Francamente, Franken Fran!

Leigo quando o assunto é histórias de horror e pretendendo iniciar uma peregrinação pelos caminhos traçados por artistas como Junji Ito (Uzumaki) e Suehiro Maruo (Imomushi), selecionei Franken Fran como ponto de partida por achar curioso ter “comédia” listada dentre os gêneros de uma obra aparentemente repleta de imagens tão repulsivas. Agora, após os primeiros metros dessa estrada serem percorridos, por um lado, posso dizer que as expectativas quanto à série com base nessa mistura inusitada de características se confirmaram; por outro, eu… não sou tão inabalável quanto pensava do alto da minha ignorância.

Quem criou a criatura.

Tal como Katsuhisa Kigitsu criou o mangá em questão, o cirurgião Naomitsu Madaraki criou Fran: sua filha artificial. Tendo herdado as habilidades médicas do pai, os oito volumes de Franken Fran contam como ela e suas companhias monstruosas lidam, na ausência do doutor, com os clientes que batem na porta da mansão macabra onde reside. Quer dizer, eles nem sempre batem, mas sempre acabam nas várias mãos de Fran Madaraki.

 

 


O horror e a estrutura

“Bleeeargh” ou qualquer outra onomatopeia de repulsa.

Olha, é um tanto óbvio, verdade, porém eu confesso nunca ter parado para pensar como “horror” é uma sensação que emerge depois da exposição a algo e “terror” é a sensação derivada da expectativa de que algo aconteça. A arte grotesca contida nas páginas de Franken Fran definitivamente me causou a primeira, em alguns momentos. Abalou.

Aqui, a soma do gore com as situações bizarras potencializa o fator “impacto”, como deveria, muito bem.

O engraçado é a maestria demonstrada ao fazer o leitor, bom, achar graça logo após ser atingido na fuça por um soco direto de sangue e entranhas. Acontece que o contexto é absurdo e, depois que a dor do golpe passa, você percebe que a imagem é exagerada nas mesmas proporções, então, por mais que ainda existam resquícios de aversão quanto ao grotesco, sua boca, agora desdentada, é capaz de esboçar um sorriso.

Ainda sobre elementos chocantes, alguns autores de horror frequentemente inserem “nudez” em seus trabalhos para agregar ao “choque”. Em Franken Fran, o uso é gratuito, permanecendo no raso plano celestial do fan service. Não atrapalha, no entanto: em nenhum momento o ritmo da ação é interrompido em prol da necessidade de mostrar moças nuas. Por outro lado, também nada acrescenta e a incessante presença — capítulo, sim; capítulo, não — satura, MAS! Sendo justo, vale dizer que, na medida em que a carruagem foi andando, tais aparições foram ficando mais espaçadas.

Inclusive, o rumo que a obra acabou tomando é curioso. Outra mudança diretamente proporcional à progressão: as histórias passaram a se preocupar mais com o bizarro e menos com o gore. As baratas que no início desejavam devorar pessoas, na reta final protagonizaram um conto sobre como a sociedade que elas desenvolveram em reclusão era baseada no entretenimento provido pela existência de baratas super-heróis que lutavam contra o crime. Esse capítulo em específico é um dos mais estúpidos e um dos mais sensacionais.

Menciono “progressão”, mas apenas me referindo à numeração dos volumes. Não é como se a coisa se importasse com continuidade ou cronologia. Deixando de lado o primeiro capítulo, que serve de introdução para a personagem, além de estabelecer as bases da premissa, o resto é (95% do tempo) independente, não requerendo conhecimento prévio para ser compreendido. A única informação frequente, às vezes jogada aqui e ali, é uma breve menção de como a Fran está esperando o retorno do doutor, todavia não é como se essa fosse uma questão trabalhada na narrativa, tá mais pra um preparo de terreno que apenas indica uma possível volta do cara. Ah, e têm umas cinco histórias sobre o super-herói Sentinela e suas diferentes versões, por algum motivo, mas fora isso…

De qualquer maneira, nem toda história precisa de um evento principal que una o início ao fim, entretanto posso dizer que Franken Fran termina de forma abrupta por conta disso, o que é uma pena.


