Review: Ghost in the Shell (mangá)

Ser um adolescente / jovem adulto ligado em tecnologia entre as décadas de 1980 e 1990 era simplesmente fascinante: cada dia uma novidade, um anúncio revolucionário, uma nova forma de ver e fazer coisas a partir de computadores. Atividades que hoje parecem triviais, como consultar o extrato da sua conta sem precisar ir pessoalmente até o banco, assombravam a todos. Computadores pessoais e baratos já começavam a entrar na vida das pessoas, e mesmo algumas tentativas rudimentares de substituir orgãos e sentidos humanos já ganhavam a mídia.

O céu era o limite, e isso ao mesmo tempo fascinava e assustava. Será que um dia teremos máquinas dominando o mundo? Ou robôs com aparência humanóide andando normalmente entre a gente? Corremos o risco de ver todos esses avanços sendo usados em guerras sem fim que dizimarão a humanidade? Eram perguntas cada vez mais comuns para qualquer um, e que geravam diversas histórias que até hoje são consideradas clássicas.

Ghost in the Shell, publicado pela primeira vez em 1989, não é diferente. A história, nascida em um Japão que vivia um crescimento econômico sem precedentes (e era considerado um polo tecnológico na época) a obra máxima de Masamune Shirow trabalhou como poucas as possibilidades do avanço da tecnologia na humanidade, e os questionamentos filosóficos envolvidos em substituir não só o trabalhador por uma máquina, mas muitas vezes partes do ser humano por uma máquina, mais rápida, mais avançada, mais efetiva que músculos, ossos e tendões. Um dos mangás mais influentes da história, tendo servido de inspiração para diversas histórias ao longo da década, pela profundidade com que trata da nossa integração com a tecnologia.

O mangá acompanha o dia-a-dia da Major Mokoto Kusanagi, uma ciborgue membro de uma unidade conhecida como “Seção 9”, especializada em lidar com crimes como invasões a sistemas, ataques de vírus e até mesmo lavagem cerebral. Como no futuro imaginado por Masamune Shirow é comum o uso de nanotecnologia, corpos cibernéticos e até mesmo cérebros computadorizados, um hacker capacitado pode não só comandar um corpo remotamente como também criar / apagar memórias de alguém. E um dos principais desafios da Seção 9 é descobrir quem é o “Mestre dos Fantoches”, um hacker capaz de ir muito além do que a tecnologia permite e que vem causando diversos problemas.

Publicada em volume único e formato de luxo no Brasil pela JBC quase três décadas depois do lançamento original, Ghost in the Shell é uma obra que merece ser lida e entendida pelo menos três vezes: uma dentro do contexto em que a obra foi publicada, uma dentro do contexto em que vivemos em 2017, e finalmente uma em que além de ler a obra também lemos e tentamos entender as diversas notas do autor ao longo das páginas do mangá. Sem isso, na minha opinião, é impossível entender de verdade o impacto que a obra teve na cultura pop e principalmente os paralelos que podemos traçar com o futuro visualizado por Shirow, que obviamente não é o nosso presente, mas convenhamos, está caminhando para ser.

Ler Ghost in the Shell dentro do contexto de 1989 nos leva para aquele mundo citado nos primeiros parágrafos, em que as possibilidades trazidas pelas tecnologia eram infinitas, mas estava claro que a humanidade (não a humanidade enquanto indíviduos, mas o próprio senso do que é ser ou não humano) teria sérios problemas para se adaptar muito mais rápido do que nossos corpos e mentes são capazes de acompanhar. Isso é visto em diversos pontos na obra, em capítulos inteiramente dedicados a mostrar os personagens fazendo coisas triviais e conversando sobre o dia-a-dia, ou mesmo em diálogos soltos em momentos de maior ação. Por exemplo, há um capítulo quase que todo dedicado a dois personagens discutindo até que é ponto é possível considerar que alguém está vivo se o corpo é inteiramente robótico, com a consciência tendo sido transferida para um cérebro digital. O próprio final (que por motivos óbvios não comentaremos a fundo) é uma ode à essa relação homem/máquina que nascia ali na década de 1980, em meio a pochetes, mullets e quantidades cancerígenas de gel para o cabelo.

