PROMARE – Como é bom estar vivo!

Eu havia feito todo um planejamento para esse mês, vocês devem ter visto na minha coluna #TokuTudo, na qual postei a entrevista com Kihachiro Uemura durante o Rio Matsuri 2020 que o meu texto de hoje seria sobre a minha experiência durante o evento como um todo. Bem… Tudo isso foi para o espaço quando eu assisti (e quando este texto for publicado, reassistido incontáveis vezes) o épico longa de animação lançado em 2019 nos cinemas japoneses, PROMARE.

Para quem ainda não conhece PROMARE, vamos à sinopse: 30 anos atrás, a Terra sofreu uma calamidade que ficou conhecida como “o grande incêndio mundial”, as chamas foram causadas por uma massiva combustão espontânea de humanos, que fez com que metade da população da Terra morresse. Alguns humanos desenvolveram habilidades pirotécnicas durante e subsequente ao evento e se tornaram conhecidos como Burnish. No presente, Galo Thymos vive na cidade de Promepolis como membro do grupo de bombeiros Burning Rescue, que respondem a incidentes envolvendo os atos do grupo terrorista chamado Mad Burnish.

Não se preocupem nesse texto não haverá spoilers.

PROMARE é dirigido por Hiroyuki Imaishi e escrito por Kazuki Nakashima, ambos trabalharam no clássico Tengen Toppa Gurren Lagann (Gainax, 2007) e mais recentemente em Kill La Kill (Trigger, 2013). Para quem já assistiu esses animes, vai notar logo de cara diversas semelhanças no estilo artístico, no traço dos personagens e na narrativa que é praticamente uma assinatura vinda de Imaishi e Nakashima (e caso ainda não tenham assistido TTGLKLK ambos estão disponíveis na Netflix! Além das adaptações em mangá de ambos já terem sido publicadas no Brasil). Se pudesse resumir de forma prática o tipo de narrativa que eles costumam colocar em suas obras, diria que é a de sentimento do famigerado HYPE sempre subindo, sempre e sem limites. Aliás, HYPE é bem a palavra aqui ao falar de PROMARE. É assim que estou me sentindo nesse momento, é assim que estou escrevendo esse texto. Completamente empolgado e embriagado pelo sentimento que só o estúdio Trigger e esses gênios conseguem fazer brotar.

Entre o elenco de dubladores gostaria de citar três nomes:

Kenichi Matsuyama dá voz ao protagonista Galo Thymos. Ele pode não ser muito conhecido por seus papeis como dublador, afinal contando com esse filme é só o terceiro trabalho dele, porém ele é bem famoso por ter interpretado L nos filmes live action de Death Note desde 2006!

Kenichi Matsuyama em seu papel como L em Death Note.

Taichi Saotome dá voz a Lio Fotia, ele também não tem muitos papéis como dublador, porém ele pode ser visto dando vida ao personagem Abarai Renji no Live Action de Bleach!

Taichi Saotome como Abarai Renji em Bleach.

Nobuyuki Hiyama, que é um dinossauro da dublagem desde 1992 e deu voz a pelo menos um personagem que todos conhecem, é uma voz muito característica que não tem como não ser reconhecida. Ele já deu voz a personagens como Madarame Ikkaku de Bleach, Hiei de YuYu Hakusho e, claro, Viral em TTGL, entre outros. Ele é uma figurinha marcada quando se trata de projetos envolvendo o Imaishi.

Nobuyuki Hiyama e mais personagens do que se pode citar em uma única legenda.

Antes de falar sobre o filme em si, preciso compartilhar algo com vocês para que entendam um pouco da minha empolgação e emoção nesse momento.

Não estou no melhor momento da minha vida atualmente, não vou me aprofundar, pois vocês não são obrigados a aturar os lamentos de redator de site de anime, mas o fato é que tenho me sentido constantemente deprimido e desmotivado com a vida, me sentia da mesma forma no longínquo ano de 2008, por motivos diferentes que só meu eu adolescente pode dizer, mas o sentimento de tristeza e insuficiência estava lá. Na época, alguns amigos haviam me recomendado assistir esse anime sobre uma galera que era forçada a viver embaixo da terra e tinha uns robôs legais usando brocas, quando o download do anime terminou, já era mais de meia noite, estava com sono, mas dei play no primeiro episódio só pra ver “qual é”. Eu assisti os 27 episódios de Gurren Lagann ininterruptamente, eu não consegui mais dormir e precisava ver aquilo até o final. Um sentimento de agitação, empolgação, esperança e renovação me tomaram de uma forma que nunca havia acontecido antes. Eu tinha certeza que algo incrível havia acontecido e o que eu havia assistido não era só mais um anime. Era um marco na minha vida, que agora era dividida em antes e depois te ter conhecido TTGL. O mesmo aconteceu no dia em que assisti PROMARE, os sentimentos negativos, o download que acabou de ser feito mais de meia noite, o play dado despretensiosamente e o HYPE que tomou conta de mim e não permitiu que eu parasse de ver o filme até o final. Agora, a minha vida é dividida, mais uma vez, em antes e depois de ter assistido PROMARE.

