O [provável] 1° estudo sobre GUNPLA no Brasil!

Conheça sobre o (provável) primeiro estudo brasileiro sobre GUNPLAs, réplicas de plástico dos Gundam que aparecem na franquia.

Introdução

Criado em 1979 por Yoshiyuki Tomino, essa é a primeira animação de Mobile Suit Gundam!

Mobile Suit Gundam é uma franquia que dispensa apresentações, seja você engajado no meio otaku ou não, mas o que pode passar despercebido por quem não for tão envolvido é que Gundam é muito mais que só uma série de diversas animações vindas lá do final dos anos 70 (1979 para ser mais exato). Assim como milhares de outras séries, além de nos entreter com o que passava na TV, o objetivo principal era vender brinquedos, e entre os comercializados pela Bandai, o mais vendido e popular até hoje são os Gunplas.

Gunpla é uma abreviação para Gundam Models Plastic Kits, que se tornou uma aba de um hobby muito maior e já popular conhecido como Plastimodelismo, só que ao invés de trazer tanques, navios e aviões militares para as estantes dos colecionadores, trariam um novo tipo de máquina de guerra que ano a ano só ganharia mais espaço e popularidade no Japão. Porém… Não estamos no Japão não é?

1. Gundam no Brasil

A saga da marca criada por Yoshiyuki Tomino no Brasil é bem curta, infelizmente fomos agraciados apenas com uma série e uma adaptação em mangá do mesmo. Estou falando de New Mobile Report Gundam Wing (ou só Gundam Wing para os íntimos), seus 49 episódios foram exibidos lá pelos anos 2000 no Cartoon Network e a adaptação em mangá veio pela Panini naquele formatinho bem conhecido, o meio-tanko, onde transformaram os 3 volumes que compõem o mangá em 6 por aqui (se quiserem saber mais sobre Wing, confiram esse texto no Jbox que tem umas infos bem legais). A série não se saiu muito bem por aqui nas suas tentativas de exibição, conseguiu sim acarretar alguns fãs que perduram até hoje (eu incluso, claro), mas não foi um “Saint Seiya” ou “Dragon Ball” na venda de brinquedos. Quase não tivemos produtos de Gundam Wing por aqui, sendo assim, não tivemos o comercio de Gunplas, mesmo aqui tendo alguns adeptos ao Plastimodelismo como um hobby, mas a comunicação entre essas pessoas e o publico alvo da série ainda estava bem distante.

Gundam Wing pode ter sido a única animação de Gundam a passar no Brasil, mas deixou sua marca gerando diversos fãs.

 

Capa do Volume 01 do mangá de Gundam Wing.

Nos dias atuais diversas séries da franquia Gundam estão acessíveis em qualquer plataforma de streaming e antes disso já tínhamos acesso pelos fansubers, conforme foi ficando mais fácil para as pessoas baixarem por conta própria e não dependendo de comprar conjuntos de DVDs em eventos de anime, por exemplo. Logo isso trazia a tona aquele sentimento de consumir mais e mais Gundam e consequentemente os Gunplas entram na equação.

2. Mas o que é Gunpla?

É assim que os Gunplas são antes de serem montados!

Como citado antes, os Gunplas são replicas de plástico dos Gundam e Mobile Suits que aparecem nas diversas séries da franquia. Sua principal característica e “charme”, por assim dizer, é que diferente de estatuetas e action-figures convencionais de animes eles precisam ser montados do zero (ou quase)! As peças vêm distribuídas em grades, onde com um alicate você pode removê-los e seguindo um manual de instruções pouco a pouco ir montando seu próprio Gundam. Claro que apesar do conceito simples, conforme se vai conhecendo mais e ganhando experiência, o trabalho que se tem ao montar os modelos vai crescendo por igual, mas a ideia básica e a diversão da coisa é essa: “Build your own Gundam”!

