Mayoiga (The Lost Village) – Se vira nos trinta… e tantos

Mayoiga, ou The Lost Village no ocidente, é um anime original de mistério e terror lançado em 2016 através de crowdfunding¹, que talvez fosse melhor ter ficado pela fase de financiamento, mas o universo confabulou com o estúdio Diomedéa uma maneira de fazer essa obra dar seu ar da graça – e que ar poluído esse.

Pois bem.


A premissa

Com o pretexto de poder ter um recomeço na vida, um grupo excêntrico de 30 pessoas parte numa excursão pela busca de Nanaki, a vila descrita em lendas urbanas como utópica. Ninguém, no entanto, tem certeza de onde ela fica e nem por quais motivos ela nunca foi localizada. Quando finalmente chegam no destino, os viajantes encontram o lugar completamente abandonado e marcas de garras pelas árvores enquanto membros do grupo desaparecem misteriosamente. Ao cair da noite, quem está fora dos abrigos passa a ouvir e ver coisas diferentes. Acontece que a vila materializa o maior medo da pessoa e impede que ela saia de lá caso esse medo não seja confrontado.


A preguiça (de caracterização) 

Boa parte do elenco. Da esquerda pra direita: Toshiboy, Valkana, Nanko, Jack, Toriyasu e… segue o barco.

Vilas pacatas tomadas por ocorrências sobrenaturais não são novidade para o universo audiovisual do mistério, incluindo os animes, claro (vide Higurashi no Naku Koro ni e Shiki), porém, introduzir 30 personagens para uma série fechada e contínua (no sentido de não-episódica) de 12 episódios, além de insanidade, pode ser a tal da “novidade”. E digo “30” por generosidade! Na verdade, são 33. Fora aqueles que surgem nos flashbacks espalhados pelo anime.

Esses números fazem nenhum sentido se considerarmos a quantidade de personagens minimamente relevantes, afinal, quando divide-se 33 pelo número de episódios, o resultado é de QUASE 3 personagens: Mitsumune, Hayato e Masaki.

Apesar disso, o nível de caracterização destes seletos não é diferente do concedido para o restante do elenco. Todos podem ser definidos com uma frase, ou, nos casos mais extremos, uma palavra: tem o gordo, a paranóica, o delinquente, o rapper, o chuunibyou², o casalzinho, o fracote… O protagonista Mitsumune, que é um menino bonzinho e altruísta; o rival/amigo Hayato, que existe por causa do Mitsumune; e a Masaki, o interesse amoroso, que existe para a causa do Mitsumune e da conveniência narrativa, pois…

…além do Mitsumune, Mitsumune, Mitsumune… os outros dois citados por nome quase nunca são vistos interagindo proativamente com o restante dos viajantes, só que, no caso da Masaki, isso é mais perceptível: ela é uma ferramenta de enredo, e não uma personagem. Quando instigada a falar, é da boca dela que saem frases enigmáticas e sugestivas às quais a cambada sempre questiona e, consequentemente, é motivada a agir – sem a Masaki, em momento algum, explicar francamente o que ela quer dizer (ou porque ela não pode ser mais clara), mesmo enquanto duvidam dela a ponto de ameaçá-la de morte, tornando ela uma personagem pouco crível e frustrante de assistir. A Masaki ser pressionada pela maioria é também um gatilho para atrair o paladino Mitsumune à menina que ele julga indefesa e mal compreendida, o que é muito conveniente, dado que ele é o aparente personagem principal e ela é a pessoa mais atrelada ao mistério de Nanaki.

A democratização do raso em Mayoiga inicialmente estabelece a sensação de que ninguém está seguro, já que as motivações parecem niveladas, mas com o passar do tempo e os personagens ainda estagnados em seus estereótipos, o que se enxerga com lentes cínicas é a mera artificialidade da criação de suspense. Te faz pensar qual dessas piscinas infantis ambulantes sumirá em seguida sem você ou qualquer personagem se importar. Há situações em que o assunto do desaparecimento e possível morte de uma pessoa é deixado de lado em prol de uma discussão sobre o nome do jogo que definirá os grupos de busca ou sobre a pronúncia de “Hyouketsu no Judgeness”. Prioridades.

Alguns personagens até recebem um agrado maior na tentativa de ter uma injeção de profundidade com flashbacks forçados que exploram as origens dos maiores medos de cada um, mas essa construção não tem um desfecho ou função temática que justifique o tempo gasto: ninguém morre ou realmente desaparece por enfrentar ou não o próprio medo (então não tem consequência), jamais o assunto desses traumas é retomado (então não tem desenvolvimento) e, principalmente, qualquer paralelo com o cerne da narrativa, que é uma questão de identidade do Mitsumune, inexiste, tornando incompreensível a necessidade de todo esse pessoal secundário para a série.


