Inuyashiki e o protagonista que incomoda

Acredite, as primeiras páginas de Inuyashiki podem ser bem… perturbadoras. Mas não da forma como estamos acostumados. Ao invés de violência visual, temos a construção de um protagonista bastante incomum: Inuyashiki Ichiro, um senhor na casa dos 50 anos mas que aparenta ter quase o dobro disso. Um salaryman e pai de família que economizou tudo o que pôde em um trabalho medíocre para poder comprar uma casa (minúscula) para uma família que o vê como um fardo.

Nas primeiras páginas do mangá, vemos um homem cansado, doente, com dores nas costas, e que é constantemente ridicularizado não só pela família, como também fora de casa, por adolescentes e bullies em geral.

E é aí que o autor gera uma perturbação no leitor: o protagonista não é como nós, jovens, cheios de vida e idealistas, mas um velho que tanto a família quanto a sociedade consideram um peso. É difícil não olhar para as expressões de Inuyahiski no começo do mangá e não pensar nas vezes em que deixamos de dar o lugar para um idoso no transporte público, ou nos irritamos com alguém de idade avançada atrasando a fila em que estamos, ou até mesmo de como isolamos parentes próximos, como nossos pais e avós.

E a perturbação continua, quando vemos o protagonista descobrir que possui câncer em estágio avançado, com expectativa de vida de três meses. Ao tentar ligar para sua esposa e seus filhos e sendo completamente ignorado, Inuyashiki se vê sozinho, tendo que enfrentar a morte em silêncio, e se perguntando se alguém sentirá sua falta.

A crítica do autor do mangá (Hiroya Oku, que é também autor de Gantz) à sociedade japonesa e a nossa própria visão do que faz um herói nesse começo da história não podia ser mais clara.

Estamos acostumados com histórias em que o protagonista é alguém com quem podemos nos identificar, mas em Inuyashiki a identificação surge do outro lado, ao nos percebermos como os coadjuvantes, alienando pessoas com necessidades especiais que existem à nossa volta.

No fim, ao acontecer a reviravolta que faz com que Inuyashiki seja um mangá de ficção científica e não um seinen bem depressivo, acabamos torcendo pelo bom velhinho não por nos enxergarmos nele, mas por enxergarmos uma forma de “expiar” nosso comportamento. Inuyashiki é um herói à moda antiga, e isso contrasta muito com o “antagonista” da série, um adolescente como nós (bom, não exatamente como eu, mas como muitos de vocês, leitores).

Falar além disso seria estragar muitas surpresas do mangá (que foi recém-lançado pela Panini e também está disponível para leitura em inglês no Crunchyroll Mangá), mas é possível afirmar que esse mangá é um dos melhores lançamentos do ano no Brasil.

Vale a leitura, lembrando que a obra já tem um anime anunciado para esse ano:

    Comediante geek e pirata semiprofissional. Cheguei na Internet antes de você nascer. Era tudo mato isso aqui.