Os Gunplas são divididos em algumas categorias que chamamos de escalas, que podem ir de modelos em SD (Super Deformed), que são as versões mais “fofas” dos Mobile Suits, até os PG (Perfect Grade) que seguem a numeração 1:60 (Um por sessenta) o que significa que a escala em relação ao tamanho real foi reduzida em 60 vezes. Em Odaiba, Toquio, existe um Gundam (O Gundam Unicorn de Mobile Suit Gundam Unicorn – 2010) em tamanho real! Nós dizemos que ele é o Gundam 1:1, ou seja, quanto menor o numero da escala, maior é o Gunpla. Há escalas até maiores como os Mega Size (1:48), mas são bem poucos e mais raros.

Na imagem a seguir vocês poderão ter uma ideia melhor de como funciona o sistema de escalas:

Do menor para o maior: HG 1/144, MG 1/100, PG 1/60 e Mega Size 1/48

Apesar do processo de montagem que é requerido, isso não impede que os kits sejam detalhados e complexos; quanto maior a escala, mais incríveis eles conseguem ser. Desde articulações precisas que permitem replicar e criar diversas poses até uma gama de acessórios que enriquece ainda mais a experiência de monta-los. Alguns possuem até mesmo funções de transformações fieis aos Mobile Suits que aparecem nas séries e outros permitem que haja até mesmo função de luzes localizadas em áreas especiais para dar mais realismo. A variedade de opções do que comprar é igualmente impressionante, afinal, é uma franquia com mais de 40 anos de história. Em 2015 o site Asian Nikkei relatou em uma matéria sobre o aniversário de 35 anos de Gunpla que a Bandai já havia vendido aproximadamente 450 milhões de unidades de uma variedade de 2,000 modelos diferentes. Imagine como devem estar esses números agora? Impressionante, não?

3. O Gunpla e eu

Acredito que a melhor forma de começar a contar para vocês sobre esse hobby é falando um pouco de mim mesmo, já que antes de ser só um humilde redator escrevendo essa matéria, sou também um Gunpla Builder com alguns anos nas costas de experiência.

Meu primeiro Model Kit. SD Gundam Wing Zero do filme de Endless Waltz.

Meu primeiro contato com Gundam, como mencionei acima, foi com Gundam Wing e só fui ter contato novamente anos depois quando um amigo me recomendou Mobile Suit Gundam 00 (2007) e desde então continuo assistindo até hoje. Agora, meu primeiro contato com Gunpla foi de forma bem inocente e ao acaso, durante um evento aqui do Rio de Janeiro chamado Feira da Providencia. Eu era criança ainda, o tema dessa feira é juntar atrações de diversos países e culturas, claro que eu fui direto para a ala do Japão e em uma barraca tinha vendendo alguns modelos de Gunpla (na época eu não fazia nem ideia que se chamava assim) e entre as opções eu reconheci o Gundam Wing. Era um em escala SD baseado no filme Endless Waltz (que chegou a passar no Brasil também pelo Cartoon Network, porém no Japão ele estreou em 1997) e coitado do meu eu criança que ao chegar em casa e achar que já iria brincar com seu “boneco” de Gundam Wing, se decepcionou ao ver que ele ainda precisava ser montado do zero! Fora um leve trabalho de pintura para ficar 100% igual ao que aparecia na caixa. Na minha adolescência que soube exatamente o que estava comprando e o que esperar. Meu segundo modelo foi um HG do Calamity Gundam de Mobile Suit Gundam Seed, agora, em 2020, minha coleção já é bem grandinha, mais de 70 kits diferentes (e alguns até fora da linha de Gundam) e digo para vocês que sem dúvidas é um dos melhores hobbys que eu poderia ter.

