Sakamichi no Apollon [Corrente de Reviews 2016]

Chegamos ao fim de mais uma Corrente de Reviews e, para fechar o evento, vamos falar sobre Sakamichi no Apollon (aka Kids on the Slope). Uma história de amor e de amadurecimento situada em uma cidade do interior do Japão no meio da década de 60. Três amigos enfrentam juntos os causos de seus dois últimos anos no Ensino Médio. Dois deles amigos de infância e o terceiro um recém chegado à cidade. Tudo embalado em muito jazz e um cuidado visual que é de encher os olhos. Quem me indicou esse anime foi o Thunderbout da LBTV e já adianto que sou muito grato a ele por isso.

Sou grato pois assisti o primeiro episódio desse anime no ano em que saiu (2012) e até escrevi um texto sobre (que não está mais no ar), mas nunca terminei de assistir. Essas coisas da vida que a gente nunca vai entender por que acontecem. Agora, quatro anos depois, quatro anos com esse anime na minha watchlist, finalmente pude assistí-lo por completo.

Os primeiros minutos de Sakamichi no Apollon são melancólicos e angustiantes. Nishimi estava mais uma vez indo em direção a uma nova escola. O trabalho de seu pai exigia que eles se mudassem constantemente e, por causa disso, Nishimi nunca conseguiu desenvolver muitas amizades. Ele se tornou uma pessoa mais fechada, o que acabava por colaborar ainda mais com esse lado antissocial. Seu lado emocional é tão instável que se manifesta fisicamente, através de um enjoo bastante forte. E foi em um dessas crises que ele encontra Sentarou.

Sentarou, o valentão da escola. Alto, encorpado e com cabelos loiros que indicam uma miscigenação genética. Embora bastante diferente de Nishimi em aparência, Sentarou também não tem muitos amigos. Na verdade, sua única amiga é Yurika, com quem convive desde criança. Ela é mais responsável e séria, é a representante da classe, enquanto ele não quer nada com nada. Uma dinâmica clássica, mas que funciona. Nishimi acaba compondo o trio meio que por acaso. Enquanto Yurika fica feliz por Sentarou aparentemente ter encontrado um amigo, Nishimi desenvolve um certo interesse romântico pela colega.

Ao visitar a loja de discos do pai da Ritsuko, Sentarou o desafia a tocar jazz. Ritsuko diz que adoraria ver os dois tocando juntos e Nishimi decide aceitar o desafio. No desenrolar dos eventos, Nishimi descobre o lado libertador do jazz. Ele toca piano clássico desde pequeno, mas vê no jazz uma válvula de escape para suas frustrações. O jazz é o que inicia e o que permeia a amizade e os amores desse trio no decorrer do anime. Esse papel central e determinante da música no anime não é estranho quando vemos que quem está no comando é Shinichiro Watanabe. O diretor ficou famoso por seu trabalho no clássico Cowboy Bebop (1998) e, posteriormente, por Samurai Champloo (2004). Em ambos os trabalhos a música recebe carinho especial e, de alguma forma, integra de maneira indissociável a história. Em Sakamichi no Apollon isso não seria diferente. Mesmo estando há oito anos afastado da direção de uma série, Watanabe deixa claro que ainda mantém seu estilo particular em dia. Não é a toa que ele chamou a extremamente competente Yoko Kanno para cuidar da trilha sonora, com quem tinha trabalhado em Bebop e viria a trabalhar em Space Dandy (2014) e Zankyou no Terror (2014)

Mas, além da música, o que destaca Sakamichi no Apollon em meio a outros dramas é a química que permeia o trio principal. Sendo um anime conduzido por seus personagens, isso é de extrema importância e, felizmente, o anime não decepciona.

A história se desenrola com base em uma trama amorosa envolvendo os personagens. Nishimi, que ficou amigo de Sentarou, tem interesse em Ritsuko. Ela, por sua vez, nutre um interesse por Sentarou, de quem é amiga desde criança. Sentarou acaba por se apaixonar por Yurika, uma colega de escola. Yurika, embora inicialmente também tenha demonstrado interesse em Sentarou, acaba se apaixonando por Junichi, amigo de Sentarou e por quem ele nutre grande admiração. Essa trama amorosa segue em paralelo com o bromance entre Nishimi e Sentarou. O desenvolvimento da amizade entre os dois é também um dos pilares da história. Uma amizade entre pessoas tão diferentes, unidas pelo acaso e por uma paixão em comum pela música, mas que se completam e se torna cada vez mais forte. Mesmo com todas as dificuldades e conflitos.

