Kado: The Right Answer – Review

Não é de hoje que tentamos descobrir o que aconteceria se fôssemos visitados por alienígenas. A ficção nos alimenta com histórias desses tipo há pelo menos um século, sempre trabalhando com os temores da sociedade, quer seja o medo de dominação por uma cultura diferente da nossa (o mais comum no auge da guerra fria) ou o medo de que eles já estão entre nós, nos controlando (no final da década de 90, quando o governo estava desacreditado).

O fabuloso “A Chegada” trabalha com um medo diferente: como faríamos para nos comunicar com uma raça alienígena que possui forma, linguagem, sentidos e até percepção do tempo diferentes dos nosso? Como conseguiríamos lidar com algo completamente, bom, “alienígena” para nós, humanos, se mesmo entre nós mesmo ainda enxergamos outras culturas tão humanas quanto as nossas como alienígenas? Como dialogar a partir do zero se nem entre povos que falam a mesma língua há entendimento sobre o que foi falado?

Kado: The Right Answer” tinha tudo para ser o “A Chegada” dos animes, com uma idéia interessante, um ritmo inicial bacana e um “episódio 0” que mostrava um protagonista (Kojiro Shindou)  com potencial para ser algo além do Generi-kun que estamos acostumados a ver. Mas infelizmente Kado aproveita muito mal o conceito original que apresenta, derrapa no acúmulo de ótimas idéias sendo jogadas a esmo e no fim entrega algo muito menor do que prometia e do que tinha condições de entregar.

De um primeiro contato assustador (em um dia comum, no Japão moderno, um cubo de 25km aparece do nada e “engole” um avião) à tentativa do protagonista de tentar se comunicar com a entidade dentro do cubo, Kado não fica devendo nada ao já citado “A Chegada”. Mas é ao tentar desenvolver o impacto desse contato em nossa sociedade que Kado derrapa. zaShunina, o ser que “vive” dentro do cubo, parece ser bem intencionado, e em sua primeira ação para o público entrega uma tecnologia capaz de gerar muito mais energia do que consumimos atualmente, tornando toda forma de combustível simplesmente obsoleta. Só isso já seria o suficiente para explorar como a sociedade reagiria a um primeiro contato e o impacto até mesmo na estrutura geopolítica do nosso planeta, e Kado até explora um pouco isso no começo.

Mas logo zaShunina entrega mais alguma coisa. E outra. E outra. E tudo começa a ganhar um tom apressado, em que diversos aspectos da humanidade são citados, mas nunca explorados de verdade. Mesmo Kojiro Shindou, que teve um episódio especial apenas para sua apresentação como “o melhor negociador de todo o Japão, alguém que consegue fazer ambos os lados ganharem”, do meio da série em diante faz muito pouco ou nada além do básico.

E por fim, o terceiro ato que até poderia entregar algo memorável, com uma revelação realmente interessante, acaba sendo vítima da falta de criatividade no desenvolvimento da história e se torna uma espécie de “battle-shonen-com-direito-a-ex-machina” preguiçoso. Mesmo o desenvolvimento de uma personalidade mais “humana” de zaShunina, que poderia ter sido mais explorada, não serve de nada além de dar a ele expressões humanas durante o terceiro ato. Não há explicação alguma. Não há aprofundamento. Não há uma boa exploração dos personagens e do ambiente. É tudo… sem gosto.

É verdadeiramente complicado tentar entender como uma série com tamanho potencial acabou se tornando um amontoado de idéias em sua metade e uma bagunça com final morno no fim. Fica apenas a dúvida se essa era a visão original do autor ou se a obra como foi concebida no começo sofreu interferência da equipe criativa ou da própria Toei.

Não sei dizer se dentro do nosso tempo de vida ainda conseguiremos ver o primeiro contato com uma raça mais avançada (ou até mesmo com vida fora do nosso planeta). Assim como também não sei dizer qual a resposta correta para “como iniciar um diálogo com uma raça mais avançada que a nossa?”. Mas eu sei Kado: The Right Answer com certeza entrega a resposta errada.

Uma pena, de verdade. Kado tinha tudo para ser um clássico. Acabou como mais um anime que será esquecido no grande sucesso facilmente esquecível da próxima temporada.

    Comediante geek e pirata semiprofissional. Cheguei na Internet antes de você nascer. Era tudo mato isso aqui.