Minha coleção Parte 2
Minha coleção parte 1

É gratificante demais a sensação de “missão cumprida” e “feito com minhas próprias mãos” que Gunpla permite ter, mesmo que não seja necessário muito profissionalismo, afinal, é só tirar as peças das grades, dar aquele acabamento com lixa e montar seguindo um manual, ver aquilo surgindo diante de você, aquele amontoado confuso de peças coloridas ganhando forma e, claro, ter aquela vibe gostosa de ter fisicamente algo que você admira tanto enquanto assiste aos animes. Gosto sempre de exibir meus trabalhos quando termino e se vocês forem ao meu Instagram poderão conferir tudo lá, ele é praticamente um photo review para Gunplas. Muitas vezes a gente procura formas de se validar e de ser apreciado e é algo natural, eu encontrei nesse hobby uma forma saudável de me dar esses tapinhas nas costas e dizer “bom trabalho”. A cereja do bolo disso tudo ainda é o quanto essa atividade é relaxante e quase terapêutica. Uns meditam, outros praticam esportes, eu monto Gunplas =)

Mesmo que seja uma atividade um tanto quanto “solo”, isso não me impediu de fazer diversos amigos tanto online quanto presencialmente. Seja em grupos de Whatsapp, Facebook ou páginas do Instagram e o próximo tópico é justamente sobre isso!

4. Os Gunpla Builders do Rio de Janeiro

36° Encontro de Gunpla Builders do RJ, realizado no Shopping Nova América.

Depois de um relato pessoal nada melhor que falarmos da comunidade desse hobby maravilhoso e para isso eu fui a uma edição do 36° Encontro de Gunpla Builders do Rio de Janeiro que é organizado pelo Daniel “Kira” Brandão. Já sou um frequentador do evento naturalmente, mas aproveitei a oportunidade para entrevistar e trazer um pouco da perspectiva de outros adeptos ao hobby!

Daniel “Kira’ Brandão, o idealizador do Encontro de Gunpla Builders RJ

Há quanto tempo você está no Hobby de Plastimodelismo/Gunpla?

Daniel: Há quase 10 anos. Eu comecei em Agosto de 2010. O primeiro modelo que eu montei foi o NG 1/100 Gundam Dynames (De Mobile Suit Gundam 00). Eu já tinha experiência de montar modelos de LEGO e outros similares a Plastimodelismo que seguem o estilo de Gunpla, só que eu não adotava como Plastimodelismo, pois na época eu era adolescente, era moleque, mas sempre tive atração por esse mundo. Quando eu finalmente encontrei esse Hobby do Gunpla, acidentalmente, eu acabei assumindo como hobby e estamos aí até hoje.

O que te levou a começar a montar Gunpla?

D: A complexidade, porque eu sempre gostei muito de “montar coisas” e o estilo de montagem dos Gunplas foi uma coisa que me atraiu muito. Tem modelos fáceis, tem modelos difíceis e como sou fascinado por robótica, ver que aquele emaranhado de peças sem sentido e aos poucos dando vida, ir construindo e ver ficando um modelo de 15, 20 cm ou mais é uma coisa que… Você tá dando vida aquilo! É um sentimento que não tem explicação.

Vilson: Fora a sensação de você ter montado aquilo com as suas próprias mãos. Não é como uma action figure que você compra e tá pronto.

D: Você bota um pouco da sua alma naquilo. Eu comecei com a ideia de apenas monta-los, mas eu via os trabalhos em Gunplas dos gringos (mais elaborados e customizados) e pensava “Qual é a diferença entre mim e esses caras?” Eu posso fazer isso, posso fazer esses detalhamentos! Comecei a pesquisar no Youtube como customizar e quando fui ver já estava detalhando do meu jeito e aos poucos, do meu jeito, fui aprendendo.

O que te motivou a realizar o Encontro de Gunpla Builders do RJ e há quanto tempo ele está acontecendo?