Dramas pessoais à parte, vamos ao que interessa, que é sobre o filme!

No aspecto técnico, PROMARE já se vende como uma obra de excelência. Além dos já citados diretor, roteirista e dubladores, temos Shigeto Koyama responsável pelo design dos personagens e mecânicas. Ele já trabalhou em muitos animes icônicos como Eureka Seven, Heroman, SSSS Gridman e Panty & Stocking with Garterbelt, além de TTGL e KLK. É impossível não reconhecer esse traço dele, seja nos personagens, seja nos mechas e sim, temos mechas em PROMARE.

As músicas ficam a cargo de Hiroyuki Sawano, que é um compositor muito famoso e trabalha fazendo a trilha sonora de diversos animes desde 2006, entre as séries famosas que ele esteve presente podemos citar Attack on Titan, Mobile Suit Gundam Unicorn e Guilty Crown.

Guilty Crown, Production I.G 2011.

Uma boa parte do filme utiliza a técnica de animação em CGi 3D, quem ficou a cargo disso foi o estúdio Sanzigen. Eu sei que falar que um anime usa CGi normalmente deixa a gente com um pé atrás, não é toda produção que sabe trabalhar bem com isso, mas o estúdio é muito competente. Vocês podem ver o bom trabalho que eles fazem em obras como Black Rock Shooter, 009 Re:Cyborg e A Heroica Lenda de Arslan (esse ficou famoso por ter sido desenhado, tanto no mangá quanto na adaptação em anime, pela Hiromu Arakawa, autora de Fullmetal Alchemist).

Com a parte técnica em mente e seus devidos responsáveis creditados, podemos falar um pouco do que vocês irão ver na tela per se.

A qualidade da animação está belíssima! Os cenários são majestosos e o mundo que é apresentado ali é vivo, colorido e minimalista! Sim, isso mesmo. Minimalista.

A escolha estética para o longa foi do uso muito bem aplicado de formas geométricas. Preparem-se para ver triângulos, quadrados e retângulos sendo usados da forma mais simples e ao mesmo tempo mais complexa e bela que vocês já viram, vai estar presente em tudo e não estranhem ao ver efeitos de fumaça e fogo sendo representados de forma poligonal. Acredito que essa escolha vem do conceito que, em geral, formas geométricas são muito agradáveis de ver ao mesmo tempo em que, para os animadores, possibilita um trabalho mais confortável. Sempre podemos ver designs e cenários complexos e meticulosos em seus detalhes em diversos outros animes, mas não deixem se enganar por PROMARE ir na direção completamente oposta, ele faz isso de forma incrível e de deixar o queixo caído.

Eu estou dizendo em todos os lugares e a todos com quem converso que PROMARE é a segunda vinda de TTGL na Terra e o filme não faz a menor questão de desmentir isso. O próprio protagonista Galo é praticamente uma cópia cuspida e escarrada do Kamina, e não estou reclamando! Também gosto de pensar que uma das intenções inerentes do filme é homenagear e referenciar outros trabalhos do Hiroyuki Imaishi, e os olhos mais atentos e conhecedores do trabalho do diretor vão perceber isso.

PROMARE vai muito além de uma animação bonita e referências a TTGL, ele coloca em pauta de forma sutil e metafórica alguns conceitos atuais e que te vão fazer pensar um pouco sobre. O conflito dos humanos contra os Burnish pode ser traduzido para o nosso cotidiano com diversos problemas étnicos e raciais, colocando de forma um pouco grosseira algo como preconceitos com pessoas negras, latinas ou homossexuais, que são rotuladas por suas características, e, bom… Sabemos como o mundo trata as minorias, não é? Há sim uma crítica a isso quando você emerge e interpreta um pouco o filme, não só a essa questão, mas até sobre o meio ambiente e a relação do homem com a natureza, como as figuras de poder mascaram boas intenções e ignoram fatos científicos apenas para satisfazer seus caprichos e manter seus privilégios.

Poderia ir mais a fundo nisso, mas falar mais que isso já poderia ser até mesmo spoiler, e o filme guarda muitas surpresas e faz parte da experiência passar por elas com o mínimo de informação possível.

No fim das contas, ao terminar de assistir a pouco mais de uma hora e meia que o filme proporciona, eu só sei que estava com lágrimas nos olhos, vendo os créditos subirem, não necessariamente emocionado com a trama do filme, mas apenas pelo fato de ter assistido, de ter tido essa oportunidade. A primeira coisa que disse assim que terminei foi a frase que deu título a essa matéria: “como é bom estar vivo!” e só posso agradecer a PROMARE por ter me dado novamente motivos pra dizer uma frase como essa.

Obrigado por lerem esse meu pequeno momento de partilha emocional, e vejam PROMARE!

Revisão: Karin Cavalcante