Hokuto no Ken e a importância do contexto

(disclaimer: por razões óbvias, não foi possível fazer um resumo completo de toda a situação sócio-econômica da década de 80 nos parágrafos abaixo. Algumas informações podem estar incompletas, mas foram mantidas assim para que o texto não ficasse ainda maior. A minha sugestão é que você busque mais informações dos eventos citados ao longo do texto caso queira saber mais)

Com o anúncio feito nesse domingo de que a JBC lançaria Hokuto no Ken, iniciou-se um debate interessante em alguns grupos sobre o quão datada a obra seria e, principalmente, como o conteúdo da obra seria recebida nos tempos atuais, considerando o teor sexista da série.

Muito já se falou sobre a década de 1980 esse ano, graças ao filme Bingo, um resumo “quase biográfico” de um palhaço apresentador de programa infantil movido a cocaína e que recheava as manhãs com mulheres semi-nuas e músicas de duplo sentido. Mas o que foi retratado no filme é, honestamente, só a ponta do iceberg. A década de 80 foi muito mais complicada do que parece à primeira vista, e, para entender o cenário em que Hokuto no Ken foi concebido e alguns de seus problemas quando vistos aos olhos atuais, é preciso mergulhar fundo na loucura da época e tentar enxergar o máximo possível do cenário em que a obra foi criada.

Toda a prosperidade econômica e social que atingiu os Estados Unidos (e por consequência o resto do mundo) após a segunda guerra e mesmo a contracultura e o movimento hippie dos anos 1960 começaram a ruir ainda durante a década de 70, com a crise do petróleo, que fez o preço da gasolina e outros derivados dispararem, fechando indústrias, gerando desempregos, e criando uma grande instabilidade econômica em boa parte dos EUA. Para se ter uma idéia, o preço do barril de petróleo entre 1975 e 1980 é um dos mais altos já registrados. Essa mesma crise também aumentou a tensão entre EUA e União Soviética, os dois maiores blocos econômicos da época. O Oriente Médio, principal fonte de petróleo na época, era importante tanto para o bloco capitalista quanto para o comunista. Tentativas de invasão e controle nessa área pelos soviéticos eram comuns, o que tornaria a situação no Ocidente ainda mais crítica caso acontecesse.

Ou seja, além de falta de combustível, ainda tínhamos também o temor cada vez maior entre a população de que uma guerra nuclear aconteceria entre as grandes nações, reduzindo nossa sociedade à barbárie. Soa familiar?

 

Sem combustível, sem energia. Sem energia, sem empregos. Com isso, tanto a classe média quanto os mais pobre eram os que mais sofriam, enquanto os ricos eram os que mais lucravam, muitas vezes explorando seus empregados ao limite. Os grandes centros urbanos nos EUA se tornaram aglomerados de pessoas sem dinheiro, sem emprego, e sem qualquer perspectiva, mas com muito tempo de sobra. Com isso, tornou-se cada vez mais comum o surgimento de gangues que tocavam o terror pela cidade. Basta pegar qualquer filme que retrate Nova Iorque no começo dos anos 80 para ter uma idéia: era uma cidade perigosa, coberta de pixações, com uma polícia ineficaz e o risco de ser assaltado, estuprado ou até morto rondando cada esquina.

 

Ainda como parte de todo esse cenário, nascia o movimento punk, que pregava, entre outras coisas, a liberdade individual e o anti-establishment, ou seja, o fim dos diversos padrões de comportamento que a sociedade forçava em cada indivíduo. Para o movimento punk, a sociedade capitalista e conservadora da época era diretamente responsável pelos problemas da época. Obviamente, a sociedade revidou, associando o visual punk à violência extrema em filmes, séries, quadrinhos e outras mídias. Isso de certa forma também deixa latente o elitismo da época: ou você copia o comportamento dos mais ricos, ou você é um pária.