D: Há pouco mais de dois anos. Estamos para fazer 3 anos, eu não sei nem que dia (risos), tenho que fazer as contas, mas estamos na 36° edição! O que me motivou foi que eu sempre vi esse tipo de eventos mundo afora, principalmente no Japão, lá no Gundam Café, Gundam Base Tokyo e vive tendo nos EUA também e fico pensando “Não tem isso no Brasil! Eu quero um pouco disso no Brasil! Por que ninguém organiza?” Então pensei em eu mesmo organizar e “meti a cara”. Eu via, por exemplo, a Deise (@rinaharo no twitter) que é uma influenciadora conhecida no mundo dos Gunplas, que hoje em dia está até morando no Japão com o Fábio Sakuda (@XILFX) que fazem parte do Genkidama e a via em eventos com o Fábio, indo algumas vezes até caracterizada, e ela não tem vergonha daquilo, por que eu teria do meu hobby? Afinal, esse hobby muitas vezes é taxado como coisa de criança, mas mesmo assim chamei a galera. No começo teve uma galera que foi contra, mas eu queria trazer um pouco disso, divulgar esse hobby no Brasil e hoje olhar essa mesa aqui cheia de trabalhos, essa galera se divertindo e de uma satisfação que não tem explicação.

O evento não tem espaço só para Gunpla, mas também para outros Hobbys. Quais as características que o Gunpla tem que o difere de outros Plastimodelismos? E o Plastimodelismo de outros Hobbys?

D: O que acontece é o seguinte, Gunpla é uma coisa mais “pronta”. Porque o Plastimodelismo tradicional, onde as pessoas usam os modelos da Revell (empresa dedicada ao hobby e uma das referencias no mercado), entre outras marcas conhecidas, as peças vem sem cor, precisam ser coladas, você tem que fazer tudo do zero. Gunpla já vem mais completo, é só soltar as peças e encaixar, além de já estarem (na maioria) na cor correta.

V: No caso o Gunpla é algo mais friendly?

D: Isso mesmo! Eu tenho um amigo que é plastimodelista profissional, trabalha no nível de competições e ele diz que Gunpla tem um potencial gigantesco, pois lá (no hobby tradicional) ele pega peças que estão praticamente brancas e tem muito mais trabalho. Para um iniciante, o Gunpla permite, graças às peças já virem praticamente prontas, que ele faça um trabalho incrível mesmo nos modelos mais simples.

Dos kits aqui presentes no evento, qual você recomendaria para uma pessoa iniciante e o que ela precisa (ferramentas, itens e acessórios) caso ela deseje começar a  montar Gunplas agora?

HG 1/144 Earthree Gundam, de Gundam Build Divers Re:Rise (2019)

D: Eu recomendo o HG 1/144 Earthree Gundam. Ele é um modelo simples, porem funcional. As peças encaixam bem, bastante articuladas, bons acessórios e uma boa separação de cores. A pessoa que estiver começando vai poder monta-lo e, apesar da simplicidade, vai se divertir e curtir o processo. Quanto às ferramentas, olha, vou ser sincero, quando montei meu primeiro kit eu usei um alicate de cutícula e um estilete muito do sem vergonha (risos). O alicate para poder cortar as peças das grades e o estilete para tirar o excesso de plástico que fica nas peças, com isso já é mais que o suficiente para começar, com o tempo você vai procurar por mais materiais conforme for aumentando a sua necessidade.

Uma pessoa precisa conhecer Gundam para ingressar no hobby ou é/pode ser algo independente das animações?

D: Pode ser algo totalmente independente! Você conhecer as animações só te ajuda a saber de onde veio aquele modelo, quais são os seus sistemas, história, habilidades e etc, mas não tem obrigatoriedade nenhuma você acompanhar as séries para poder montar os Gunplas.

Comparado a outras franquias e hobbys (Transformers, LEGO, etc) Gunpla ainda é um nicho bem pequeno. O que você acha que precisa ser feito para que essa aba do plastimodelismo fique mais popular e mais acessível no Brasil?

