Entrevista com Kihachiro Uemura no Rio Matsuri

A 3ª edição do evento  Rio Matsuri, no Rio de Janeiro, aconteceu nos dias 17 a 20 de janeiro. É um dos maiores festivais culturais japoneses disponíveis aqui no Rio e foi bem divertido. Vocês poderão ter uma ideia de tudo que rolou quando eu lançar a minha experiência no evento na coluna Pitacos do Vilson, mas para agora aqui no TokuTudo, trago para vocês como foi o Painel com Kihachiro Uemura, conhecido por ter feito o personagem Dai em Choushinsei Flashman!

O painel foi mediado pelo Anderson “Haterman” Abraços do canal Mais Geek, Ricardo Cruz, cantor, membro do JAM Project e dono do curso NihonGO que estava também servindo como intérprete e a Chibi Martins estava como apresentadora.

Haterman, Ricardo, Uemura e Chibi durante o painel do Rio Matsuri

Anderson Abraços: Como foi a audição para o papel de Dai em Flashman?

Kihachiro Uemura: Primeiramente, teve uma sessão de fotografia, fui escolhido pela minha foto. Passando por isso, teve uma entrevista. Nessa época foram umas 300 pessoas, mais ou menos. A terceira etapa eram falas, se eu sabia ler bem os textos dos roteiros. Nessa etapa só tinham 80 pessoas. Na quarta etapa era ação! Eu tinha que performar cenas de ação. A quinta etapa já era a junção de todas as anteriores.

Ricardo Cruz: Essa cena da última etapa já era alguma de Flashman?

Ueruma: Não, era uma cena de outro programa que eles escolheram aleatoriamente, que envolvia ação e texto. Um tempo depois eu soube que passei na audição, mas não sabia ainda que tinha passado para ser exatamente o Green Flash. Eu fiz esse processo de audição junto com o Hirose Takumi, o Leh Wanda, um dos inimigos principais da série e ele também não sabia que no final das contas ele se tornaria o Leh Wanda. Como nós éramos amigos e recebemos os envelopes para revelar quais seriam os personagens que faríamos, viramos um para o outro e falamos “ei Hirose, talvez você seja o vermelho! Será que eu vou ser o preto ou o azul?”. Logo descobri que eu seria o Green e o Hirose falou “mas como assim eu vou ser o Leh Wanda? Vou ser o Vilão?” Ele queria muito ser um dos heróis. (Risos)

Hirose Takumi como Leh Wanda em Flashman

Anderson: Ele falou um pouquinho de ação e é uma parte do Tokusatsu que a gente sempre tem muita curiosidade. Quem fazia as cenas de luta? Você mesmo fazia as próprias cenas de luta? Você fazia parte do Japan Action Club? (Também conhecido como Japan Action Enterprise, é uma firma japonesa de talentos e entretenimento especializada em atores de ação e elite de dublês).

Uemura: Até mesmo antes de Flashman eu já curtia e treinava ação, e durante o processo de gravação de Flashman eu recebi um treinamento especial do Japan Action Club. Todas as minhas cenas que envolviam mais ação eu mesmo que fazia.

Anderson: É muito comum no Japão ser feito esses especiais de Ten Years After ou alguns anos depois das séries os elencos acabarem se reunindo, e ano que vem (2021) Flashman faz 35 anos, vocês têm algum plano de reunião do elenco de Flashman?

Uemura: Quando a série fez 30 anos, reunimos o elenco todo. Naquela época juntamos tantos os heróis e vilões, produção e dublês e com os 35 anos a gente está pensando em algo também. E que tal a gente fazer aqui no Brasil também uma versão desses 35 anos? (Risos)

(Eu e o resto da plateia gritamos de empolgação)

Ricardo: Com quais dos membros você mantém algum contato ainda?

Uermura: Desde a época que a série terminou eu continuo sendo amigo e me encontrando especialmente com o vermelho (Touta Tarumi) e o azul (Yasuhiro Ishiwata). Umas duas ou três vezes por ano a gente sai para tomar um sakê e comer alguma coisa.

Touta Tarumi
Yasuhiro Ishiwata

Anderson: Dentro de Flashman, tem algum momento que você acha mais especial, uma cena, o momento mais legal, que você pode dizer “esse é o que eu mais gosto”?

Uemura: O episódio da Sumire, que o Dai voltou para Terra e ela poderia ser a irmã mais nova dele. Mas como Flashman, do primeiro episódio até o último, a gente pode considerar que é uma obra única, durante a filmagem do último episódio a galera chorava tanto que foi até um pouco difícil de filmar, pois era um final muito emotivo já que eles tinham que deixar a Terra.

