A Decadência dos Animes Mainstream

A decadência dos animes voltados para um público mais geral ou como de um Dragon Ball ou Saint Seiya viemos parar em Fairy Tail e HUNTERxHUNTER [2011].

Até pela falta de opções, os primeiros otaku [termo surgido com a conotação de fanáticos por anime/manga ou anime otaku em meados dos anos 80] acabaram se apaixonando pelo pouco, em termos quantitativos, que existia naquela época – e fora o nascente mercado de home video, como podemos constatar na chamada era dos OVA [que durou até pouco depois do crash japonês de 1991], a principal opção era mesmo ver aqueles desenhos feitos para toda a família, muitos com foco nas crianças e adolescentes.

E nesta época, durante a qual o gênero mais amado por essas bandas [claro, o battle shounen – aquele anime para garotos com foco na porrada sobrenatural] estava finalmente tomando a forma definitiva com que viria uma década depois estourar por aqui, tivemos uma bela safra de animes que além de bons conseguiam ser focados no grande público, mesmo o de fora do Japão; claro que Sazae-san ou Gegege no Kitarou são clássicos, mas seu apelo acaba sendo profundamente japonês, sendo necessário ao menos alguma imersão na cultura daquele lugar para melhor proveito.

Em todos os gêneros, das garotas mágicas de Sailor Moon a comédia desenfreada de Urusei Yatsura, tínhamos a presença de bons diretores como Junichi Sato [ARIA, Princess Tutu] ou Mamoru Oshii [Patlabor, Ghost in the Shell] comandando obras que apesar do óbvio e sempre presente orçamento limitado foram sucessos de público e sim, crítica. E que puderam, de uma forma ou outra, ser transmitidos até mesmo no distante Brasil.

Porém tivemos um Evangelion no meio do caminho e o mercado foi lentamente indo para o lado de fã hardcore, do otaku, até chegarmos ao estado atual de que é este quem paga as contas da indústria; assim, muitas das obras com staff badalado e orçamento de primeira são algo como Fate/zero ou THE [email protected], impossíveis de terem qualquer apelo fora da bolha nerd [o segundo é inclusive rejeitado por parte do público-alvo deste blog].

Enquanto isso, saímos de obras reconhecidas inclusive pelos otaku como Saint Seiya [sim, que quase ganhou em seu primeiro ano de exibição o Animage Grand Prix] e City Hunter para os exemplos citados no começo do post [Fairy Tail, HUNTERxHUNTER], que até são assistidos em massa mas de uma forma totalmente passiva, palavra esta que diz muito sobre o feeling que tais adaptações passam – afinal, como diabos chegamos a este ponto, com estes animes que fazem sucesso o suficiente no Japão e que dificilmente tem condições que repeti-lo no resto do mundo?

O Domínio do Politicamente Correto

Desenhos animados há muito tempo são vistos como coisa de criança aqui no Ocidente – e com o passar das décadas e o avanço do politicamente correto a cada dia foi ficando mais escancarada a visão de que estes não devem conter sexo, violência e outros temas que restrinjam a classificação indicativa – e assim de um Tom e Jerry ou Pica-Pau violentos feitos para o público dos cinemas nos anos 40 tivemos uma transição para suas versões televisivas e amenizadas dos anos 60 e depois, nos anos 80, já tivemos como clássicos de nossas infâncias obras como He-Man ou Caverna do Dragão, nas quais a preocupação com mensagens educativas acaba até deixando os roteiros claros demais às vezes.

Claro que ausência de temas não recomendados para crianças não significa obras ruins e desenhos como Scooby-Doo são geniais ao explorar outros tipos de temática; mas esta é apenas uma das possibilidades existentes – e mesmo em um Japão que em muito copiou dos Estados Unidos no pós-guerra não existia o background cultural que levou esses a isto: e assim a amizade, a coragem e o heroísmo regado a sangue de Dragon Ball, Hokuto no Ken e Saint Seiya fizeram a alegria de muito moleque e o terror de muitos pais. Mas era aceitável.

Vinte anos depois e uma sociedade cada vez mais preocupada em proteger as crianças contra o mal que representa o mundo externo [e a troca da rua pelo condomínio é um fato que resume e simboliza esta mentalidade] passou a realmente ver sangue em produções para o público infanto-juvenil como algo não mais aceitável – mesmo no Japão, país que a cada dia se torna mais conservador devido ao esgotamento de um modelo de crescimento que já custos duas décadas perdidas do ponto de vista econômico e também por conta do envelhecimento constante – um a cada quatro japoneses tem mais de 65 anos.

E foi assim que as cabeças explodindo de Hokuto no Ken ou mesmo a mão sangrenta de Naruto simplesmente sumiram; nos animes para as crianças da nova geração, a regra é ter pouco ou nenhum sangue, nudez controlada e feeling amenizado – mesmo a paleta de cores super colorida que é o padrão atual acaba tornando estas obras também sem sal. O descompasso entre os mangas e os animes está maior do que deveria, e na transição entre estas mídias perde-se mais do que deveria do original na esperança de acalmar executivos e pais. Quem perde é o público-alvo, as crianças e adolescentes que deveriam crescer vendo Fairy Tail ou HUNTERxHUNTER.