D: Para começar, melhorar os preços. Quando vamos importar, por exemplo, um kit HG simples, desconsiderando o frete, ele pode sair por algo em torno R$20,00 a R$30,00, quando chega aqui, você pode encontrar por R$155,00, ou seja, o preço mais do que triplicou. Se houver preços atrativos somados a uma divulgação massiva por parte da Bandai para introduzir esse hobby no Brasil, pode melhorar. Plastimodelismo, seja Gundam ou outros, é algo que chama muita atenção e a realidade do Brasil faz com que seja difícil para as pessoas ter condições para pagar por kits tão caros, se houver uma melhora dos preços, com certeza muitas pessoas iriam se interessar pelo hobby. Ajudaria também se as animações fossem exibidas na TV, chamaria a atenção das crianças que pediriam para os pais comprar os produtos.

V:Lembrando que já houve a tentativa de exibir Gundam no Brasil com Gundam Wing no Cartoon Network e atualmente diversas séries Gundam se encontram disponíveis tanto na CrunchyrollNetflix, como também há o acesso no canal oficial Gundaminfo no Youtube , onde disponibilizam episódios legendados (em inglês) e ainda assim não chega a ser algo, aparentemente, suficiente para tornar a marca comerciável no Brasil.

Quais os planos para o futuro do evento?

 

D: Bem, quando tiver poder capital para isso (risos), pretendo fazer pequenos brindes, como bottons com imagens de Gundam, mesmo que venha alguém e não participe, só olhe os kits, leva uma lembrancinha. Fazer sorteios de Gunplas HGs. Fazer sorteios de cenários dioramas que o Alexandre (participante do evento) fabrica. Quem sabe um dia, nos termos uma área dedicada aqui no shopping.

Agora para descontrair: Série e Gunpla favorito de todo os tempos?

Mobile Suit Gundam Iron-Blooded Orphans (2015)

D: Pode ser dois? (risos) Mobile Suit Gundam Iron-Blooded Orphans, pois a história me emocionou bastante e antes dele a primeira temporada de Mobile Suit Gundam Seed. Uma coisa importante e fica a recomendação é que Gundam IBO é uma série que não depende de outras da franquia para assistir! É bom pra quem quer conhecer.

V: E o Gunpla favorito de todos os tempos?

D: O Strike Gundam de Gundam Seed! Sem duvidas.

V: Qual escala?

Strike Gundam de Mobile Suit Gundam Seed (2003)

D: Qualquer escala!  O Strike pra mim é o melhor modelo. A temática dele é ser uma unidade versátil, precisa de combate corpo a corpo, usa o Sword Pack, precisa de arma de longa distancia, usa o Launcher Pack, tá sem opções? Luta na faca! E ele é um conceito simples também, não tem coisas “mágicas” que alguns outros Gundam têm em outras séries.

Se quiserem conhecer o Daniel ou o trabalho dele, podem achar AQUI . Se quiserem participar do evento, ele ocorre de dois em dois meses no Shopping Nova América no Rio de Janeiro.

5. Gunpla Builders do Brasil.

Durante essa matéria já vimos Gundam e Gunpla numa perspectiva pessoal, local e agora quero trazer para vocês uma visão desse mercado em nível nacional (ou quase). Durante todo o mês de fevereiro realizei uma pesquisa envolvendo pessoas de dentro e de fora do hobby para que pudesse ter pela primeira vez alguns dados do perfil do consumidor e proporção do quanto dinheiro o hobby do Gunpla anda movendo por aqui. Já vou deixando claro que não sou nenhum especialista na área das estatísticas ou algo assim, essa pesquisa foi feita de forma bem amadora e usando um pouco do meu conhecimento e vivencia no meio do hobby. Desde já quero agradecer a todas as 165 pessoas que participaram dessa pesquisa, caso estejam lendo este texto. Eu sei que talvez não seja um número muito grande para termos uma real noção nacional do cenário do Gunpla em âmbito nacional, mas acredito que seja pelo menos o suficiente para esboçar uma ideia e que no futuro possa haver um incentivo a um estudo maior e mais complexo sobre o assunto, mas por agora, é isso que eu ofereço.

Obs.: Espero que gostem de gráficos!