Ricardo: Perguntei para ele (Uemura) sobre o ator Koji Shimizu que fez o Doctor Keflen no último episódio de Flashman, que tem uma cena bastante forte e ele é um ator de teatro de uma grandeza espetacular.

Uemura: Foi como se um deus da atuação descesse, feito o Doctor Keflen e subido de volta. Ele é um cara muito respeitado.

Koji Shimizu como Doctor Keflen

Ricardo: Ele também havia me contado um caso sobre o último episódio que ele vai compartilhar conosco agora.

Anderson: Só complementando, óbvio que ele vai contar tudo certinho, mas a Sayoko Hagiwara (Dyna Pink em Dynaman e Ley Nefel em Flashman, que esteve há pouco tempo no Brasil no evento Ressaca Friends 2019) contou para a gente também sobre a tristeza que foi o último episódio e o relacionamento dela com o Keflen, que foi super triste a parte final da série e foi super emotivo e bem difícil mesmo.

Sayoko Hagiwara como Ley Nefel

Uemura: Tem uma cena no último episódio em que os Flashman invadem a base para derrotar o Doctor Keflen e os vilões que sobraram, e o Shimizu contou que quando viu a figura dos cinco Flashman lá dentro, naquele cenário, naquela escuridão, se aproximando dele, ele sentiu mesmo que seria morto, ele sentiu uma pressão muito grande, sentiu um impacto muito grande perante a energia no set. Imagino que isso se deve ao fato de os dublês, as pessoas vestidas de Flashman, interpretaram com corpo e alma aquela cena, um momento tão decisivo na série e a qualidade do trabalho dessas pessoas, da interpretação.

Chibi Martins: Agora eu queria lembrar outro momento, mais ou menos em 2012, saiu uma notícia mundial que ele (Uemura) ajudou a salvar uma pessoa no trem no Japão e aí o herói virou o herói! Eu queria saber quais valores Flashman ensinou para a vida pessoal dele?

Uemura: Tinha um jovem caído na estação de Akihabara, que é um lugar bem famoso. Ele não tinha pulsação e nem respiração, estava sem nada. Eu perguntei “você está bem?” e tive até que fazer respiração boca a boca na vítima. Tinha muitas pessoas e perguntei se tinha alguém chamando a ambulância e fiquei lá cuidando dele. Eu pedi para trazerem os primeiros socorros e me certifiquei de que toda a operação para salvar ele estava funcionando. Aí quando o pessoal chegou com os primeiros socorros e o desfibrilador, me pediram para apertar o botão e deu aquele choque para reanimar a vítima. Repetimos isso umas três ou quatro vezes. Finalmente chegou a ambulância e ele foi revivido.

Ricardo: Uma salva de palmas, pois ele salvou a vida de uma pessoa assim como o Green Flash faria!

Anderson: Um herói na vida real também.

Uemura: Obrigado! (Ele realmente disse obrigado, em português mesmo).

Anderson: E falando de tempos mais atuais, para Flashman, ele participou de Gokaiger como o Dai, a gente ouviu uns boatos por aí que ele assistia a série junto com a filha dele. Como é para ele passar esse legado para uma nova geração agora, ele ali como pai mostrando o trabalho dele para a filha?

Uemura: Nunca precisei esconder as coisas que eu fiz. Eu mostro muito para a minha filha tudo o que eu fiz, seja Flashman, Fiveman ou outros filmes que eu participei e também peças de teatro que eu fiz, mostro isso para ela sempre, sempre mostrei. Ela gostava muito de Gokaiger e falai para ela assim “sabia que o papai vai aparecer agora?”, ela falou “vai mesmo?”, “Sim! Senta ai, vamos assistir juntos” e foi muito legal ver com ela a minha aparição em tempo real na TV. Ela disse “é verdade! É o papai!” (risos)

Anderson: Vamos falar de Fiveman um pouquinho?

Uemura: Claro! Por favor.

Chikyu Sentai Fiveman

Anderson: Como foi para você deixar de interpretar um herói que queria salvar a Terra para interpretar um vilão que queria conquistá-la? (Só lembrando que Uemura interpretou o vilão Chevalier. Fiveman foi a série Super Sentai de 1990).

Uemura: A mudança de um herói para um vilão, um “dark hero”, foi uma delícia. (risos) Era muito gostoso ficar pensando “de que maneira eu vou expressar, eu vou buscar maneiras de fazer os Fiveman sofrerem, de judiar deles?” De que maneira vou interpretar isso? Ficar criando isso. Era muito gostoso. Mas tudo no papel tá, gente? Era o personagem! Eu era muito amigo do pessoal todo, do elenco e saíamos muito para tomar um sakê depois e nos divertíamos muito, mas a diferença em relação à Flashman é que generais inimigos falam muito, o texto é longo. Pois como no Flashman éramos cinco, o texto geral era dividido entre nós, cada um falava um trecho. Então tem isso, o vilão tem que falar tudo sozinho, então dentro de mim interpretar um vilão é um pouco difícil porque tem que falar muito, mas é uma delícia porque é legal fazer vilão.