 

Por fim, a sociedade ainda teria mais uma transformação, envolvendo justamente o homem e sua masculinidade. Com Ronald Reagan assumindo a presidência no começo da década, praticamente fincou-se o último prego no caixão da sociedade que cultuava a paz e o amor, do homem sensível, conectado à espiritualidade e ao seu lado mais feminino. Era necessário mostrar ao mundo que o norte-americano era forte, dominador, e que apesar das dificuldades ainda seria capaz de vencer qualquer guerra. Nascia assim o macho, o supra-sumo da masculinidade e do machismo, musculoso ao extremo, sem emoções e sem fraquezas. O homem que tomava para si a solução de todos os problemas à sua volta e resolvia tudo com violência, protegendo os mais fracos à sua volta. Por mais fracos, entenda-se: mulheres.

Novamente: soa familiar?

Pois é, boa parte dos filmes da época retratavam esse ideal masculino. Stallone, Schwarzenegger, Van Damme e muitos outros estrelavam filmes e mais filmes em que não havia a necessidade real de história ou aprofundamento de personagem: era apenas um homem batendo em dezenas de bandidos, normalmente retratados como a escória da humanidade. Tudo isso para salvar a filha/esposa/namorada/amiga/mulher genérica, que não podia se virar sozinha.

 

Reparem, essa é somente uma parte do cenário ocidental na década de 80, mas poderíamos falar mais: o kungfuxplotation e o blaxploitation, por exemplo, também ditavam muito da cultura pop ocidental. E a cultura ocidental, principalmente a norte-americana, começava a influenciar mais fortemente outras culturas principalmente através do cinema. O que nos leva ao Japão.

Um pouco alheio a toda essa crise entre americanos e soviéticos (mas ainda influenciado por ela) o Japão também tinha sua leva de problemas: jovens desanimados com a tradicional estrutura japonesa se revoltavam, criando um índice sem precedentes de violência juvenil, principalmente dentro das escolas. Gangues motorizadas eram comuns nas cidades, ostentando a bandeira do Japão imperial em suas motos, glorificando um Japão outrora militarizado e expansionista.

Para tentar resolver o problema, o governo recrutou professores auxiliares, que eram liberados para responder a violência com mais violência. A sociedade extremamente nacionalista e tradicional japonesa aplaudia essa violência contra os mais jovens, e no Japão o ideal ocidental de macho foi comprado em níveis extremos, estimulado principalmente por um povo que tradicionalmente via a mulher como servil ao homem, e temia o avanço da independência feminina como algo que poderia abalar tradições centenárias. Assim, em diversas obras, muitas delas voltadas para um público mais jovem, conceitos como coragem, liderança e honra eram associados diretamente ao homem. Tudo isso, novamente, apoiado por uma sociedade tradicionalista, que vivia no começo da década de 80 o ápice de um crescimento econômico nascido no pós-guerra.

Hokuto no Ken nasceu em meio a esse cenário caótico, tendo seu primeiro capítulo lançado em setembro de 1983. Escrito por um Buronson (um apelido e uma corruptela do famoso personagem Charles Bronson) de 36 anos e desenhado por um jovem Tetsuo Hara de 22 anos, o mangá era basicamente uma colagem da cultura pop da época, pegando conceitos que iam dos filmes de Kung Fu chineses aos filmes de ação norte-americanos, além de trazer justamente essa glorificação do homem, do masculino, do controle pela força que já foi discutida anteriormente. Em meio à toda violência visual, Buronson deixava claro nos diálogos de seus personagens que a mulher era quando muito um objeto, um plot device para estimular a história, um troféu para o homem mais forte, indefesa em sua feminilidade, e incapaz de mudar seu destino em meio ao caos de um mundo destruído pela guerra. Sem o homem macho para protegê-la, restava à mulher morrer, ou se tornar uma escrava sexual de algum outro homem com menos valores.

