Porque Boku no Hero está errado

 

Yo!

Vamos explanar essa polêmica e trazer uns pontos extras pra discussão.

Hoje em dia, a internet anda muito mais rápida com as polêmicas, e a que está em alta é a da suposta referência desastrosa do mangá Boku no Hero Academia, de Kouhei Horikoshi, publicado na Shonen Jump e atual grande sucesso da revista, ao lado de Kimetsu no Yaiba e do eterno One Piece.

Vamos aos fatos: BHA apresentou um cientista do mal, que faz experiências com seres vivos, para testar os poderes de heróis (desculpa qualquer erro, não leio a série). Por vários capítulos, ele ficou nas sombras, sem nome e misterioso. Porém, quando veio à tona, seu nome acabou sendo uma infeliz referência.

Shiga Maruta 志賀丸太 é o nome que o autor escolheu para este personagem. O sobrenome Shiga é bem comum no Japão e Maruta, apesar de não ser um nome muito normal, é um nome possível. O -ta, é bem comum como complemento em nomes masculinos, como Ryota, Shota, Youta, Kouta… Aparentemente, há 40 Marutas registrados no Japão, portanto, mesmo não sendo comum, é um nome. Mas…

Horikoshi e a própria obra é conhecida pelos nomes referenciais ou com trocadilhos. Alguns nomes até carregam significados mais amplos, que tratam da própria personalidade ou papel do personagem. Então, Shiga Maruta não é um João da Silva nipônico.

O vídeo do VideoQuest sobre o assunto já é uma boa referência, mas eu busquei por fontes japonesas sobre o assunto, principalmente de quem não defendia o autor, já que boa parte do público japonês parece não entender o hate que veio de outros países.

MEU TEXTO VAI SE BASEAR NO CONTEÚDO DESTE SITE

Todo este ódio que veio da China, Coreia e Rússia, principalmente, é por causa do nome “MARUTA”, um termo pejorativo que era usado pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial para se referenciar às vítimas de experimentos com armas biológicas realizado pelo Batalhão 731 do Exército Imperial. Isso porque Maruta, nos ideogramas da língua japonesa, pode significar “tronco”, como no tronco de árvores, que eram queimados. Além disso, Maruta ainda pode significar “alguém insignificante”. E as vítimas dos experimentos, que eram queimados depois de não ter mais uso, eram chamados assim pelos soldados japoneses, que os consideravam inúteis e os queimavam.

Detalhe: os japoneses deste batalhão, por outro lado, eram chamados de “Akuma”, ou demônios. Lembre disso.

Talvez os japoneses não tenham se tocado, porque realmente, esses detalhes são pouco estudados ou até ignorados das aulas de história do Japão. Mas logo que o capítulo chegou em terras estrangeiras, ainda no sábado de sua estreia, o nome gerou revolta.

A medida em que se discutia, várias camadas desta cebola referencial foram descascadas.

  • O óbvio referencial às vítimas do Batalhão 731.
  • Kiyoshi Shiga é o nome do cientista que descobriu a bactéria Shigella, causadora da desinteria, que era usada nos testes. Os kanjis do sobrenome são os mesmos.
  •  Ujiga Waita, um mangaká de gore, que mascara seu nome trocando letras, parece ser a referência do nome, e até o próprio disse que achava isso no Twitter. Uji é muito mais lido como “shi”, e Shiga, aparentemente, é o nome que ele mascara. Waita, na verdade se escreve Yta, com o ípsilon lido como no inglês, Wai, e essa forma de abreviar o nome é usado normalmente no Japão para mascarar nomes, como nós fazemos usando “suspeito A”, “suspeito B”, etc…
  • A aparência do personagem Shiga Maruta é muito parecida com uma versão gorda e careca de Shiro Ishii, general do Batalhão 731.
  • A versão admitida pelo autor é a de que o nome vem do vilão da série, Shigaraki, como uma espécie de homenagem de um puxa-saco ao seu chefe, mais um nome que significa que ele é gordo, afinal Maruta pode significar também “redondo e obeso”.
  • Endeavor ameaça Shiga com a frase “Kannen shiro, Akuma no Tesakiyo!” (tente imaginar, seu capanga do demônio). Akuma, como eram chamados os soldados daquele batalhão, já é uma referência, ainda mais em uma frase tão não-natural. Mas existe um livro sobre o Batalhão que se chama Akuma no Hoshoku, “A Saciedade do Demônio”. Ele recebeu até filme e continuações, e é uma referência grande quando se pesquisa o assunto em japonês.

Não podemos bater o martelo, mas vendo os detalhes, dá pra imaginar o que pode ter acontecido. No blog que eu me referenciei, o autor diz que Horikoshi pode dizer que é coincidência, mas são tantas que é impossível, ainda mais para alguém que tem costume de criar nomes desta forma. E o blogueiro vai além.

Ele imagina que o autor de BNHA pode ter buscado as referências, mas previu um veto da parte da editora. Por isso, ele teria usado a referência ao mangaká como um jeito de esconder, ao mesmo tempo que mantinha. Seus motivos podem ser vários, há quem diga que ele até teve a boa intenção de apontar o dedo para esse passado sujo de seu país. Outros, que ele tem um histórico de mal gosto. Quem sabe? Afinal, acho que este é um assunto que ele não deve tocar mais, tamanha a repercussão.

 

O que eu acho? A Shonen Jump tem uma postura padrão com estes casos. Seja com a polêmica dos brincos em Kimetsu no Yaiba ou com qualquer outro caso em que o autor diz que não fez de propósito, a revista o defende e protege, tomando a frente nas respostas. E foi isso que ela fez com Horikoshi em um primeiro momento.

Tweet de Horikoshi, comentando o caso. Em Japonês.

Tweet da Jump, em um primeiro momento, pedindo desculpa. Em japonês.

Porém, o cancelamento do título em plataformas digitais da China e Coreia, dois dos maiores mercados para mangás, fez a revista se pronunciar novamente, e o tom parece ser levemente diferente. Até mesmo Horikoshi se pronunciou pedindo desculpas de coração, algo que se diz socialmente no Japão para dizer que se arrepende do que fez, o que ele evitou em um primeiro momento, ficando em algo como “foi mal se te ofendeu, não foi minha intenção”.

Link para a carta oficial de desculpas, em diversas línguas.

Pensando em Shonen Jump, eu imagino que houve um peso muito maior do que apenas o cancelamento. Acho que ao ser pego com as calças na mão, o autor acabou admitindo para os editores, e o bicho pegou.

Mas é claro que a medida a ser tomada vai ser apagar o fogo e tentar controlar o dano. Apesar disso, duvido que vá haver alguma punição mais grave. Acho que vai entrar pro rol de bizarrice da revista, nunca mais vão tocar no assunto e fica por isso.

Não vamos ter muitas informações oficiais, portanto ficaremos no campo das suposições. Mas acredito que ficou claro o porquê de Horikoshi estar errado. Mesmo na melhor hipótese, ele está derrapando na referência.

Escritor, editor, apaixonado por quadrinhos e cultura pop em geral.