O Baixo Orçamento Não É Mais Suficiente

Desde a década de 1960, quando estrearam animes televisionados na televisão japonesa, que o orçamento disponível para os criadores é simplesmente ridículo [a média atual é de US$ 200 mil por episódio, enquanto Legend of Korra e The Simpsons chegam a casa do milhão] – assim, Osamu Tezuka desenvolveu o estilo de animação limitada na versão japonesa que conhecemos e muitos aperfeiçoamentos depois ainda hoje [e mesmo em produções como as do Studio Ghibli] temos isto como um dos pilares técnicos que os animes ainda se utilizam.

Porém, diversos fatores que vão desde o advento dos computadores como ferramenta essencial e facilitadora na animação até mesmo o surgimento de fãs hardcore que sim, podem sustentar um mercado de nicho, o nível médio da animação em si deu um pulo principalmente na última década. E quem ficou para trás foi justamente quem produz para crianças.

São justamente obras como Ao no Exorcist, FullMetal Alchemist: Brotherhood e Mobile Suit Gundam 00 quem souberam melhor conciliar um enredo feito para todos com uma produção verdadeiramente caprichada – porém eram obras que desde o início sabia-se tratar de produtos também feitos para o nicho: otakus, fujoshis e afins. Enquanto isso na Toei ainda temos o sistema que limita a três mil key frames por episódio de vinte e poucos minutos [exceto em ocasiões especiais] – fora a total falta de cuidado com fotografia e outros pequenos detalhes que fazem a diferença.

Claro que dinheiro é muito mas não é tudo, mas fica difícil trabalhar com somente o básico. E é aí que entra o próximo e mais importante ponto…

Porque Trabalhar na Toei?

Sim, por que trabalhar na Toei se uma pessoa capacitada o suficiente para ser diretor de episódio na maior produtora japonesa pode também dirigir um anime moe/ecchi/harem qualquer?

Não tem filme, reputação a ser queimada quando alguns dos diretores mais conceituados desta mídia se dirigiram este tipo de obra – Akiyuki Shinbo [Bakemonogatari, Madoka Magica] dirigiu em 2004 a Primeira Temporada de Mahou Shoujo Lyrical Nanoha, Tatsuyuki Nagai [Ano Hana, ToraDora!] em 2007 comandou [email protected]: Xenoglossia e Shoji Kawamori [Macross] acaba dando o “mau” exemplo quando podendo literalmente fazer o que quiser decide coordenar projetos como AKB0048 e Aquarion EVOL.

Claro que a longa ausência de pessoas gabaritadas como Kunihiko Ikuhara e Shinichiro Watanabe do mercado é muito por conta de não querem trabalhar com este tipo de coisa, mas é uma opção tomada por estes – outros como Hiroyuki Imaishi [Gurren Lagann, Panty and Stocking] se envolveram em projetos como BLACK ROCK SHOOTER [TV, no qual foi diretor das cenas de ação] e nem por isso são desprezados ou algo assim. Questão de orgulho próprio.

O fato é que se Sailor Moon pode contar com o já citado Ikuhara e o igualmente famoso Junichi Sato [ARIA, Princess Tutu], atualmente os novos talentos podem sair da cena experimental como Kunio Kato [La Maison en Petits Cubes], virem de animes feitos para ser cult como Kenji Nakamura [Kuuchuu Buranko, Mononoke, Tsuritama] e Masaaki Yuasa [Kaiba, Mind Game, Tatami Galaxy] ou mesmo da cena otaku como Atsushi Nishigori [THE [email protected]] Takahiro Omori [Baccano!, Kuragehime, Natsume Yuujinchou].

Além da maior facilidade para arranjar um bom cargo, os valores de produção são maiores – como citado anteriormente – e até mesmo o trabalho aqui acaba sendo um pouco menos engessado que nas produções para o público geral, muito dependentes de um merchandising bem-feito [afinal, o que costuma importar são as vendas dos discos]. Claro que os temas são restritos e geralmente mostrar calcinha de menores de idade acaba sendo lei, mas isto não pediu o Kyoto Animation ou o SHAFT de criarem todo um estilo próprio de fazerem esse trabalho – e é aqui que a criatividade e certo tom autoral acabam aparecendo.

Os animes que passam durante o dia e ainda são elogiados são exceções, tanto que costumam contar com staff que também dirige outros tipos de obras. Do Bakuman. de Kenichi Kasai [Aoi Hana, Nodame Cantabile] ao SKET Dance de Keiichiro Kawaguchi [Mayo Chiki!, NyanKoi!], são obras que acabam seguindo um modelo um pouco diferente do padrão – até mesmo em estúdios como o J.C.STAFF estarem envolvidos aqui.

Conclusão

Estes, principalmente, e outros fatores – como a baixa audiência, causa e consequência ao mesmo tempo do que acontece acima – explicam por que não é somente culpa do fim do boom do anime no Ocidente [aonde em poucos anos] que as animações japonesas estão mais e mais presas a um nicho de fãs tão inacessível quanto o de quadrinhos americanos.

As crianças no Japão estão desaparecendo e junto com elas, aquelas animações feitas por pessoas competentes e que sim, não só são bons animes mas bons produtos audiovisuais no senso mais geral possível. Digimon Adventure é assim, Yu Yu Hakusho é assim, mesmo Saint Seiya sabemos que é um anime no qual o time de produção foi competente para adaptar um original. Enquanto isso no momento de publicação deste post muitos estão vangloriando como Kenji Nakamura soube fazer um anime adorável em Tsuritama; adorável, mas cadê um talento desse trabalhando em uma obra mainstream? Infelizmente, as condições para isso não mais existem.

A decadência dos animes voltados para um público mais geral […]