O “eu real” e o “eu virtual” de Net-juu no Susume

Quando fiz meu texto de primeiras impressões sobre Net-juu no Susume, minha maior preocupação era com a forma como roteiro trabalharia a separação entre o real e o virtual dos personagens. Afinal, já vimos um sem-número de obras envolvendo jogos online que só arranhavam esse aspecto, ou que ou o jogo ou a vida real eram só um plot device para fazer a história andar. Imaginar que Net-juu seria só mais um anime para ser esquecido não era muito difícil.

Por sorte, mesmo estando no meio da temporada, já posso afirmar que minhas dúvidas sobre esse anime sumiram quase que por completamente. Despontando como o possível melhor anime da temporada, e por mais que seja esquisito falar isso sobre um anime focado em uma mulher de 30 anos viciada em MMORPGs, você deveria estar assistindo Net-Juu. Sério, vá assistir Net-juu no Susume. Agora.

Recovery of an MMO Junkie, na tradução dada pelo Crunchyroll, conta a história de uma mulher (Morioka Moriko) que, cansada do trabalho exaustivo e das longas horas extras, decide largar tudo e virar uma NEET, sem trabalho e sem responsabilidades maiores além de tomar uma cerveja e curtir jogos online. É quando ela descobre um MMORPG bastante popular ( Fruits de Mer – claramente basedo em Final Fantasy XIV ) e decide dar uma chance ao jogo criando um personagem masculino que ela considera bonito.

O problema é que o personagem que Moriko criou é bem fraco, e acaba morrendo várias vezes um único chefe do jogo. E quando ela já está perdendo o interesse surge Lily, uma personagem com aparência feminina e que já conhece bastante das mecânicas de Fruits de Mer. Lily se oferece para ser a mentora de Moriko dentro do jogo, e nesse processo ambos acabam se tornando grandes amigos. Ao passar boa parte do tempo com “Lily” dentro do jogo, Moriko se sente feliz como poucas vezes se sentiu.

Apesar disso, Moriko continua como uma NEET fora do jogo, isolada das pessoas e só saindo de casa para comprar alguns mantimentos no mercado local. E é numa dessas idas que ela esbarra em um rapaz que a encanta pelo jeito gentil e bondoso, o que a faz lembrar de Lily…

E é com esse enredo básico mas cheio de nuances que Net-juu no Susume nos encanta. Ao invés de usar jogos e internet apenas como um artifício para disfarçar um romance cheio de clichês (como é o caso de Gamers, da temporada passada – e que ainda pretendo falar sobre) esse anime traz uma abordagem interessante sobre identidade de gênero e também sobre o “eu virtual” que criamos em jogos e redes sociais.

Morioka Moriko, como já foi dito, é uma NEET de 30 anos. Cansada do stress do trabalho ela pede demissão e se isola dentro de casa, deixando de se preocupar com a aparência ou com a forma de se vestir. Mas dentro do jogo ela usa um avatar masculino. E, por vergonha de assumir que é uma mulher já “velha” e desempregada, para seus amigos virtuais ela assume a persona de um homem, jovem e cursando faculdade. Mas conforme determinadas situações na vida “real” vão acontecendo, Moriko precisa pedir ajuda para as únicas pessoas em quem confia (seus companheiros do Fruits de Mer), mas ainda mantendo sua identidade como homem. Os problemas ainda são da Moriko, as situações que exigem conselhos ainda são da Moriko, mas para seus amigos eles estão opinando sobre o que um homem deveria fazer nessas situações. A forma como a protagonista “veste” a sua masculinidade dentro do jogo é um ponto forte do anime

Por outro lado, temos Lily, que (SPOILER) apesar de jogar com uma avatar feminino, é um homem. O que em muitos outros animes seria uma saída fácil para cenas bobas de comédia e uma certa dose de sexismo, em Net-juu é retratado como um peso para o personagem: o avatar feminino e jeito doce e atencioso de Lily atrapalha sua experiência dentro do jogo, já que todos os outros jogadores a vêem como uma mulher e vivem dando em cima dela. Em um episódio do anime, Lily chega a confessar para a Moriko que todo esse assédio online quase a fez desistir de Fruit de Mer, e foi justamente a amizade criada entre os dois que a fez continuar.

Assim, a relação entre Lily e Moriko ganha nuances raras de encontrar em um anime, ou até mesmo em outras obras: Ambos se gostam, mas relutam em assumir qualquer sentimento, já que Moriko trata Lily como uma mulher, e Lily trata Moriko como um homem. Por isso, eles não conseguem levar pra frente a relação.

Além disso, temos também os outros membros do clã dentro do jogo, que também tem seus relacionamentos, seus interesses e seus problemas. Assim, vai se criando essa relação virtual e ao mesmo tempo real, com as coisas ficando cada vez mais complicadas conforme esses dois mundos se entrelaçam. O que nos leva a uma indagação interessante: o quanto de “nós” é apresentado às pessoas com quem conversamos?

No dia a dia, enquanto usamos a internet para passar o tempo, o quanto estamos mostrando às pessoas o nosso “eu real” e o quanto não passa de um personagem, um avatar que escolhemos vestir, com as partes que decidimos ou não mostrar para o mundo? E como podemos criar relações emocionais verdadeiras em situações assim, quando tanto nós quanto nossos contatos online podem muito bem não passar de um embuste, uma “versão melhorada” de uma pessoa real? Quantas vezes não nos apaixonamos por alguém que nunca vimos pessoalmente? Quantas vezes não encontramos amizades mais fortes dentro de um fórum, um grupo de discussão ou um jogo online, do que encontraríamos na escola, no trabalho, ou até na nossa própria família? E, por fim, como fazemos para apresentar nossa real persona quando a relação virtual acaba crescendo a ponto de acabarmos conhecendo pessoalmente nossos amigos?

Tudo isso em episódios de 20 minutos que ao assistir oferecem uma experiência tão prazeirosa que quando acaba você jura não ter se passado nem 5 minutos.

Net-juu no Susume nem de longe possui a melhor animação entre todos os animes da temporada. O roteiro também poderia ser melhor polido em algumas partes. Mas é uma grata surpresa encontrar uma obra como essa, que tem uma mulher na casa dos 30 como protagonista, sem criar um fetiche em torno dela. Que trata jogos como parte essencial da história, e que trata mulheres que gostam de jogos como algo perfeitamente normal. E que mostra um romance tão bem construído entre dois personagens que por mostrarem a melhor versão de si pela internet são apaixonados um pelo outro.

Mesmo que pessoalmente eles mal se conheçam.

    Comediante geek e pirata semiprofissional. Cheguei na Internet antes de você nascer. Era tudo mato isso aqui.