A incongruência

Às vezes surge a Fran do “tanto faz”…

Nesse mangá, eventualmente questões sobre ética, moralidade e afins são levantadas: subprodutos de histórias que envolvem “medicina”. Apesar disso, o que mais me chamou atenção e me motivou a escrever, foi a maior constante que eu pude notar: a incongruência/inconsistência.

Horror e comédia: gêneros antagônicos nos quais o mangá se enquadra; a bipolaridade entre a primeira e a segunda metade da série; a falta de preocupação com a continuidade narrativa… Todos esses traços de Franken Fran são exemplos de inconsistências. Pequenas. Contudo, só resolvi olhar para o escopo geral da obra através dessas lentes pois foi justamente a maior delas quem me presenteou com um novo par de óculos: nossa excêntrica protagonista.

…às vezes, não.

A Fran é… interessantemente desarranjada. Em vários sentidos. A concepção dela como uma paródia que mistura o Monstro de Frankenstein com o próprio Dr. Frankenstein e a atitude ambivalente com relação aos mais mórbidos assuntos são tão parte da comédia como são, também, características conceitualmente complementares. Digo, se buscássemos uma palavra para definir o tal Monstro de Frankenstein, eu, particularmente e eloquentemente, responderia “mistureba”, afinal são membros diferentes de pessoas diferentes que constituem a criatura e, ao olhar, fica notável uma falta de coesão visual. A “estranheza” que define a criatura — essa sensação de que há algo fora do lugar — é a mesma que Fran exala quando demonstra empatia com os pacientes na mesma medida que é totalmente indiferente a um assassinato acontecendo na sua frente.

De modo a enfatizar ainda mais essa natureza deturpada da Fran, Veronica, uma assassina e outra criação do doutor, foi introduzida. Enquanto ela garante um fim indolor para seus alvos, a personagem principal carrega consigo que deve manter as pessoas vivas a todo custo, mesmo que isso signifique sentenciá-las a uma vida inteira de agonia.

Aliás, essa dualidade presente na protagonista acaba se materializando fisicamente dentro da história, até, no capítulo em que ela é dividida em duas, cada metade contendo uma das características, o que, pra mim, foi a evidência mor de que havia algo intencional sendo feito ali.

Tematicamente, considero que esse conjunto de desarranjos constitui o trejeito que me propôs as mais estimulantes análises, ainda que não sejam as mais profundas ou complexas, creio serem… diferentes.

Ao meu ver, a história é sobre as incongruências: representadas na Fran e presentes na sociedade. Ambas, criações humanas. E quem além dos humanos tem mais tanto potencial em termos de bizarrice?

Sim, é um cara com um bebê no lugar do cérebro.

A conclusão

Acho.

Franken Fran têm lá suas ironias. Personagens carismáticos e ideias inusitadas proporcionam uma leitura divertida se você se dispõe a escalar o muro de carne, visto que há, inclusive no próprio universo, uma “banalização do grotesco” e a arte não poupa esforços em te lembrar disso.

Katsuhisa Kigitsu diz que considera esse um trabalho experimental e isso transparece nas páginas. Às vezes, a volatilidade da obra faz com que ela pareça sem pé, cabeça ou propósito, como um bom monstrengo criado por um cientista maluco, porém eu diria que a maneira provocativa como certos temas são abordados e a incongruência interessante da gloriosa protagonista e seus arredores ajudam a tornar a experiência não tão dispensável assim. Então…

dito tudo isso, vale a pena ler? Eu diria que sim, porém antes de me escutar (ou ler, no caso), olhe bem para o seu eu interior e pense se você está no pique de sofrer qualquer nível de agressão sensorial e embarcar numa jornada sem destino para, quem sabe, dar umas risadas. 

Desde 2019, uma sequência ao mangá original, Franken Fran Frantic, é publicada. Infelizmente, esse texto não abrange ela. Me entristece. A aliteração no título do post seria… algo, se fosse o caso.


Referências:

MyAnimeList | Franken Fran

Anime News Network | “7 Horror Manga Authors to Keep You Up at Night” por Lynzee Loveridge

 

Revisão: Cristina

    Talvez formado no ensino médio, conseguiu um diploma de Produção Multimídia e é técnico em Animação 2D (mas, como discípulo do ET Bilu, busca por mais conhecimento na área). Tem ambições mundiais.