Deus está no céu, está tudo bem com o mundo (menos para os otakus)

Que eu me lembre, a primeira vez que eu me interessei loucamente por uma animação japonesa foi em 1989, com Zillion, mas na época eu nem sabia que vinha do Japão e muito menos o que era anime. Provavelmente, a primeira vez em que me interessei por uma série foi com Cavaleiros do Zodíaco, em 1994, tendo descoberto inteiramente por acaso o terceiro episódio da série, ainda na primeira exibição.

Como já se vão aí quase 20 anos, é engraçado ler várias das reclamações dos otakus de hoje e perceber como são sem fundamento ou baseadas em reclamações que foram simplesmente se perpetuando ao longo dos anos. “Não temos uma cultura de mangás/animes no Brasil”, “Não há mercado”, “não respeitam nosso gosto”, “anime/mangá nunca vai pegar no Brasil” e por aí vai. Pessoalmente, me irrito quando vejo esse tipo de comentário.

A “otakusfera” consegue até mesmo reclamar de duas coisas distintas e excludentes ao mesmo tempo: de que não temos lançamentos bons na banca e de que não é possível comprar tudo porque as editoras não param de lançar mangás. Como, eu pergunto, COMO essas duas reclamações podem existir ao mesmo tempo? 😛

Há 20 anos atrás, a não ser que você morasse nas capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, obter uma fita VHS com duas horas de anime era um parto, você tinha que conseguir um catálogo de um fansub (que podia ou não estar atualizado), ligar ou mandar um email e depois fazer uma transferência bancária com o pagamento e rezar, rezar muito, para receber suas fitas. E, ainda assim, havia a chance da fita ser na verdade a regravação da regravação de uma regravação, com uma qualidade de áudio e vídeo horrorosa. Lançamentos? Esqueça, mesmo um episódio normal levava seis meses para estar disponível, dependendo de alguém que tivesse gravado e trouxesse a fita do Japão ou a partir de LDs e DVDs.

A desgraça que era depender apenas de fansubs, e esse anime nem é tão velho

Ler mangás também era complexo. Ainda hoje lembro de muitos sites (isso já em 1999) que disponibilizavam scans com baixissima resolução e sem tradução alguma, você tinha que baixar arquivos de texto que vinham com a tradução a parte (“página 5, primeiro balão: blbaba” e por aí vai).

Editoras, emissoras, empresas de licenciamento, ninguém, NINGUÉM sabia como tratar corretamente essa mídia. Assim, acabavámos com séries sendo exibidas sem qualquer noção de qual era o público-alvo ou o melhor horário. É impossível não lembrar da fatídica primeira exibição do clássico “A Lenda do Demônio” na Band, onde todos (sem exceção) foram pegos de surpresa pelo alto grau de violência e sexo, e os relatos das pessoas que convenceram amigos, parceiros e familiares a assistir aquele anime inofensivo e acabaram sendo chamados de psicóticos para cima.

Eventos de anime que hoje são mal vistos por serem…. lotados… eram em pequenos galpões, e reuniam 100, no máximo 250 pessoas. Não havia nada oficial ali, nem palestras, nem shows, nem estantes vendendo produtos. Quando muito, fanzines. Hoje os eventos, por mais que precisem urgentemente se reinventar, lotam qualquer lugar, trazem atrações internacionais, e atingem, visivelmente, um público muito mais amplo que o otaku hardcore.

Eu poderia continuar por parágrafos e mais parágrafos mostrando a dificuldade que era obter anime e mangá “no meu tempo” (lembrando que nem estamos falando de um período tão distante assim, cerca de 15 anos), mas o meu ponto é: as coisas mudaram, e mudaram para melhor. Nesse cenário atual, um sem-número de reclamações dos otakus de hoje em dia simplesmente já não fazem mais sentido, ou é simplesmente a perpetuação de argumentos que eram válidos há mais de uma década.

Hoje já temos mais mangás do que comics nas bancas. Há um acervo considerável de animes em DVD e Blu-ray. Temos serviços como o Crunchyroll chegando ao Brasil, temos lojas dedicadas unicamente à venda de action figures, temos um sem número de pessoas que consomem produtos relacionados. Então porque continuamos reclamando? Porque continuamos sustentando que não existe um mercado viável no Brasil, quando nós mesmos somos os responsáveis por matar o mercado, ao fazermos exigências absurdas às editoras e distribuidoras, que não se aplicam à nossa realidade?

Essa “síndrome de patinho feio” da “otakusfera” precisa acabar. É hora de rever os conceitos, é hora de parar de reclamar que o anime em DVD está em 5.1 ao invés de 7.1 e dizer que isso é motivo para baixar uma cópia pirata (mesmo que você não tenha um home theater 7.1 em casa), é hora de parar de falar que fãs de anime não são entendidos pela sociedade e passar a aceitar que, sinceramente, boa parte das pessoas não se importa mais se você lê quadrinhos no metrô. Compre mangás. Compre animes. Pare de perpetuar a pirataria, e ajude a construir o mercado. Quem ganha no final é você.

(por Graveheart)

    Comediante geek e pirata semiprofissional. Cheguei na Internet antes de você nascer. Era tudo mato isso aqui.