamente bondosa. Ela simboliza em si toda a razão de ser de uma Mahou Shoujo. Com a sua transcendência Madoka carrega o sofrimento do mundo em suas costas, ainda que não sinta esse peso por entender de forma não-humana a sua importância. Coincidência ou não, é a mesma simbologia do sacrifício de Jesus Cristo na Páscoa do Cristianismo. Acho difícil que Urobochi, Akiyuki e o estúdio SHAFT tenham realmente estabelecido essa metáfora como fez C.S. Lewis n’As Crônicas de Nárnia com Aslam, mas o paralelo é óbvio e a data escolhida para o lançamento da Madoka é bem suspeita.

Mahou Shoujo Madoka Magica se transforma assim, no melhor anime do estúdio SHAFT, o que não é exatamente tão fácil. Mas vai além, marcando a indústria como uma das suas maiores obras, para ser lembrada como um clássica durante décadas. Para muitos o melhor anime já feito, o que eu discordo, provavelmente fruto da empolgação do momento, mas ainda sim um dos maiores.

Não somente por chocar com suas cenas de morte e crueldades que pegaram muitas pessoas de surpresa, mas principalmente por uma narrativa que em momento algum deixa-se diminuir, que não faz de suas cenas um agrado aos fãs, mas um acréscimo à história. Quase tudo se encaixa, quase tudo tem um sentido, sendo um anime para ser revisto várias vezes, descobrindo algo novo em cada uma delas.

Madoka Magica é um tapa na boca daqueles que apregoam a indústria dos animes como morta, sem novas obras de qualidade. O estúdio SHAFT conseguiu reescrever a fórmula, sem deixar de lado o seu próprio estilo. Dessa forma, a história das cinco garotas mágicas deve perdurar como exemplo do que a indústria ainda pode e irá fazer.

ATENÇÃO: Esse post irá conter spoilers sobre o final da […]