Ler Ghost in the Shell dentro do contexto atual serve para nos mostrar o quanto a obra acabou se tornando “profética” no que diz respeito à nossa relação com a tecnologia. É inegável que já vivemos no futuro e somos cada vez mais afetados pela tecnologia ao nosso redor, não só fisicamente como também psicologicamente. Carros que se dirigem sozinhos já são usados na Europa e nos Estados Unidos, com cientistas e filósofos debatendo como uma inteligência artificial deve agir em uma situação de vida ou morte. Estamos vendo cada vez mais produtos comuns tendo conexão com a internet (geladeiras, lâmpadas, ventiladores, câmeras, e até cafeteiras) e obviamente estamos vendo o estrago que um ataque hacker poderia causar ao utilizar esses equipamentos em ataque virtuais. Temos na palma de nossas mãos um dispositivo que nos permite acessar praticamente todo o conhecimento humano em poucos segundos, ou até mesmo falar com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo sem qualquer atraso no diálogo. Estamos cada vez mais preferindo armazenar informações na nuvem do que em nossos cérebros, preferindo deixar tudo guardado em formato digital do que forçando nossa memória com informações desnecessárias. E por aí vai. Tudo isso é atual, mas já existia em Ghost in the Shell. Cabe uma reflexão, ao ler a obra, sobre as implicações de tantos gadgets nos cercando diariamente, quase como extensões do nosso corpo e mente.

Finalmente, ler Ghost in the Shell acompanhando as diversas notas de rodapé do autor dá um vislumbre do processo de criação da obra e também de como o autor enxerga a própria humanidade. Masamune Shirow aproveita esse futuro em que máquinas e consciência humana se fundem para filosofar sobre o futuro, nossa interação e dependência das máquinas, e a própria definição de “vida”. Por isso é recomendado ler o mangá e as notas do autor em momentos diferentes: além de quebrar o ritmo de leitura, Shirow não mede palavras para descrever algumas das suas idéias sobre a sociedade e o valor da vida. São visões que hoje em dia podem soar controversas ou até mesmo pesadas demais, mas acreditem, elas são importantes, e dão um tom completamente diferente para a história quando lidas.

Ghost in the Shell ganhou diversas adaptações, a mais famosa sendo o filme de 1995, dirigido por Mamoru Oshii, esse lançado no Brasil há muitos anos. Para os fãs da obra animada, o mangá pode gerar um choque inicial: se no filme os personagens são sempre sérios, sisudos e de cara fechada, como se estivessem sempre usando uma cueca dois números abaixo do tamanho indicado, o mangá tem mais momentos cômicos e de ação. Sai um pouco do clima sombrio do filme animado e entra mais desenvolvimento de personagem, até porque seria bem difícil encaixar as mais de 300 páginas do mangá em um filme de menos de duas horas. Além do filme de 1995 e de diversas séries animadas, Ghost in the Shell também terá uma versão live-action lançada no final do mês de março/2017, e pode ser muito proveitoso já ir assistir o filme conhecendo a obra original.

Impresso no formato 17 x 24 cm, usando papel Lux Cream e com sobrecapa, o mangá de Ghost in the Shell foi lançado pela Editora JBC em 2016 durante a CCXP, e pode ser encontrado em livrarias e lojas especializadas, custando R$ 64,90 ou menos, já que lojas virtuais costumam oferecer descontos. O valor alto pode assustar, mas acreditem, não só pela qualidade de impressão como também pelo conteúdo e até mesmo relevância história, Ghost in the Shell é um mangá que merece ter lugar de destaque na prateleira de qualquer otaku.

Para saber mais:

    Comediante geek e pirata semiprofissional. Cheguei na Internet antes de você nascer. Era tudo mato isso aqui.