E quando os personagens não fazem o que mandamos?

(Atenção: o texto a seguir possui spoilers do episódio 14 de Darling in the Franxx – continue lendo por sua conta e risco)

Criado pelo Studio Trigger (um estúdio de animação criado por um grupo dissidente da Gainax), Darling in the Franxx é mais um anime sobre jovens adolescentes que precisam proteger a humanidade contra monstros gigantes usando robôs igualmente gigantes que poderia passar batido entre tantos outros se a obra não viesse de um estúdio de relativo renome e também não fosse recheada de metáforas (algumas muito óbvias, outras nem tanto) sobre sexo, principamente a descoberta do sexo. Só que recentemente o anime gerou uma controvérsia forte na internet, com um episódio que deixou diversos fãs irritados a ponto de até mesmo enviarem ameaças de morte para os responsáveis pela produção do anime.

E como exatamente isso foi possível? Como um anime com uma história facilmente esquecível pôde gerar tamanha guerra entre fãs com apenas um episódio? Para entender, é preciso ir um pouco além das metáforas sobre sexo (Oh! Pilotar o robô é como sexo, ambos precisam gostar para dar certo!) e mergulhar um pouco mais a fundo no roteiro e desenvolvimento de Darling in the Franxx.

O que começou como uma obra bastante apelativa (mesmo para os padrões japoneses) demorou um pouco para engrenar e apresentar pelo menos parte do universo em que se passa a história, mas aos poucos vamos aprendendo algumas particularidades: as crianças não parecem “nascer”, mas sim são criadas e treinadas desde cedo com o único propósito de atingirem a adolescência e pilotarem os FranXX, robôs gigantes feitos para combater um tipo de monstro de vários formatos e tamanhos diferentes, mas geralmente chamados de “Klaxossauros“. Esses adolescentes não possuem exatamente um nome, ou até mesmo personalidades distintas, já que são sempre chamados pelos adultos por números que normalmente vão de 0 a 100. Quanto mais alto o número, mais o jovem é capaz de pilotar o robô com perfeição.

Nada sobre o mundo é ensinado a essas crianças, além do mínimo necessário: há uma entidade chamada “Papa” a quem elas devem total respeito, elas são importantes para a sobrevivência dos adultos e da sociedade, e basicamente é isso. Os adultos mostrados na série fazem muito pouco para ensinar esses jovens a como viver em sociedade, ou mesmo sobre como se relacionar com outras pessoas. Conceitos como contato íntimo ou sexo são completamente ignorados pelos jovens.

(Mais adiante, descobrimos mais um ponto importante: todos os adultos parecem viver em uma sociedade estéril e carente de emoção. Relações românticas não existem mais, não se espera que as crianças se tornem adultas, e mesmo a presença delas próximas dos adultos parece deixá-los doentes)

Só que o grupo de adolescentes que acompanhamos no anime é peculiar: Hiro, o protagonista da história, é diferente dos demais garotos e desde cedo demonstrou ser mais curioso e independente. Hiro decide dar nomes para seus amigos no orfanato, e a partir do momento em que eles recebem um nome próprio (e não apenas um número) eles vão adquirindo personalidade própria e relações especiais entre si. Na verdade, o grupo é especial até mesmo nos robôs: em um certo episódio é mostrado que os FranXXs das demais equipes de adolescentes seguem um certo modelo padrão, enquanto o grupo de amigos recebe robôs diferentes entre si, modelos de testes.

Essa particularidade no grupo de Hiro (e a presença de uma nova garota no grupo, uma estranha garota com presas e chifres, que responde pelo nome de Zero-Dois) faz com que entre eles floresçam relações distintas de amizade e até mesmo amor, com diversos corações partidos, brigas e até mesmo triângulos amorosos. Um desses triângulos é o causador da mais recente controvérsia em torno do anime: Ichigo, uma garota que sempre foi apaixonada por Hiro e que nos primeiros episódios parecia ter se resignado e aceitado o romance entre Hiro e Zero-Dois, decide agir de forma egoísta e não só afasta fisicamente os dois, como também declara seu amor por Hiro e o beija, arruinando assim o shipping de muitos fãs mundo afora.