 

Assim, Raoh é o exemplo máximo do macho criado pela cultura pop norte-americana: poderoso, confiante, controlador, ele almeja tudo o que encontra, e o que não pode controlar, destrói. Raoh acredita na paz, mas apenas a paz que ele pode criar a partir dos seus punhos. A paz gerada pelo controle absoluto da população. Para Raoh, uma sociedade que não é controlada está fadada à destruição. Em outro espectro, está Kenshiro, que também simboliza o macho, mas o macho que resolve os problemas. O Messias, o Salvador, o homem que é respeitado por todos pela sua nobreza de espírito, e que com sua retidão moral faz com que todas as mulheres se apaixonem por ele.

Analisando todo o contexto em que Hokuto no Ken foi criado, não é difícil de entender de onde vem essa visão. Estamos falando de dois autores que cresceram em um país em que o sexismo era institucionalizado até poucos anos atrás. Como esperar que uma obra nasça nessa época trazendo idéias que hoje nos parecem tão comuns, se seus autores cresceram em uma sociedade em que as heroínas das séries Super Sentai não podiam ser japonesas de nascença, mas sim estrangeiras, já que não era permitido mostra mulheres japonesas em posição de poder?

E esse talvez seja um dos maiores desafios que encontramos ao ler obras mais antigas: a necessidade de entendermos que muitas vezes as obras não são, necessariamente, racistas, homofóbicas, sexistas ou preconceituosas per se, mas infelizmente refletem o pensamento geral de uma sociedade, e que devemos entender essas obras como uma parte triste da nossa história, não como uma opinião sendo emitida nos tempos atuais. Falando por quem nasceu na década de 80: não há muito presente em HnK que você não encontrasse ligando a TV.

(Há uma pegadinha óbvia nesse argumento: há sim casos de autores que se mostraram ao longo do tempo extremistas em suas opiniões e esse extremismo reflete-se em suas obras, com idéias que fogem e muito do padrão da época. Nesse caso, não há contexto histórico que justifique o que o autor tenta passar e suas obras devem sim, ser julgadas com mais afinco)

Na minha opinião, ler HnK usando os mesmo critérios que usamos em obras atuais vai invariavelmente gerar ruído de idéias, ainda mais quando tratamos das personagens femininas. E, com isso, alguns leitores podem deixar de lado a importância histórica que Hokuto no Ken possui. Mesmo com todos os problemas, a série pode ser considerada um proto-shonen, uma obra que foi a semente para outras obras como Dragon Ball, Yu Yu Hakusho, Naruto, One Piece e tantas outras que amamos. Olhar apenas para os problemas sociais presentes em HnK é deixar de apreciar uma obra de fantasia que inspirou muitos dos autores atuais.

Enfim, o que estou defendendo com isso? Que devemos ignorar todo o sexismo, elitismo e homofobia presentes em HnK? Óbvio que não. Esses problemas existem, estão nas páginas do mangá, e é importante que seja apontado. Mas, me repetindo: na minha opinião não faz muito sentido criticar uma obra isoladamente do contexto da época, tanto em outras obras quanto na sociedade. Pode ser necessário um certo esforço, mas se você entender que essas questões são um espelho da sociedade da época, pode acabar encontrando uma obra marcante. O mangá é bom. O anime é, para os padrões da época, lindo. E ambos merecem uma chance.

Na verdade, não sei se existe uma “forma correta” de ler e interpretar HnK, e assumo que para algumas pessoas pode sim, ser importante para a editora incluir um aviso pré-leitura de que o material pode parecer pesado para os critérios atuais. Assim como assumo que na minha visão de homem hétero as coisas pareçam mais simples do que realmente são.

Mas a minha sugestão é que todos leiam HnK como um marco da época, e que usem o conteúdo da obra para notar o quanto evoluímos nesses quase 40 anos: saímos de personagens que precisam escolher entre ser mulher ou guerreira e fomos para personagens femininas que não dependem do protagonistas, ou que são até mesmo protagonistas em histórias publicadas numa revista para garotos. Por ser um pastiche de tudo o que havia de bom e de ruim na década de 80, Hokuto no Ken é um marco: de onde saímos, onde estamos, e com alguma sorte, onde podemos chegar.

 

    Comediante geek e pirata semiprofissional. Cheguei na Internet antes de você nascer. Era tudo mato isso aqui.