17 de fevereiro: Dia Mundial do Gato

Vamos falar um pouco do Neko (猫) e porque os japoneses são tão obcecados por esses bichinhos de quatro patas há milhares de anos.

“Seu site é atraente para pessoas interessadas em gatos”, de fato.

Dia 17 de fevereiro é comemorado anualmente o Dia Mundial do Gato. A data em especial foi criada por uma instituição italiana, com o objetivo de ajudar a promover uma campanha contra os maus tratos aos gatos. Na verdade, essa data não é a única, dia 8 de agosto é marcado pelo Dia Internacional do Gato. No Japão não é diferente, por lá dia 22 de fevereiro é comemorado o Neko no Hi, o Dia do Gato em japonês. O que não falta é dia de comemorar a existência desse bichinho fofinho!

Mas por que estamos falando de gatos num site sobre cultura pop japonesa? Pois bem, o povo japonês tem uma grande ligação milenar com os felinos!

Há mais de mil anos atrás, pessoas de classe alta tinha como animal de estimação o gato (o que também ocorreu em muitos outros países). Os anos foram se passando e com o tempo, as pessoas comuns começaram a ter gatos como animal de estimação e essa conexão tanto “mística” quanto “afetuosa” permanece até hoje, desempenhando um papel importante nas crenças populares.

Eles também foram protagonistas em obras de arte de Kuniyoshi Utagawa no período Edo (1603-1868).

Durante o período Meiji (1868-1912), o grande romancista Soseki Natsume escreveu o livro sátiro “Eu sou um gato”. A história é narrada por um gato adotado por um professor mal-humorado e decadente de uma Tóquio do início do século XX, Chinno Kushami. O felino acompanha as conversas de seu dono com seus amigos e visitas, e apresenta um retrato da sociedade japonesa à época, com seus rígidos protocolos e as contradições da mistura entre os valores tradicionais e as novidades recém-importadas do ocidente.

A história do livro faz uma crítica à sociedade japonesa da época, à desconfortável mistura entre cultura ocidental e tradições japonesas e à imitação de costumes ocidentais. Este livro chegou a ser publicado por aqui pela editora Estação Liberdade em 2008.

“Eu sou um gato”, capa da edição brasileira.

O fato é, de figura milenar à pop, o gato vem se inovando com o passar dos tempos. Tal livro se tornou uma obra-prima na literatura japonesa, e um fato curioso é que no bairro onde o autor viveu em Tóquio, Kagurazaka, surgiu um dos maiores (e talvez mais bizarro) festivais sobre gatos no Japão da atualidade: Kagurazaka Bakeneko Festival.
Para quem não conhece tal evento, trata-se de uma homenagem aos Bakenekos*, onde ocorre um desfile de fantasia que reúne cosplayers e amantes de gatos (além de muito furrie, coff coff).

Nos animes, o gato está presente em diversas obras, desde os clássicos até os mais contemporâneos. Doraemon, um dos animes mais populares do japão de todos os tempos, tem como protagonista um gato robótico sem orelhas. O mangá é de autoria de Fujiko F. Fujiro, escrito originalmente em 1969. Os volumes originais estão guardados na Biblioteca Central de Takaoka em Toyama, Japão, onde seu criador nasceu.

Seu personagem principal já foi considerado “embaixador do anime” do país pelo ministério estrangeiro do Japão em 2008. Antes disso, o Doraemon foi aclamado como herói asiático em uma reportagem especial conduzida pela Time Ásia. Muita gente lembra do primeiro ministro com cosplay de Mario na cerimônia de Encerramento dos jogos Olímpicos de Verão de 2016, mas nosso gatinho sem orelhas também foi um dos convidados para apresentação, criando uma tubulação para que Shinzo Abe chegasse a tempo.

Capa do volume japonês de Doraemon. Infelizmente, nunca chegou a ser publicado no Brasil.

Em 1996 o autor da obra Viagem Noturna no trem da Via Láctea Kanji Miyazawa teve sua biografia retratada em um especial de TV animado chamado Spring and Chaos. O anime em questão foi desenvolvido para marcar seu centésimo aniversário. Tanto Miyazawa quantos os demais personagens foram retratados como gatos. Curiosamente, em 1985 a adaptação em anime de seu livro também tinha os personagens retratados como felinos, apesar de não ser como a obra original aponta. Para quem não conhece a obra, trata-se de um clássico moderno japonês no qual muitos autores já usaram como inspiração, tais como Leiji Matsumoto em Galaxy Express 999 e Kunihiko Ikuhara em Mawaru Penguindrum.

