Afinal, qual é a real importância do mercado oficial do ocidente para indústria japonesa de animes?

Os últimos dias no fandom brasileiro de animes ficaram marcados por uma grande discussão. De acordo com publicações realizadas em páginas do Facebook, o site Crunchyroll – responsável pelo streaming oficial de centenas de animes, filmes e live actions – estaria buscando garantir seu direito de detentor de transmissão no país através do redirecionamento de sites que fazem a distribuição ilegal de animes para sua própria página. Páginas como Anime CX e Animes Telecine foram algumas das que publicaram textos expondo a situação. É possível verificar que a Animes One HD hoje redireciona para o site com conteúdo legalizado. Já a Punch Subs, uma das maiores do país, apresenta a seguinte mensagem: “Voltaremos daqui uns dias sem o conteudo (sic) da CrunchyRoll”.

Post na página de Facebook da Animes Telecine

Em uma reação esperada, os usuários dessas páginas rapidamente se mostraram enfurecidos com o movimento, apontando uma série de argumentos que buscavam não apenas justificar a ação dos sites atingidos, mas principalmente diminuir a importância da Crunchyroll – e, por consequência, dos serviços ocidentais de streaming que oferecem animes de forma legal – dentro da indústria de animação japonesa em prol de uma atenuação ética e prática das ações piratas.

O objetivo desse texto não será discutir todos os argumentos utilizados. Isso você pode encontrar em análises da situação feitas por sites como o Mais de Oito Mil (Aqui e Aqui) e em canais do Youtube como o da LBTV (Aqui) e da Gabi Xavier (Aqui).

Serei mais pragmático: Focarei em dinheiro.

Ser fã de animes e mangas, principalmente no Brasil, é fazer parte de um grupo de nicho. Mesmo com o avanço do conhecimento popular acerca das animações japonesas – especialmente em razão de séries como Naruto, Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e The Seven Deadly Sins – ainda não é possível dizer que esse produto cultural iguala-se a outros realmente de massa em nosso país.

A construção do otaku em nosso país foi sendo feita ao longo das últimas décadas sem grande influência dos grandes grupos midiáticos nacionais, sedimentando não apenas gostos particulares, mas comportamentos, linguagens e, principalmente, mitos. Do que forma um verdadeiro otaku aos debates sobre as melhores -e muitas vezes obrigatórias – obras, conhecimentos são produzidos e compartilhados dentro desse grupo, muitas vezes praticamente como leis. Dentre elas, uma fortaleceu-se de maneira a transformar-se em guia de futurologia: o que importa no sucesso de um anime é quanto ele vende de DVDs e BDs no Japão. Ao lado dessa, quase que como um complemento, espalhou-se a ideia de que o mercado ocidental tem importância praticamente nula para as produtoras japonesas.

De fato é impossível negar que essa lógica foi verídica por muito tempo. Conforme podemos verificar no gráfico abaixo (clique para ampliar) feito pela Associação Japonesa de Animações (AJA, 2018) que detalha todas as fontes de renda dos estúdios comerciais de animação no Japão, os três eixos que sustentaram a indústria durante anos foram a televisão (rosa), o merchandising (verde) e as mídias físicas (lilás).

Gráfico 1 – Tendências no Mercado Japonês de Animação – Estúdios de Animação – De 2002 a 2017

No entanto, é fácil perceber que a indústria sofreu uma forte diminuição, alcançando sua menor marca do período estudado pela Associação em 2009. Segundo Davis, pesquisador da Universidade da Carolina do Sul (2018, tradução nossa), “esse período também foi caracterizado pela pirataria desenfreada, algo que os serviços de streaming foram posteriormente capazes de contornar através de planos com preços razoáveis” ​​e lançamentos na mesma data do original.

Percebe-se que após esse forte abalo em 2009, os números de mídia física nunca mais se recuperaram, diminuindo progressivamente ano após ano, chegando a uma queda de 15,1% entre 2015 e 2016 como podemos verificar abaixo (AJA, 2018):

Gráfico 2 – Venda de mídias físicas de contenção de produção áudio-visual

Ao mesmo tempo que essa parte do mercado entrava em declínio, outra subia sua participação, ganhando cada vez mais relevância não apenas como fonte de investimentos e lucros, mas como influenciadora das próprias produções. O mercado se recuperava de maneira geral até chegar ao seu recorde em 2017 com um valor total de $19.1 bilhões e grande parte desse resultado se deu pelo avanço da participação das vendas internacionais (bege), saindo de pouco mais de 15 bilhões de ienes em 2009 para 54,2 bilhões em 2017 – um crescimento gigantesco de 354% no período.

Não há dúvidas no Japão: sem o mercado internacional a indústria não se sustentaria atualmente. Ou nas palavras da própria Associação Japonesa de Animações (2017): “Pode-se dizer que as vendas no exterior suportaram o crescimento geral da indústria”.

Gráfico 3 – Número de séries de TV (em verde as novas e em laranja as que continuaram do anterior)

Nunca se produziu e exibiu tanto anime quanto atualmente. Ignorar a participação e a importância dos mercados internacionais nesse crescimento é ingênuo para dizer o mínimo. Dentro desse contexto, regiões como a própria Ásia tem papel central – especialmente pelos volumosos investimentos chineses -, mas o avanço de plataformas como a Netflix, Amazon e em menor grau (mas ainda relevante) o Crunchyroll garante que a roda continua girando.

Utilizando as palavras de um produtor japonês citado em um artigo científico do antropólogo Ryotaro Mihara da Universidade de Londres: “poderia ser dito que o streaming é a tendência atual dominante na expansão dos negócios com no exterior” (2018, p. 17). Além disso, o mesmo autor salienta que “A AJA (2016) sugere que o investimento de companhias de streaming do exterior […] está aproximando-se da possibilidade de exceder o dos japoneses. Eles também sugerem que o “próximo modelo de negócios” de anime pode estar centrado em tal transmissão na Internet (MIHARA, 2018, p. 19).

Figura 1 – Estrutura básica da produção de uma animação (Fonte no link da própria imagem)

Produzir um anime não é uma tarefa simples. Muito menos barata. Ainda que a vontade de consumir uma obra seja grande, é sempre preciso reconhecer a necessidade de recompensar financeiramente aqueles envolvidos em sua construção. Entender o modelo de negócio não é obrigação de nenhum consumidor, mas com esse conhecimento é possível perceber a repercussão que a pirataria pode ter em larga escala. É óbvio que, como empresas, as distribuidoras de animes via streaming no Brasil irão errar. É justamente na continuidade que essas falhas poderão ser corrigidas para oferecer uma experiência ainda melhor ao consumidor.

Há muitos anos escrevi no Gyabbo! o post “O “de fã para fã” criou e matou a possibilidade de um mercado de animes no Brasil“. Nesse texto fiz um resgate histórico dessas produções em nosso país e apontei como as falhas das empresas em explorar esse nicho e a perpetuação da pirataria como garantia de acesso impediram que tivéssemos um mercado forte no Brasil. Naquela época eu errei em não conseguir prever o streaming como uma nova chance. Hoje temos dezenas de animes vindo de forma oficial e em português. É muito mais do que qualquer fã poderia sonhar anos atrás. Mas ainda temos muito para expandir, não deixe que o “de fã para fã” mate essa nova oportunidade.

Fontes principais:

Criador e editor-chefe do Gyabbo!, mora em Manaus no Amazonas e é formado em Psicologia na Universidade Federal do Amazonas.