A encheção de linguiça (na narrativa)

Naruto e Sasuke. Digo, Mitsumune e Hayato.

Dentre o amontoado de coisas que Mayoiga joga na sua direção, a única que gruda como a cola que conecta o início e o fim da história é o dito problema pessoal do Mitsumune: durante a infância, ele perdeu o irmão gêmeo num acidente. A mãe ficou devastada mentalmente e passou a enxergar o Mitsumune como se fosse o filho falecido, cuja identidade ele abraçou. Entretanto, com o passar do tempo, sua própria identidade foi se perdendo, o que culminou na ida para Nanaki à procura de um recomeço e um reencontro com si mesmo. 

Nós, como telespectadores, não sabemos disso tudo inicialmente, mas temos dicas aqui e ali de que os pais dele são superprotetores. Assim permanece até ele ganhar uma fatia do bolo de flashbacks. E aí entra a dualidade que a roteirista da obra, Mari Okada (Kiznaiver, MSG: Iron-Blooded Orphans, Toradora!) criou. Ou tentou. 

Lá em cima, nos confins deste texto, mencionei que o tal do Hayato existe por causa do Mitsumune. Desde o character design, com o clássico vermelho versus azul, até a motivação para ter se juntado à excursão; o personagem inteiro foi modelado para um momento e mais nada: o da catarse do protagonista. 

Basicamente, o pequeno Hayato foi forçado a agir da maneira como os pais dele queriam a fim de manter a boa aparência para a vizinhança, apanhando e sendo trancado no sótão caso desobedecesse. Curioso, considerando que, assim como o Mitsumune, ele teve que personificar alguém que ele não é. É esse o paralelo traçado quando eles se confrontam, e o Hayato, com a função de ser o contraponto, dá a entender que ele não quer mais ser uma marionete dos pais, e que gostaria de ter uma particular – o Mitsumune, que, através desse embate, é iluminado e se reconcilia com o próprio medo: uma representação do irmão.

A falha cataclísmica que faz o conflito e a resolução não funcionarem, é que as coisas simplesmente acontecem. Do nada. Depois de ser negado pelo personagem principal, o Hayato fica remoendo e decide usar a manifestação do seu medo para atacar todo mundo. Por… razões. 

Não entender o porquê das ações dos personagens é produto do déficit de atenção do qual a série sofre em meio a poluição de subtramas criadas. O foco muda com tanta constância que ninguém tem chance para ser desenvolvido, impedindo que os rasos sejam aprofundados. Uma arapuca criada pela história. Por conta disso, um momento importante para o arco do Mitsumune, como é o mencionado, se resolve tão rapidamente que quase não dá tempo de você se perguntar: “o que acabou de acontecer?”. Outro fruto dessa armadilha é na volta da atenção para o Hayato, que além de constituir um clímax fraco e uma tensão de papel para o terço final de Mayoiga, ele “usar a manifestação do seu medo para atacar” indica que o negócio também tem memória de tilápia, pois isso contradiz diretamente um fato que foi estabelecido anteriormente: cada um só vê e interage com o medo particular. 

Se buscar por outros exemplos menos relevantes desses esquecimentos e inconsistências, encontrará espalhados aos montes, como o do sujeito que foi preso e depois liberto… e depois desapareceu completamente da história até voltar atacando geral (porque mandaram) só pra ser parado por um personagem que sequer havia sido introduzido até então; o da garota que foi até a vila procurar o medo materializado de outra pessoa mesmo sabendo que você só enxerga o seu… Um que eu gosto acontece logo no primeiro episódio, o prelúdio da catástrofe que viria a seguir, envolvendo o motorista do ônibus de viagem. Ele se irrita com alguns passageiros e tenta acidentar o busão num surto de raiva. O cara aparece por um pouco mais de um minuto na tela antes de chegar nessa decisão. A estrada tem mais tempo de tela do que ele! Um minuto e meio, pra ser mais ou menos exato! E é só asfalto e eventualmente o ônibus no quadro, e nenhum dos dois tentou matar ninguém! Mas o motorista… 


A missa (para o audiovisual)

Nissan R33 Skyline GT-R.

Um fato retirado da caixinha de obviedades é que a arte de uma animação é importante para transmitir ideias e criar atmosferas. Podemos estender essa noção ao áudio e à capacidade que ele tem de reforçar o senso de “lugar” com uma paisagem sonora imersiva, especialmente em histórias de terror. No entanto: surpresa! Mayoiga falha em ambos. 