Captain Chevalier

Anderson: Legal! E pegando um pouco em cima do que ele falou de interpretação e tudo mais, o Capitão Chevalier tem uma canção na primeira aparição dele muito impressionante, ele chega à Terra cantando uma música chamada “O Choro Infernal”. Será que você consegue dar uma palinha pra gente?

Uemura: Eu ouvi (dos produtores) que eu ia chegar cantando e no começo tinha duas músicas que estavam escolhendo, mais uma que uma menina que cantava. Estava para escolher qual das duas músicas iria ser e no final das contas foi aquela que eu cantei mesmo. Entre todos os personagens vilões até hoje o que apareceu pela primeira vez cantando fui eu, tenho isso para mim. Então… Vamos cantar!

Ele realmente levantou e cantou, é um trecho bem curtinho, poucos segundos e junto ele refez uma fala. Infelizmente no momento não tinha como eu gravar em vídeo, me desculpem, mas garanto que foi bem legal. Deixo vocês então com esse vídeo com um trecho da música do Uemura (e de bônus uma das melhores cenas de Fiveman inteiro, vejam Fiveman!)

https://www.youtube.com/watch?v=Vb-nici1SWM

Anderson: Vamos continuar em Fiveman ou vocês querem continuar seguindo pela carreira dele?

Ricardo: Eu tava querendo falar da parte de dublagem da carreira dele. Ele fez One Piece.

Anderson: Essa foi a grande surpresa para a gente enquanto pesquisava a carreira dele, descobrimos que ele é também dublador e ele fez One Piece, o Chaka na fase de Alabasta entre 2001 e 2002, depois ele voltou em 2005 e para o filme de Alabasta, que está disponível na Crunchyroll, em 2007. Ele podia contar para gente um pouquinho de como foi chegar até o papel para dublar o Chaka.

Chaka, personagem que Uemura dublou em One Piece

Uemura: Realmente eu fiz o Chaka na parte de Alabasta e eu fui chamado diretamente pelo diretor da série (Takahiro Imamura), pois eu já tinha trabalhado com ele na dublagem de outro anime e ele falou “você não tá a fim de fazer o Chaka?” e foi muito legal porque eu não precisei passar pelo processo de audição e fui chamado diretamente pelo diretor de One Piece.

Ricardo: Olha que moral!

Uemura: Essa parte que fiz para One Piece durou mais ou menos um ano e meio no Japão. Mas na história se passa coisa de uma semana, mas demorou um ano e meio para passar! (risos) Conseguiram expandir uma semana de acontecimentos em um ano e meio de exibição. O Oda, autor de One Piece, é mesmo uma pessoa realmente incrível.

Ricardo: Você está em dia com One Piece?

Uemura: (risos) Não! É muito longo! Mas os filmes eu assisto.

Chibi: Depois que Dragon Ball fez cinco minutos virar duas semanas, a gente tá até acostumado.

Anderson: E Alabasta é considerada pela maioria dos fãs de One Piece uma das melhores partes do anime.

Chibi: Agora deixando One Piece de lado, eu queria saber o seguinte, como você se sente depois de todo esse tempo em que começou fazendo Flashman e depois de todos esses anos está hoje sendo um dos primeiros dos Flashman a estar no Brasil, pois nunca antes veio os atores principais, como se sente de estar hoje depois de tantos anos recebendo todo esse carinho e esse amor dos fãs?

Uemura: Eu vim de um lugar muito, muito distante para encontrar vocês e agora lá no Japão a gente está no meio do inverno e quando eu cheguei aqui no Brasil eu tomei um susto quando vi o sol brilhando e a paisagem maravilhosa, totalmente diferente de como é o Japão, e assim que eu cheguei ao evento eu senti realmente essa conexão, essa linha que liga todo mundo através da série Flashman e senti isso na pele, que mesmo estando tão distante no Japão, através dessa produção existe essa conexão que liga a todos nós e me senti muito emocionado com essa energia. Eu estou muito agradecido a todos vocês por justamente existir essa conexão com um programa que eu fiz há tantos anos atrás, eu consegui fazer essa viagem para o Brasil e estar aqui e agora com todos vocês.

Anderson: Posso fazer uma última pergunta antes de abrir para a plateia?

Chibi: Claro, vai lá!