A pesquisa foi dividida em quatro partes:

– Dados gerais: Com o intuito de termos uma ideia do perfil das pessoas envolvidas na pesquisa;

– Engajamento com a franquia: Quantas pessoas de fato conhecem e consomem Gundam como um todo, não só relacionado aos Gunplas;

– Participantes do hobby: Aqui bem especifico para aqueles dentro do hobby e traçando um perfil de como consomem, preferências de produtos e etc;

– O quanto de dinheiro Gunpla movimenta no Brasil em relação às pessoas que responderam a pesquisa.

 

Dados gerais dos participantes.

Por esses dados apresentados, podemos notar dois fatores bem interessantes. O primeiro é a média de idade dos votantes e, consequentemente, do publico consumidor, que está em média entre os 20 e 40 anos. Ou seja, mostra que o Gunpla, por aqui, tem como publico alvo pessoas que podem comprar por conta própria os kits e não depende dos pais, o que é irônico já que o Gunpla é um produto visado no Japão principalmente para o publico infanto-juvenil. Vemos os adultos consumindo no Brasil o que seria um produto “infantil” e os gráficos sobre situação de moradia e trabalho confirmam que são pessoas independentes, com uma situação financeira mais estável, que trabalham e tem suas famílias ou vivem sozinhas.

O segundo detalhe a se notar é a dominância do publico masculino, o que é uma pena, pois infelizmente o Gunpla (assim como plastimodelismo num geral) tem esse estigma antiquado de “boys toys”. Sabemos como o meio nerd/geek pode pender muito para esse lado e é uma discussão para outro texto talvez, mas só queria deixar frisado esse detalhe e que o hobby do Gunpla é para todos! Existem muitas meninas Gunpla Builders incríveis. Nas palavras do representante oficial do hobby Katsumi “Meijin” Kawaguchi – “Eu acho que as pessoas comumente associam que Model Kits são apenas para meninos, mas isso é sem sentido nenhum. Um kit pode ser apreciado por todos. O numero de mulheres Builders pode ser pequeno ainda, mas eu vejo um aumento nas inscrições do GBWC (Gunpla Builders World Cup, maior evento do meio onde reúne o trabalho de centenas de profissionais ao redor do mundo) por parte delas. […] Inclusive as mulheres muitas vezes demonstram ter muito mais talento em pintura e detalhamentos do que os homens” – Existem diversas Builders incríveis nesse hobby e algumas inclusive campeãs de etapas do GBWC, fora as diversas geradoras de conteúdo e muito mais.

Registro da Ashe na página do Instagram dela quando foi premiada na GBWC 2015
Dados sobre o quanto as pessoas consomem e conhecem da franquia.

Como o intuito da pesquisa era chegar ao máximo de pessoas possível não podia faltar a pergunta obvia: se elas sabiam o que era Gundam, e pelos 97% de respostas positivas faz parecer que é um baita sucesso, mas infelizmente, por chegar em sua maioria nas pessoas dentro do nicho, é natural uma maioria aqui. Ainda assim podemos ver números interessantes do quanto esse publico consome as animações. No gráfico de como as pessoas ficaram conhecendo a franquia, vemos que a grande maioria buscou por conta própria assistir as séries, entende-se que as séries chegaram até a pessoa de alguma forma e ela foi conferir do que se tratava e ficou por ter gostado. O resto das respostas é um tanto quanto esperado, pessoas que receberam indicações diretas de quem já conhecia ou por terem acompanhado Gundam Wing quando passou por aqui. O último gráfico mostra em escala o quanto as pessoas assistiram e assistem a franquia, sendo zero indicando que assistiram uma ou menos séries e cinco os fãs mais hardcore que consomem 100% das animações. Podemos ver que a galera é bem dedicada a assistir as animações, a maioria indo na categoria quatro, o que indica que pelo menos as series mais mainstream eles acompanham com frequência. Isso já era esperado, pois, como mencionado, a pesquisa acabou tendo participação majoritária de fãs de Gundam.

Dados sobre como o colecionador lida com o seu hobby.

