Editorial #03: Quem Tem Medo de Mamilos?

Editorial #02: Animes de Cinquenta Episódios

Mamilos, melhores personagem.

Ou porque Seikon no Qwaser não é o pior anime do mundo.

Vivemos tempos dominados por uma mentalidade que, com a justificativa de ser avançada, acaba sendo conservadora. O sonho acabou, a história acabou [ops, apesar do que andaram falando uma década atrás, essa ainda não], a Banheira do Gugu [clássico da infância de quem está na faixa dos vinte] acabou e o politicamente correto agora faz parte de nossas vidas.

Claro, o politicamente correto surgiu por razões muito justas [e o sushi erótico exibido no Faustão, presenciado ao vivo por este que vos escreve quando tinha menos de dez anos, é algo que jamais deveria ter sido exibido na TV aberta, principalmente em uma tarde de Domingo] mas o fato é que o mundo ficou mais chato e mais quadrado.

E isso se reflete inclusive no Japão, país aonde tanto os grupos de pressão que propagam a adoção do comportamento politicamente correto nunca foram poderosos como em outros lugares quanto inexiste a forte moral judaico-cristã que há dois milênios é um freio a uma sociedade que permita uma ampla variedade de comportamentos – atualmente há uma preocupação com a “proteção” das crianças inclusive por lá, que reflete por exemplo em um anime de Fairy Tail fartamente “adequado” as crianças mais novas.

Mas os animes feitos para o público otaku [apesar do moe ser um veículo de força imensa que permite que obras como K-ON! façam imenso sucesso sexualizando as protagonistas de forma totalmente indireta – as personagens são ore no yome [minha esposa], em uma relação que possui certo duplipensar, sendo inocente e suja ao mesmo tempo [afinal, há inúmeros doujins de K-ON!, sendo que poucos não envolvem sexo] não se importam com essas classificações – afinal, há público para algo como High School DxD ou Queen’s Blade, que chegou a vender perto de dez mil discos no primeiro DVD+BD e atingiu boa média de cinco mil nos dezoito discos que a série teve [seis para cada temporada mais seis para os OVAs], cuja premissa é mostrar garotas peladas [quase, mas é literalmente por um detalhe].

Porém, animes como o Queen’s Blade citado acima são considerado a escória da animação japonesa – e o motivo é essa presença da nudez. O roteiro da primeira temporada é atroz, mas as pessoas esquecem de lembrar-se disso – para falar mal, usa-se o argumento de “fanservice, portanto é uma merda”. De fato, é um anime feito para mostrar as… garotas peladas [ou quase], mas a escolha deste foco ao criticá-lo revela algo que pode ser nocivo. O que deveria ser analisado numa crítica de anime minimamente séria é a qualidade intrínseca da obra – pontos de vista pessoais devem ser abordados, mas deixados de forma clara, pois nem todos podem compartilhar de sua opinião sobre tal aspecto do mundo.

Dois exemplos de obras que vão além da calcinha e mostram os mamilos do título, e mesmo assim não deixaram de ser muito boas – tanto que ganharam o status de clássicos, são o filme de Mamoru Oshii Ghost in the Shell [1995] e a série de OVAs Top wo Nerae! [Gunbuster] dirigida por Hideaki Anno em 1988. Nas duas obras, poderia-se facilmente ter evitado mostrar os valorizados bustos das protagonistas femininas das séries com praticamente o mesmo resultado – sim, no fundo é um elemento de atração do público [sexo vende, oras], mas não há como negar que é mais um elemento agregador ao ótimo clima que é característico das duas obras.

Porém, qual é o diretor de anime que fará isso hoje em dia se temos inúmeros espectadores que acham que mostrar o corpo é sinal de que a obra é apelativa e não merece ter o status de clássico cult? E nem só mostrar nudez e similares, mesmo o tema sexo pode afastar espectadores – quantas pessoas ainda não viram o muito bom Panty and Stocking with Garterbelt [claro que a obra em si é um tremendo ame-ou-odeie, mas brincar com o tema em si não deveria ser tão polêmico], aliás uma obra feita na medida para o público ocidental ao referenciar a cultura pop ocidental/americana, por conta disso?

Enquanto isso, animes inofensivos pipocam toda temporada sem que críticas contundentes sejam feitas justamente por serem inofensivos – uma boa análise da obra, focando no que realmente interessa, é deixada de lado; enquanto o preconceito de uma juventude guiada por traços de moralismo acaba sendo feroz e respingando aonde não deveria.

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11 thoughts on “Editorial #03: Quem Tem Medo de Mamilos?”