Mais presente no início da série, existe um som de rugido feito com grunhidos de uns dois ou três animais que só surge (sem pompa e circunstância alguma) para amedrontar os personagens e estabelecer que a vila não é normal, mas assim que eles deduzem que o lugar manifesta os temores, o som jamais é utilizado novamente. Engraçado, já que ele era associado à possibilidade de ter um urso na região por conta das marcas de garras nas árvores e, assim como o uso do rugido, esse assunto também nunca teve sequência. Fora isso, pouco se aproveitou do silêncio e do som ambiente em razão da incessante presença de músicas dramáticas.

Agora, o visual é… intrigante. O dos medos, pelo menos. Não existe um padrão. Alguns são imagens estáticas em 2D que se distorcem a fim de causar a impressão de movimento, e outros são modelos 3D retirados diretamente de Gran Turismo, do PlayStation 1 (como o da imagem acima). Sinceramente, acredito que se aproveitar da incongruência do 3D num meio 2D para representar “medo” seja uma boa sacada! Se os renders não fossem de uma qualidade abissal, talvez ajudassem a amplificar a sensação de que aquilo “não pertence”, mas…

É comum que aberturas sejam mais bem animadas do que os episódios do anime, só que a de Mayoiga parece ser a única coisa na qual o orçamento foi gasto, e olha que ela é majoritariamente composta de ilustrações paradas! Imagina-se que uma obra como essa não requer movimentos plásticos e complexos para funcionar, porém até nos básicos eles erram, como quando o personagem conversa de boca fechada e quando o fogo fica imóvel.

Falando em “errar”: a cinematografia. Usar objetos convenientemente presentes na cena para ocultar a ação importante que ocorre no quadro é digno de marcar presença na lista de reprovados do curso, mas o pior é nos momentos em que a continuidade (cinematográfica) vai pro saco. Imagine o seguinte: uma pessoa está ajoelhada ao lado de outra ajudando ela a desatar uma amarra de cordas dos braços, e então corta para um plano diferente em que as duas estão em pé e ninguém toca nas cordas. Fatal, mas acontece.


A areia movediça (que é)

A imagem fala por si só.

Mayoiga é o resultado de uma grande pretensiosidade por parte da equipe do Diomédea

Um gênero complicado de trabalhar na animação 2D, pelo distanciamento natural que ela tem com a realidade, é o terror; e usando clichês que vão desde a ideia de ver o maior medo (Galáxia do Terror, Lentes do Mal e o mais recente Bird Box são exemplos de filmes que trabalham a temática), até o clássico “pessoas tropeçando repentinamente em situações de perigo” (acontece umas cinco vezes), o que poderia ser uma homenagem ou celebração bem-humorada do gênero com um toque de fantasia japonesa, acaba virando uma salada que se leva a sério. Além disso, a roteirista conta numa entrevista que a origem da série veio da vontade dela de escrever um drama sobre pessoas, mas com a trupe interminável de coadjuvantes rasos que guerreiam por tempo de tela e personagens principais assassinados no fogo cruzado, é nesse quesito que o anime mais deixa a desejar

Finalmente, no momento em que a zona narrativa culmina na introdução de um personagem chamado Kami-sama para explicar como sair de uma vila inescapável, é porque o atestado de derrota foi assinado e o estrago é tão irrecuperável que só Deus ex machina³ na causa, mesmo.

 

Dito tudo isso, vale a pena assistir? Só se for ironicamente. Caso contrário, passe longe; a uns 33 quilômetros de distância.

Mas tem no Crunchyroll.


 

Glossário:

1 – Financiamento coletivo. A famosa “vaquinha”.

2 – Termo usado em mangás, animes e afins para definir adolescentes com “delírios de grandeza”, que se convencem de que possuem capacidades sobrenaturais, fama e outras regalias. “Síndrome da oitava série”. 

3 – Na Antiguidade greco-latina, recurso dramatúrgico que consistia originariamente na descida em cena de um deus cuja missão era dar uma solução arbitrária a um impasse vivido pelos personagens. (Fonte: dicionário do Google).

 

Referências:

Mari Okada (Anime News Network)

Tradução da entrevista da Mari Okada (karice)

Entrevista original (sanspo)

Mayoiga (MyAnimeList)

Revisão: Karin Cavalcante

    Talvez formado no ensino médio, conseguiu um diploma de Produção Multimídia e é técnico em Animação 2D (mas, como discípulo do ET Bilu, busca por mais conhecimento na área). Tem ambições mundiais.