Banana Fish, yaoi e demografias

Banana Fish foi originalmente publicado no Japão há mais de 25 anos — de 1985 até 1994—  na revista Bessatsu Shoujo Comic e rendendo 19 volumes encadernados. Foi somente em 2018 que a série ganhou um anime com 24 episódios, produzidos pelo MAPPA Studio (o mesmo de Yuri On Ice!! e Dororo). No Brasil, o anime está disponível na Amazon Prime e o mangá teve anúncio de publicação para este ano pela Panini, durante a palestra da editora na Comic Con Experience de 2019. A edição, especial, irá encadernar os 19 volumes originais em 10 edições.

A história apresenta uma Nova Iorque permeada por gangues que controlam as ruas. Ash Lynx é um jovem de 17 anos e  um dos líderes de gangue mais temidos. Um dia, ele encontra um homem agonizante que lhe entrega um colar e sussurra “Banana Fish” antes de morrer. O jovem começa a investigar o que as palavras ditas pelo homem significam e passa a ser perseguido pela máfia. Ash conhece um jovem japonês, Eiji, com quem constrói uma amizade natural e inesperada. O chefão da máfia, “Papa” Dino Golzine — que sequestrou Ash quando criança e sempre abusou-o sexualmente, além de obrigá-lo a se prostituir — empreende uma caçada ao jovem. A proteção de Eiji se torna um dos principais objetivos de Ash, assim como se libertar de Golzine e descobrir do que se trata Banana Fish.

Numa rápida pesquisa na internet, encontramos muitos tópicos de discussões sobre Banana Fish ser ou não uma série Yaoi – gênero que engloba histórias focadas em relacionamentos afetivos entre homens. Esse questionamento sobre o anime é consequência de algo claro, que é a relação existente entre os protagonistas Ash e Eiji. Oficialmente, o mangá é classificado como um shoujo – voltado para garotas jovens, tendo sido publicado numa das maiores revistas da demografia. Mas isso não é suficiente para aplacar a discussão.

O tópico de demografias  por si só é algo bem complexo no universo dos mangás e animes. No Japão, há uma grande segmentação dos produtos baseados principalmente na idade e gênero do público consumidor. Isso implica nos temas abordados, na estética, na veiculação, nas estratégias de divulgação, ou seja, em muitos aspectos da obra em si e externos a ela. Essas demografias não são absolutas ou excludentes: há a plena consciência que um produto não é consumido somente pelo público alvo primário, mas acabam servindo como método de organização primário.

Apesar de não ser algo excludente, é comum que escolhamos acompanhar uma história baseados na demografia à qual ela pertence. Pensando no mercado de mangás o pesquisador espanhol Alfonso Moliné, em seu “O Grande Livro do Mangá”, defende que essa classificação automática que fazemos não é correta. Como ele explica, ainda que as publicações japonesas sejam super segmentadas por idade e gênero há uma busca por variedade nas histórias lançadas, compreendendo que os gostos dentro de uma determinada segmentação são diversos. Ou seja, ainda que Banana Fish possa ser “oficialmente” direcionado para um público feminino isso não significa que precisa estar preso aos diversos clichês e estereótipos de narrativa e temas repetidos nos mangás shoujo. Garotas também podem se interessar por ação, tiros e perseguições numa história.

Sobre as discussões acerca do contexto homoafetivo em Banana Fish, é válido discutir sobre o yaoi em si. O yaoi é um gênero originalmente derivado dos mangás shoujo, sendo produzidos por mulheres. No artigo “Seme ou uke? Uma análise sobre o Yaoi, os quadrinhos homossexuais japoneses”, a autora Octávia Alves Cé pontua que a própria representação dos personagens segue estereótipos relacionados com suas performances sexuais: os ativos (seme) são homens másculos e altos, enquanto os passivos (uke) são frágeis e efeminados, além de diversas soluções narrativas constantes na demografia, como o estupro, o suicídio e outras agressões físicas. Numa grande parte das histórias yaoi, são mostradas visões de mulheres heterossexuais sobre relacionamentos entre dois homens, muitas vezes de forma extremamente estereotipada e pejorativa e com uma hiper-romantização de situações abusivas, como demonstrações viscerais de afeto.

Alguns dos clichês  questionáveis do yaoi estão presentes em Banana Fish, principalmente no que tange a abusos sexuais como demonstração de poder masculino e social. Mas no caso do anime, tais ocorrências não são romantizada: muito pelo contrário, elas são um dos principais pontos de repúdio na narrativa. Contudo, não deixa de ser incômodo que esse tipo de situação aconteça numa história, ficcional ou não. Neste caso, a discussão é a mesma sobre os temas abordados: todos os yaois são necessariamente embebidos em construções problemáticas? Creio que não, e um exemplo disso é o josei Given, onde as relações entre os personagens não utilizam de boa parte das construções clássicas do yaoi. 

É importante frisar que elementos problemáticos estão presentes em todas as demais demografias, e mesmo em todas as histórias. São reflexos da sociedade que vivemos e de nós mesmos, seres humanos, e precisamente por isso temos de refletir sobre. Talvez a demografia que melhor abarque os temas de Banana Fish seja o seinen, direcionado para adultos e  que engloba tramas com temas mais maduros como violência, sexo e uso de drogas (Monster, Vagabond, Trigun),  mas também abrace histórias mais contemplativas e lentas (Maison Ikkoku, O Homem que Caminha). Mas independente de qual a demografia que seria mais para classificar Banana Fish, o anime apresenta uma história complexa e interessante que não precisa, necessariamente, se adequar à rótulos externos. Isso se aplica a todas as boas histórias a serem contadas.


Revisão: João Pedro Boaventura