  1. Saudações

    Cuerti, você fala de um tipo de [tendência anunciada há muito tempo]? Refiro-me ao quesito moralista do tema tratado e a sua conseqüência direta.

    Não sei se generalizaste “o todo”, mas penso que Queen’s Blade (anime que não vi) pode até possui uma história de fundo interessante. De forma quase similar, K-ON! (vi ambas as temporadas) é uma série que usa e abusa do dito [bonitinho e simpático], a verdadeira coqueluche da atualidade. Possivelmente obras como Seikon no Qwaser (também não vi) possuem um contexto “duvidoso” (pelas sinopses que li/assisti – blogs, fóruns – e imagens na internet afora), que de alguma forma auxiliam na temática proposta em seu texto, Cuerti.

    Só saliento que há exageros de ambos os lados, nas propostas de cada grupo de anime: há o exagero na [fofurice compulsiva] endossada por obras como K-ON! (cujo anime eu gosto, mas não o vejo como algo “fora de série”, mas sim divertido) e também nos [mamilos] à mostra e a lá carte como em Queen’s Blade (quer queira quer não, muito material à mostra pode dar ideias erradas quanto ao contexto da obra em si).

    A história, o enredo e os personagens vão perdendo contexto? Deixo a questão no ar…

    Até mais!

  2. Hamtaro vem aí! Hamtaro!
    Estamos juntos, conseguimos.
    Sou seu fã! Somos loucos por sementes.
    [continue cantando mentalmente, que eu sei que você sabe a letra]

  3. Acho que existem duas maneiras de abordar a nudez e/ou sexo em animes/filmes.

    Uma é em função do próprio enredo e impacto da cena. Um exemplo +- recente Mardock Scramble. Há cenas bastante fortes e explícitas de nudex e sexo inclusive, mas não é abordado de uma forma vulgar. Do meu ponto de vista estas cenas se encaixam no contexto.

    A outra maneira é mostrar mamilos e calcinhas por todos os lados. Não é questão de simples moralismo, mas sim de vulgarização do corpo. Hoje em dia o sexo é ainda tabu, mas a sexualidade está explodindo por todos os lados e muita gente acha legal ver mulheres rebolando semi-nuas em programas de TV. Eu pessoalmente me sinto incomodada com isso. É por este motivo que não costumo ver ecchis.

    Quando uma obra precisa usar e abusar de mamilos para atrair público perde toda a credibilidade para mim ainda que possa ter um enredo que me interesse em algum ponto, exemplo High School of Dead, que deixei de ver por não aguentar o fanservice absurdo.

    Não sou contra a aparição das famigeradas calcinhas e mamilos, mas sim contra os exageros que o Carlirio comentou. Mostrar uma calcinha ou peitos pelo bem da comédia ou da contextualização do personagem, como em GTO, é válido. Abusar de cenas de garotas peitudas que terminam com fiapos cobrindos suas partes é vulgar.

    No mais você pode encontrar animes que abordam e maneira madura a questão da sexualidade, como em Nana. Ou de maneira satírica como em Ebichu ou Golden Boy. Esses animes, diferentemente dos ecchis como Queen’s Blade, tem como público-alvo pessoas mais velhas e não adolescentes no ápice da puberdade.

    1. O problema não são as cenas de calcinhas à mostra (panchira) ou nudez. o probléma é a série depender tão somente de cenas assim.
      Felizmente, nem toda série “ecchi” é como Queen’s Blade. Existem exceções à regra.
      Como eu pude comprovar no começo deste ano, ao assistir uma série que passou na temporada de primavera e que, devo dizer, foi muito além de ser simplesmente ecchi. Teve também momentos belos, oníricos, nostálgicos, românticos e, até mesmo, tocantes. Além de momentos de humor.
      Uma série que, apesar dos seus 13 episódios e de um OAD (por enquanto), cativou a mim e a muitos outros, inclusive no Brasil. E que, para mim, já conquistou o título de “a série do ano”.
      Apesar de algumas cenas bizarras, porém necessárias para tornar a série interessante e para criar um certo ar de mistério, essa série a que me refiro possui as qualidades que uma boa série deve ter: um bom roteiro/enredo/trama, personagens carismáticos, bons cenários (destaque para as cenas dos sonhos do personagem principal), boa trilha sonora (poderia ser mais variada, se houvesse mais dinheiro investido), bons dubladores/seyuus, etc. Uma série que, sem sombra de dúvidas, se destaca entre as demais séries deste ano.
      Eu, que já conhecia e acompanhava a série em questão quando ainda na versão mangá, posso dizer com certeza que a adaptação para a versão anime foi uma das melhores que já vi nestes últimos anos, o diferencial em relação ás séries que estão ou já foram exibidas na TV japonesa nesta década (e talvez na década passada). Um romance-comédia que não se via há tempos, desde os anos 1980 e começo dos anos1990.
      Enfim, uma série que recomendo para aqueles fãs maiores de 18 anos que querem ver uma boa história, que mostra como era o namoro à moda antiga, bem diferente do que se nos dias atuais (onde namorar virou sinônimo de fazer sexo).