Tendo feito com que nos importemos com o trio, cada acontecimento da trama meche com os nossos sentimentos de uma maneira que poucos animes conseguem fazer. Muito disso se deve à natural e verossímil evolução dos personagens no decorrer da história. Eles tomam atitudes, fazem besteira, brigam, reatam… coisas com as quais podemos nos relacionar facilmente com e que fortalecem nossa conexão com eles. Porém, acho que o que mais enriquece a trama são as jornadas individuais de cada personagem. Embora o centro seja os relacionamentos entre eles, cada um recebe atenção individual. Eles não parecem personalidades artificiais que existem apenas para fazer a história andar. Eles tem seus problemas e desafios pessoais que podem ou não acabar afetando seus relacionamentos.

Outro elemento que colabora com a tridimensionalidade dos personagens é o aspecto visual da série. A começar com o filtro granulado que sobrepõe o vídeo, dando um aspecto de rolo de filme, de que estamos vendo algo “real” e ao mesmo tempo um pouco mais “antigo”. O uso mais amplo de efeitos de profundidade de campo e de luz e sombras traz também um ar bastante cinematográfico ao anime. O uso de animação por rotoscopia, em especial nas cenas onde eles tocam música, aumentam a intensidade da mesmas ao trazer uma movimentação mais “humana”, mais fluida. A gente sente a música, sente os movimentos. A sobriedade do design de personagens também tem um papel importante. Sua anatomia é mais verossímil, assim como seus figurinos e penteados. Ritsuko consegue ser extremamente graciosa sem precisar de exageros. Até mesmo Yurika, que é percebida como uma menina extremamente bonita, consegue passar isso sem precisar apelar para artifícios forçados, como acabamos nos acostumando a ver em muitos animes. Tudo parece muito natural.

Quero aproveitar e deixar claro, antes de encerrar esse review, que Sakamichi no Apollon não é isento de falhas. Elas existem e acho que a que mais me incomoda é o “vilão” que aparece no meio da história e que, tanto em aparência como personalidade, destoa do tom mais verossímil do restante do anime e cuja participação parece um artifício forçado para atrapalhar os protagonistas. Porém, até mesmo ele acaba tendo um arco dramático consistente, o que torna essa falha bem menos danosa à série que consegue se encerrar de maneira bastante satisfatória.

Ao fim dos 12 episódios que compõe o anime, posso dizer que fiquei plenamente satisfeito com o que foi mostrado. Um drama, histórias de amor, histórias de amadurecimento, de crescimento, de enfrentamento, de dor… acompanhar esse recorte da vida desses personagens foi um imenso prazer. Eu me diverti, eu vibrei, eu me irritei, eu chorei com cada um deles, juntos e separados. A capacidade de um anime envolver seu espectador, de despertar nele sentimentos, é o que separa animes apenas bons de animes excelentes e Sakamichi no Apollon é um desses animes excelentes.


Sakamichi no Apollon
Direção: Shinichiro WatanabeRoteiro: Yuuko KakiharaEstúdio: MAPPA

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Com esse post, declaro encerrada a Corrente de Reviews 2016! Agradeço imensamente a todos que participaram e a todos que acompanharam as reviews em cada um dos 29 blogs, canais e podcasts que formaram a Corrente. Espero que a gente tenha conseguido cumprir nosso objetivo de integrar quem produz conteúdo relacionado a animes e mangás e, claro, produzir um acervo enorme de indicações de anime para vocês, leitores/espectadores/ouvintes. Se tiverem algum feedback para dar, por favor entrem em contato comigo e ATÉ O ANO QUE VEM!

Sobre Diogo Prado

Tradutor, podcaster, jornalista, amante de cinema, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

Você pode me achar no twitter em @didcart.

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