O aclamado Estúdio Ghibli também se rendeu aos felinos, sendo inseridos em diversos filmes como coadjuvantes. Podemos citar Jiji, o gato preto melhor amigo de Kiki em “O serviço de Entregas da Kiki” e Nekobasu, o ônibus-gato em “Meu amigo Totoro”. No filme “O reino dos gatos” dessa vez, os felinos são os protagonistas!

Enquanto no Brasil a Nissin Food Products Corporation Limited é sinônimo de miojo da Turma da Mônica, no Japão o estúdio Ghibli produziu um comercial para a marca em 2010. A propaganda nada mais era que um gatinho redondo chamado Konyara que brincava com uma borboleta vermelha, após isso surgia o logo da Nissin.

“Olha como ela parece despreocupada” diz Miyazaki sobre Ushiko, a gata que mora em seu estúdio.

Indo para algo mais mainstream (não que Estúdio Ghibli não fosse globalmente popular…), os gatos também passaram pela Shounen Jump. Em Bleach tivemos a Yoruichi, em Dragon Ball tivemos o mestre Karin, Naruto tivemos a Tora, e em Black Cat tivemos o gatinho que Saya alimentava no telhado.

Em 1999, Akira Toriyama publicou uma paródia de Dragon Ball Z chamada “Neko Majin”, onde os protagonistas são gatinhos. O mangá foi finalizado com oito capítulos fechando em um volume único da série e nunca chegou no Brasil.


E por falar em Dragon Ball, lembram do Lord Beerus? Akira Toriyama baseou parcialmente o design do personagem no gato de raça Cornish Rex que ele tinha na época.

E por último – e não mesmo importante, em 2019 o Portal Joshi Spa publicou um artigo sobre o motivo dos japoneses gostarem tantos de gatos e de acordo com Hirage, especialista em psicologia do portal, o motivo é porque eles são Tsunderes*. Isso mesmo!

O psicólogo analisou o feedback de vários proprietários de gatos para descobrir exatamente o que torna os felinos tão atraentes para o povo japonês. E não se engane caso pense que está relacionado à algum fetiche, pelo contrário, Hirage acredita que a afinidade por animais domésticos tsunderes vem pelo fato de estatisticamente ter muitas pessoas no Japão que pensam no que podem fazer para beneficiar o próximo. Existe uma locação extremamente forte para que o código de conduta pessoal do povo japonês seja orientado para outras pessoas, e não para si mesmas.

Foto de Aoshima, também conhecida como Ilha dos Gatos, É uma ilha na Prefeitura de Ehime, no Japão, conhecida pelo seu grande número de felinos.

Portanto, mesmo que em seu relacionamento com seus animais de estimação eles não sejam particularmente obedientes, muitas pessoas ficam felizes em colocar as necessidades de seus gatos antes das suas e agir de acordo. Ou seja, para muitos donos de animais japoneses, prestar serviço ao gato é mais gratificante do que ter um animal de estimação que brinque com ele sob comando.

E ai? Já sabia dessas histórias? Sabe de mais um fato interessante sobre o felino na terra do sol nascente? Deixa nos comentários!

 

 

*Um Bakeneko (化け猫 “Gato monstro”) de acordo com o santo google, é no Folclore Japonês um gato com habilidades sobrenaturais parecidas com as de uma Kitsune ou de um Tanuki.
*Tsundere é um termo japonês para uma personalidade que é inicialmente agressiva, que alterna com uma outra mais amável. Tsundere é uma combinação de duas palavras, tsuntsun e deredere. Tsuntsun é a onomatopeia para “frio, brusco”, e deredere significa “tornar-se amável/amoroso”

 

Referências:

Insanely cute cat commercials from Studio Ghibli

Japanese people and cats in good harmony 

Entenda a adoração dos japoneses por gatos

Most adorable supporting Hayao Miyazaki creatures

Japoneses people love cats because they’re tsundere psychologist says

Doraemon Doujinshi Accused of Infringing Copyright

 

Ilustração da capa: Kaed
Revisão de texto: Deise Bueno

 

 

    Técnica em comunicação visual, 20 anos, mora em São Paulo. Desde criança conviveu com animes na sua vida, mas só se interessou mais a fundo na 7ª serie do fundamental e está até hoje presente em sua vida. Fangirl de shoujo, animações clássicas e psicodélicas, também é fã de carteirinha de Evangelion e Noragami. Twitter: @KarolFacaia