Há ainda muito o que falar sobre Darling in the Franxx, suas metáforas e os pequenos detalhes soltos aqui e ali, ou até mesmo sobre o episódio 14 em si, mas o resumo acima já é mais do que suficiente para estabelecer:

Ichigo não fez nada de errado.

Pelo menos, não dentro do que se espera da personagem. Ou da história em si. Desde o começo, Ichigo não só foi obrigada a ver o garoto por quem era apaixonada se interessar por outra garota, como também se viu tendo que lidar com o posto de líder do grupo de adolescentes durante as lutas com os robôs, definindo estratégias, tomando decisões e dando ordens em campo. Ichigo viu o mal que Zero-Dois já havia causado em outras pessoas, assim como também foi alertada por jovens de outros grupos dos riscos que Hiro corria, e precisava tomar uma decisão, assim como já havia tomado diversas decisões durante a série. Embora pareça uma atitude egoísta separar Hiro e Zero-Dois, foi uma decisão baseada no crescimento da personagem, tanto para o bem quanto para o mal. Cabe lembrar, são adolescentes ali, que finalmente estão aprendendo as dificuldades da vida adulta (que pode nunca vir a acontecer, já que eles provavelmente irão morrer pilotando os robôs). Ichigo fez o que achava que precisava fazer, mesmo que isso machucasse as pessoas à sua volta. E diversos fãs.

E ao machucar alguns fãs, Darling in the Franxx chegou bem perto (mas ainda não alcançou, na minha opinião) a genialidade. Reparem: a sociedade de Darling in the Franxx não espera que adolescentes sintam coisas, perguntem coisas, ou até mesmo pensem diferente. Nesse universo, crianças são apenas ferramentas criadas para manter a sociedade como está, e devem se resignar em seu papel de ferramentas.

Não é muito complicado fazer uma relação direta com a sociedade japonesa aqui, ou até mesmo com a nossa, em um nível bem menor. Qualquer sinal de individualidade é visto de forma negativa, e aos mais jovens cabe apenas o papel de fazer parte de uma engrenagem e manter o status quo, proteger o universo dos adultos. E ao fazer com que Ichigo irrite os fãs, os roteiristas fazem a metáfora perfeita: os adultos daquele universo somos nós, presos em uma vida sem emoção, pré-definida.

Nós, os fãs, incapazes de aceitar que personagens possam ser independentes e livres de papéis pré-estabelecidos em seus respectivos gêneros. Ichigo deveria ser a garota apaixonada pelo herói e que o apóia em absolutamente tudo, mas que abre mão de seu amor para ver o protagonista feliz com outra mulher. Já vimos centenas e centenas de personagens assim, não somente em obras japonesas, mas de forma mais comum nelas. Ela deveria agir de uma determinada forma, presa em seu papel. É o que os fãs queriam. Mas ela não fez o que era seu papel. E isso enfurece os fãs, que não permitem que os personagens saiam de seus papéis ou tenham um mínimo de individualidade.

Pode até não ter sido o objetivo real da equipe que produziu Darling in the Franxx, mas a mensagem está lá, escondida entre metáforas estúpidas sobre sexo: negamos individualidade até mesmo de personagens fictícios, desde que seja para nosso bem-estar. Podemos até mesmo ameaçar alguém de morte, se ele ousar tirar o personagem de seu papel pré-establecido por, bem, nós. 

Não é difícil notar esse mesmo comportamento em outras obras. Recentemente Star Wars VIII também recebeu críticas por mostrar personagens tomando atitudes diferentes do que os fãs esperavam que eles tomassem. Desde boicotes à obra até a exigências de que o filme fosse ignorado pela cronologia do universo de Guerra nas Estrelas, os fãs deixaram claro que não eram capazes de aceitar que os personagens fossem livres.

Talvez haja aí um ponto importante: personagens podem e devem nos surpreender. Devem ir contra o que acreditamos que eles farão em nossas inúmeras discussões pela internet afora. Devem ser livres para poderem nos irritar e nos emocionar. Mesmo que eles só existam dentro da cabeça de seus autores, devem ser independentes de nossos desejos e de seus papéis pré-definidos por nós mesmos.

Ou o fandom corre o risco de se tornar a sociedade estéril dos adultos de Darling in the Franxx.

    Comediante geek e pirata semiprofissional. Cheguei na Internet antes de você nascer. Era tudo mato isso aqui.