  4. Que tempos estes.

    Tempos de hipocrisia. Tempos de se apagar o passado “infame”.

    Tempos de ser indecente o apelo sexual na animação. Tempos de se censurar o livro do Monteiro Lobato, julgando-o racista.

    É claro que há um limite. O sexo ou a sexualidade como único apelo da obra, jogando-se o enredo para escanteio.

    Eu assisti Queen´s Blade, e também achei o roteiro terrível. Mas, por outro lado, achei interessante a história da protagonista, Leina Vance, em sua busca por independência e identidade, coisas que não encontraria no conforto dos aposentos de sua família. Isso poderia ser melhor explorado, e se desse mais atenção a esse aspecto, Queen´s Blade não pareceria toda essa escória do anime que se apregoa por aí.

    Excelente texto, Cuerti. Como sempre.

    1. Como eu disse acima, o problema não está na nudez ou no apelo sexual (afinal, estas coisas já existiam, se bem que, discretamente, nos animes dos anos 1980). O problema está na série depender tão-somente de cenas assim ao invés de ter um bom enredo/trama/roteiro.
      O que me faz lembrar de uma das dicas para se fazer um anime de sucesso (e que foi postada na Biglobe, juntamente com uma lista de outros “ingredientes” para se fazer um anime de sucesso: “Incluir ero com moderação”. Também pode ser entendido como: “Incluir ecchi com moderação”. Para quem quiser conferir, eis os links para o artigo traduzido para o inglês e postado no Sankaku Complex (aviso: têm cenas ecchis naquele site):
      http://www.sankakucomplex.com/2012/04/24/10-steps-for-making-a-hit-anime/
      E aqui, o link para o site da Biglobe, onde foi postado originalmente o artigo (está em japonês, por isso, coloquei um link extra com a versão traduzida via Google Translator. Como podem ver, a tradução saiu muito esquisita, parta dizer o mínimo. Quem sabe algum dia alguém crie uma ferramenta de tradução melhor):
      http://anime.biglobe.ne.jp/userranking/title/31254/
      http://translate.google.co.jp/translate?sl=ja&tl=pt&js=n&prev=_t&hl=ja&ie=UTF-8&layout=2&eotf=1&u=http%3A%2F%2Fanime.biglobe.ne.jp%2Fuserranking%2Ftitle%2F31254%2F&act=url

    2. Eu postei um comentário sobre o que você havia escrito. o que aconteceu? não apareceu aqui.
      Pode ser que, por causa dos links que eu inclui, possa ter havido algum problema. Por isso, é melhor avisar o Cuerti sobre isso, para ver o que aconteceu.

  5. Sempre existirão obras que vão até o extremo do politicamente correto (ou incorreto). O mais difícil é ter obras que consigam utilizar este recurso da maneira que lhe convir para tirar criar a história em sua intensidade máxima.
    Na minha opinião, você acabou abordando dois temas, o politicamente correto e a não abordagem (ou abordagem excessiva) de certos temas.
    Por mais que eu goste da animação japonesa eu acho que ela tem certos problema, como este que você citou, mas não creio que seja pelo politicamente correto (fenômeno recente), mas sim por uma característica da cultura japonesa mais conservadora que impede que uma maior ousadia, como vemos no mundo ocidental, ou que trate de sexo, ou mesmo romance, de maneira mais aberta.
    Entre os fãs de animação (no geral, não só a japonesa), creio que há muito menos problema a abordagem do corpo e do sexo para enriquecer a história.

    Mas é uma pena este fenômeno do politicamente correto. Para mim isto funciona como uma espécie de censura. Como qualquer fator limitante, é possível que o autor crie obras belíssimas pela necessidade de agir com sutileza e elaboração para que os defensores do politicamente correto não se ofendam. Nisto, temos nosso próprio exemplo da cultura brasileira recente. Entretanto, parece-me que é algo que influenciou a todos, mesmos os artistas, fortemente e que acaba por empobrecer até as animações.

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