Conhecer Gundam não é necessariamente explícito que a pessoa conhece Gunplas, assim como seria absurdo assumir que todo mundo que conhece, por exemplo, Digimon sabe que eles são derivados de brinquedos eletrônicos. Existem pessoas que são familiarizadas com o hobby de plastimodelismo, mas não conhecem Gundam e vice-versa. Então era necessário ter uma ideia do quanto as pessoas estavam familiarizadas com esses termos e pelo gráfico vemos que boa parte (mais de 70%) era bem engajada em ambos os universos, mas ainda é de se impressionar que quase 10% dos votantes apesar de consumirem os robôs de plástico não sabia que o hobby tinha uma, digamos, categoria já estabelecida.

Gunpla também não é o único derivado de Gundam para se colecionar. Também há acessórios, gashapons, action-figures e estatuetas e mais itens do que é possível listar aqui. Fiquei impressionado de como ficou o gráfico, em que metade dos votantes, como esperado, é apenas dedicado aos Model Kits, quase a outra metade (+/-40%) coleciona também outros produtos e o restante apenas admira de longe. Ao que parece, é a parcela que conhece o hobby, mas ainda não teve a oportunidade de comprar.

Os dois gráficos restantes dessa categoria são os que, pessoalmente, acho mais interessantes. Existe na comunidade todo um debate sobre qual é a melhor escala entre os Gunplas. Metade marcou que possui kits na escala HG, que no mercado de Gunplas são os que possuem maior variedade e diversidade além de serem melhores quanto a custo/beneficio no geral. Mas entre os colecionadores há uma clara preferência entre os MGs, que são de fato mais detalhados e possuem um processo de montagem mais complexo, porém igualmente mais caro. O que acontece é que o que poderia ser gasto comprando apenas um único Gunpla na escala MG pode ser gasto igualmente comprando de dois a três HGs. Claro que a mesma pessoa que coleciona itens de uma escala pode colecionar de outra, eu mesmo possuo SDs, HGs e MGs na minha coleção, mas ela é em sua maioria de HGs.

Perguntei também o quanto, a partir do momento que as pessoas compraram seus kits, elas se dedicam ao executar a montagem sendo 1 fazendo o mínimo necessário e 5 como trabalhos profissionais que exigem ferramentas complexas, pinturas completas e até modificações radicais. 45% dos votantes marcou a categoria 3, o que indica que a maioria faz um trabalho completo, que consiste em lixar as peças, polir, fazer pequenos trabalhos de pintura, detalhamento, mas ainda num nível “amador” por assim dizer, afinal, ter mais itens para esse tipo de coisa acarreta em deixar o hobby mais caro.

Dados obtidos de quanto dinheiro em média, em relação a pesquisa, Gunplas movimentam.

Finalmente chegamos a parte mais relevante e importante dessa pesquisa e objetivo desse texto, que é a analise financeira do mercado de Gunplas. O primeiro gráfico mostra a pergunta mais obvia porém pertinente, saber que Gunplas existem não significa obrigatoriamente comprá-los, sendo assim, apenas 10% respondeu que não compra, o que era um resultado esperado sabendo que a grande maioria já é ativo na comunidade. Agora os gráficos de frenquência de compra e gasto dão uma perspectiva interessante. Segue o raciocínio:

– Mais da metade (81 pessoas para ser mais exato) que responderam essa pergunta afirmam que compram pelo menos um Gunpla por ano e 44% (66 pessoas) compram pelo menos um por mês;

– Vimos nos gráficos anteriores que o tipo de kit mais comprado são os HGs que custam, considerando taxas e frete, algo em torno de 100 reais (importados, preços de revendedores nacionais tende a variar), o que é confirmado pelo gráfico de média de gastos onde a maioria (30%) afirmou que gasta em torno de cem a duzentos reais;

– Sendo assim, 81 pessoas gastam pelo menos uma vez no ano 100 reais com Model Kits de Gundam e 66 gastam isso por mês! Só essas 81 pessoas movimentam R$8100,00 por ano e as outras 44% movimentam R$79.200,00 (66×100= 6600×12 =79.200) por ano! Ambos somados dão R$87.300,00! Isso contando apenas as pessoas que responderam a pesquisa, sabemos que nem todos responderam, mas só essa pequena parcela de participantes move quase noventa mil reais em modelos de plástico de Gundam.