Anderson: Aquela pergunta básica! Tem alguma franquia que você gostaria de atuar e/ou participar?

Uemura: Eu adoraria fazer um retorno de Flashman, mas eu adoraria também fazer um Kamen Rider, no estilo daqueles antigos, que são um pouco mais terror, um pouco mais macabro.

Shin Kamen Rider de 1992

A partir daqui são as perguntas do pessoal que estava na plateia.

Pergunta: Eu gostaria de dizer que quando eu era criança e brincava de Flashman, você era o meu favorito! Eu gostaria de saber quando ele descobriu ou como chegou a ele que era tão querido no Brasil?

Uemura: Foi através do Facebook que eu descobri. Coisa de uns seis anos atrás eu descobri o tamanho da coisa. E eu ouvi bastante também do Akira Kuchida (famoso cantor de vários temas de Tokusatsu e animes, já veio diversas vezes ao Brasil) de que o Brasil estava cheio de fãs muito fervorosos de Tokusatsu.

Akira Kushida, um senhor de 73 anos com a disposição de uma adolescente de 16

Pergunta: Eu gostaria de saber qual é a série favorita dele, sem serem as que ele participou?

Uemura: Eu gostei muito de Shinkenger (série Super Sentai de 2009 e mostra que Uemura é um homem de extremo bom gosto).

Ele ficou tão animado com a resposta que até puxou um trechinho da música de abertura de Shinkenger e a galera cantou junto. Para não deixar os leitores de fora, fica aqui o vídeo com a OP, pois Shinkenger merece ser exaltado sempre que possível.

https://www.youtube.com/watch?v=GntVpE9K0XM

Pergunta: Se te convidassem para gravar um Super Sentai como o mestre de uma nova geração, você aceitaria?

Uemura: Eu diria muito obrigado pelo convite e iria direto para o set filmar.

Pergunta: Durante as filmagens de uma sequência em Shizuoka, logo após a parte em que o Flash King é destruído, em uma das cenas você tem que pular de uma ponte, é você mesmo que fazia essas cenas?

Uemura: O pessoal do Japan Action Club estava o tempo inteiro ao redor garantindo a segurança para essa cena e fui eu mesmo que fiz, tive que pular daquela ponte e cair no mar. Todos conseguiam fazer com muita tranquilidade porque o pessoal do JAC estava ali e tive toda a segurança para isso acontecer. Sobre Shizuoka, nós tivemos muitas idas para lá e o que posso dizer a respeito disso é que o time todo era muito unido e sempre que íamos para essas locações que eram em áreas mais afastadas, para episódios específicos, era como uma viagem e parecia até uma coisa meio turística, o pessoal se reunia para beber e comer, bater papo e desculpa dizer isso, mas muitas vezes essas partes eram muito mais divertidas do que gravar a série em si. (Risos)

A última pergunta foi feita pelo Clayton, também do canal Mais Geek: O pessoal que me acompanha lá no programa sabe que eu tenho uma birra com Flashman, não é que eu não goste, mas reassistindo depois de algum tempo eu percebi que a tecnologia usada pelos Flashman não é muito boa. Quebra o robô, quebra as motos, quebra os visores, quebra tudo! Então, era a tecnologia deles que era muito ruim ou os vilões que eram muito fortes e quebravam tudo mesmo?

Uemura: Olha… (disse entre risadas) eu não sei te responder com precisão sobre a qualidade da tecnologia do Planeta Flash, mas realmente é uma coisa para se pensar. O Flash King quebrou, mas logo estava concertado, então eles têm essa rapidez no concerto das coisas. E graças à tecnologia do Planeta Flash ser tão boa eu pude estar no Brasil agora.

E antes de encerrar o painel, Uemura nos agraciou com uma surpresa bem legal. Ele, junto comigo e com toda a plateia, cantamos fervorosamente o tema de abertura de Flashman.

https://www.youtube.com/watch?v=xHIdzON6EBI

Flashman está atualmente disponível para assistir oficialmente no canal do Youtube da Sato Company e no serviço de streaming da Amazon Prime.

Além da ilustríssima presença do Uemura, o Rio Matsuri também trouxe o Power Ranger Preto original! Walter E. Jones! Infelizmente, eu não pude ir no dia do painel em que ele também estaria presente, MAS como vocês sabem eu faço parte do Podcast Henshin Rio e lá tem uma entrevista exclusiva com ele, além de ter também uma entrevista com o Uemura e muito mais conteúdo semanal de Tokustasu!

Esse foi mais um #TokuTudo! E lembrando que na minha coluna #PitacosdoVilson vou estar comentando tudo o que vi e fiz no Rio Matsuri!

Revisão: Karin Cavalcante