Junji Ito Collection e a importância de uma boa adaptação

O anúncio de Junji Ito Collection para a temporada de inverno havia me deixado muito animado, já conhecia o autor pelas obras lançadas no Brasil (como a coletânea “Fragmentos do Horror” da editora Darkside), e a perpectiva de ver algumas de suas histórias animadas parecia ser bem interessante. Mesmo depois de um fraquíssimo primeiro episódio ainda mantive as esperanças, mas depois de assistir todos os episódios e encontrar ali algumas histórias que eu já tinha visto em formato mangá, é necessário dizer: Junji Ito Collection é uma adaptação fiel das obras do mangaká. E justamente por isso Junji Ito Collection falha miseravelmente em adaptar as obras do mangaká para o formato anime.

Confuso? Um pouco, mas fácil de explicar.

Não sou profundo conhecedor do terror oriental, mas do que já li e assisti, é possível notar alguns padrões e diferenças no terror popular no ocidente. Por exemplo, no ocidente o sobrenatural ocorre por algo que o protagonista ou alguém próximo a ele fez de errado. Um atropelamento seguido de fuga. Mudar-se para uma casa assombrada. Enterrar o cachorrinho recém-falecido em um cemitério amaldiçoado, e por aí vai. O sobrenatural no ocidente raramente se importa com os vivos, eles só não querem ser incomodados, e reagem com violência caso isso ocorra. Já no oriente o terror está lá, sempre esteve lá, e não se importa de verdade com as pessoas a sua volta. O protagonista no terror oriental normalmente é um sujeito que deu um azar muito grande, e só.

Outra diferença comum: No terror ocidental, o mal que ataca os personagens é algo que pode ser combatido, possui fraquezas, pode de alguma forma ser vencido ou ao menos afastado. Já no oriente o mal está em um outro nível de poder. Ele não pode exatamente ser subjugado, pois é como lidar com uma força malevolente que não pode ser compreendida, vencida ou mesmo evitada.

De uma certa forma (e, mais uma vez, no meu pouco entender sobre o assunto), parte do terror oriental se assemelha às obras de H. P. Lovecraft (ou seria o contrário?). O sujeito comum é impotente contra forças sobrenaturais, não as entende, e corre o risco de enlouquecer se tentar.

Junji Ito não só soube usar muito bem esses conceitos na forma de contar como suas histórias como foi um dos poucos autores a entender a mídia “quadrinhos” e as possibilidade em seu formato para criar terror visual. A distância entre os quadros (ou a inexistência dessa distância), o medo e apreensão que vem de um simples virar de folhas, sem haver uma forma de nós, leitores, sabermos o que há além do último quadro da página, e principalmente, a possibilidade de exibir visualmente o sobrenatural, o inumano. Suas ilustrações são ótimas em mostrar o mundano próximo do grotesco, com uma arte que não poupa detalhes para nos causar desconforto.

Mas tudo isso funciona no mangá. E Junji Ito Collection é uma obra de animação, que possui regras e tempos diferentes para contar uma história, principalmente uma história de suspense ou terror. Ao fazer praticamente um tracing (técnica que consiste em colocar uma folha de papel por cima de um desenho para copiar seus traços) das histórias de Junji Ito (e em alguns episódios um tracing bem mal-feito), a adaptação pode até se mostrar uma adaptação fiel, com os mesmos ângulos, posições de câmera, composição de cena e afins, mas tanto o roteirista quanto o diretor responsáveis pela adaptação erraram ao não considerar que estavam produzindo para outra mídia.

Na verdade, quase me faz parecer que a equipe responsável pela adaptação não entendeu (ou não se preocupou em entender) como as obras de Junji Ito funcionam. Um quadro não é apenas um quadro, uma cena estática não é apenas uma cena estática, e por aí vai. É uma composição de cenas e personagens em cena e o que está em volta do quadro que torna tudo tão assustador. Somente copiar o que já foi produzido não reproduz esse sentimento, na verdade muitas vezes o anula. Na minha opinião, uma boa adaptação deveria levar em conta essa diferença entre as mídias, entender como produzir apreensão e horror numa obra animada, e só então produzir não uma cópia fiel da original, mas sim uma interpretação que funciona na nova mídia e que consiga gerar os mesmos sentimentos do original.

(reparem que isso vale para qualquer gênero, mas no caso de Junji Ito Collection a falha fica mais evidente)

No geral, o que prometia ser um dos animes mais bacanos da temporada passada mostrou-se uma grande decepção e um tributo à incapacidade de entendimento de uma obra e de seu ator. Uma pena.

    Comediante geek e pirata semiprofissional. Cheguei na Internet antes de você nascer. Era tudo mato isso aqui.