Ambos são Gunplas baseados no Gundam Deathscythe Hell, na esquerda um modelo bootlag da Dragon Momoko e na direita o modelo original da Bandai.

Como todo grande comércio, este também tem suas ovelhas negras, no caso, pirataria. Sim, existe pirataria até no mundo dos Gunplas. São os chamados “kits bootlags”: diversas empresas tentam replicar o processo de fabricação e além de criarem modelos próprios, mas semelhantes aos oficiais, também são ousados em trazer modelos idênticos aos vendidos pela Bandai. Geralmente esses produtos são de qualidade duvidosa, mas tem a vantagem de ter um custo bem menor em relação aos originais, sendo algo tentador para o consumidor que quer sustentar o hobby, mas sem pagar pequenas fortunas. O gráfico ficou levemente divido, quase meio a meio, mostrando que se há concorrência haverá uma procura por quem oferecer melhores preços, independente da qualidade final do produto.

Conclusão

Dentro ou fora do nicho a popularidade de Mobile Suit Gundam como franquia é inegável. Há pouco tempo tivemos uma representação dele no ocidente em duas oportunidades! No filme Jogador N°1 e no filme Circulo de Fogo: A Revolta. Os fãs ocidentais tem acesso a muitos produtos da franquia mas nós aqui do Brasil ainda somos muito carentes de acesso aos Gunplas, apesar da mídia ser perfeitamente acessível através das plataformas de Streaming mais populares. O publico existe, mas ainda não é o suficiente para motivar a Bandai a trazer para nós de forma oficial esses produtos (apesar de termos vendas constantes de action-figures e outros itens de outras franquias que também estão sob sua jurisdição). Podemos esperar que com mais destaque e avanço das mídias digitais faça a popularidade subir ainda mais e, como consequência, conseguir que a distribuição de Gunplas chegue em terras nacionais sem ser pelos meios mais comuns, que são por terceiros, o famoso mercado cinza.

Espero que tenham gostado dessa matéria amigos! É apenas um ensaio de algo muito maior e que eu mesmo não tenha talvez 100% de moral e autoridade para discutir, apenas tenho a meu favor e como crédito a minha vivência como colecionador de Gunplas e membro da comunidade de Builders do Brasil. Muito obrigado a quem leu até aqui e agradecimento em especial a todos aos colegas de hobby e companheiros do Genkidama que me ajudaram na criação e elaboração desse texto.

Até o próximo #PitacosdoVilson!

Referências:

https://www.jbox.com.br/materias/gundam-wing/

https://www.hlj.com/gundam/high-grade-kits-3244

https://www.instagram.com/p/5kmwV4oqM6/?igshid=ybawcs5yj2vz

Entrevista com o Meijin Kawaguchi https://youtu.be/kvf8YITpBcY

https://docs.google.com/forms/d/13-kXBfcTLVXI26udk_FowV7zeUDnzDevTBkLgQfelzs/edit#responses

https://gundam.fandom.com/wiki/The_Gundam_Wiki

http://www.lojadoqi.com.br/hobbies/gunpla

Vídeo documentário da fábrica de Gunplas https://www.youtube.com/watch?v=yVHI7nKMqlE

Canal da Youtuber e Gunpla Builder Abbie https://www.youtube.com/channel/UC6xk8pfV8lAup0YLuZQh0kw

Canal da Youtuber e Gunpla Builder Meli https://www.youtube.com/channel/UCQahpyU6b2HM0wW-wgUpfDQ

https://asia.nikkei.com/Business/Bandai-celebrates-35-years-of-Gundam-model-kits

 

Revisão: Deise Bueno