Uma bela carta de amor ao mangá – BAKUMAN, o filme

A indústria do mangá é essencialmente multimídia. Editoras lançam novos títulos e já começam os trabalhos para a adaptação para anime, para os jogos, para os brinquedos e por aí vai. Enquanto a maioria dessas adaptações é vista com bons olhos, uma ainda luta para ganhar a graça dos fãs: os filmes em live-action. Devido ao seu histórico majoritariamente falho, fica complicado termos grandes esperanças quando anunciam um novo filme. Felizmente, exceções existem e BAKUMAN é, definitivamente uma delas.

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Adaptando a história

BAKUMAN nos traz a história de dois estudantes do ensino médio, Mashiro e Takagi, que querem se tornar mangakás publicados na maior revista do gênero no Japão: a Shonen Jump. O filme acompanha a jornada da dupla em busca do topo de popularidade e sua batalha contra o rival Eiji Nizuma. Baseada no mangá original, por Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, a história foi fortemente inspirada pelas próprias experiências dos autores na indústria.

Sendo um dos meus mangás favoritos (embora com algumas ressalvas), era natural eu ficar bastante atento a como a adataptação do material original foi feita. Para minha felicidade, no entanto, ela ficou muito bem feita.

Adaptar todos os mais de 170 capítulos do mangá seria impraticável, então da decisão de se focar nos primeiros arcos da história foi mais do que acertada. Não só isso como a maneira com a qual o diretor Hitoshi Ohne as amarrou fez esse filme ter um claro início, meio e fim mesmo ainda deixando brecha para uma continuação.

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Por outro lado, fica evidente a necessidade de se comprometer um pouco o desenvolvimento de alguns personagens secundários em pról de um maior foco na dupla principal. Curiosamente isso fez com que o Eiji se tornasse um personagem muito mais vilanesco do que ele é no mangá. Sua figura era sempre acompanhada de tensão, um verdadeiro antagonista, mas não mal. Esse novo approach funcionou e permitiu à adaptação funcionar sozinha, independente do material original, algo que infelizmente outros live-action esquecem ser necessário.

O romance entre Mashiro e Miho também recebeu um novo tom para o filme. Embora comece da mesma maneira abrupta e estranha como no original, ele acaba por ser mais significativo graças ao curto intervalo entre os eventos causado pela menor duração do filme em comparação com a publicação do mangá. A maior mudança promovida nesse quesito, no entanto, foi a decisão por colocá-lo de forma bem mais secundária do que no mangá.

Quando li BAKUMAN, ele sempre foi, pra mim, um mangá de romance primeiro e um mangá sobre fazer mangá em segundo. Infelizmente esse lado do mangá nunca foi bem desenvolvido e sempre foi o principal calcanhar de aquiles da série. O filme, por sua vez, decidiu colocar o objetivo de se tornar o número um da Shonen Jump como principal foco da série, deixando o romance em segundo plano. O resultado final acabou ficando mais agradável e significativo do que no mangá. Não que isso fosse difícil de fazer, mas foi legal ver que conseguiram fazê-lo sem mexer muito com os pilares originais.

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Visualmente estimulante

Embora o trabalho de adaptação tenha funcionado bem, são nos aspectos visuais que o filme se destaca. Divido-os em três: a atuação, a cinematografia e a direção de arte.

Começando pela atuação fiquei extremamente feliz com todo a escolha de elenco. Os atores, além de parecerem visualmente com suas contrapartes em nanquim, os incarnam em sua essência, dando mais uma dimensão a esses personagens. Destaco especialmente a atuação de Takeru Sato, que já tinha me agradado bastante na trilogia de Rurouni Kenshin e que agora repete um trabalho de qualidade como Mashiro. Sua versão do personagem é séria, orgulhosa, inspirada, mas sem deixar de ser um adolescente. A maneira como ele consegue oscilar entre as cenas de surto de felicidade adolescente para as de tom mais pesado e emocionalmente carregada é apaixonante. Sua performance no momento em que Mashiro e Eiji se encontram na cena de clímax do filme é de arrepiar a espinha. Dá pra sentir a dor do personagem, suas dúvidas, inseguranças, mas também sua garra, determinação e orgulho.

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Repito que gostei de todo o elenco, mas o Mashiro, por sua complexidade e protagonismo nesse filme, possibilitam ao ator um maior campo de trabalho e, consequentemente, de destaque.

Já no campo da cinematografia vemos o diretor optar por planos mais fechados e com pequena profundidade de campo. Esse estilo faz com que o espectador fique mais envolvido com aqueles personagens e com as situações por eles vivida — servindo como palco perfeito para fazer as boas atuações mencionadas acima brilharem. Nós vemos de perto os personagens sofrerem, suarem e se sujarem. Participamos de seus sentimentos e isso colabora para um maior impacto de suas conquistas e derrotas.bakuman_filme_review_06

A direção de arte vem para dar vida e cor a essa ideia. Ohba e Obata conseguiram fazer um mangá de batalha onde as lutas não se resolvem com contato físico. São duelos artistico-intelectuais que conseguiram ficar muito bem representados naquela mídia mas que apresentavam um verdadeiro desafio para a equipe do filme. Como fazer ver alguém desenhando ser algo excitante, interessante, frenético e empolgante? Vejam o filme para saber pois eles conseguiram. Através do uso de projeções e de computação gráfica e de uma montagem dinâmica nós vemos as páginas voarem das mãos de Mashiro e Takagi. A presença de inúmeras imagens de mangás reais e de artes originais feitas pelo próprio Obata para ilustrar o filme nos deixam ainda mais imersos naquele universo. Nós sentimos a intensidade de cada traço, acompanhado por um design de som minucioso e muito bem encaixado. É extremamente satisfatório ouvir o som tão claro da pena deslizando sobre o papel.

Ohne não poupa esforços para retratar essa energia vinda dessas batalhas. Tanto que quando chega a hora da “batalha final” ele não hesita em preparar toda uma alegoria que, embora alguns possam ter achado meio too much, pessoalmente achei genial.

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Os finalmentes

O filme de BAKUMAN é uma verdadeira carta de amor aos mangás. Dá pra ver o esmero e a paixão por trás do filme, por trás dos cenários, das referências. Fãs do mangá original podem ficar um pouco chateados com a pouca atenção aos personagens secundários e/ou à maior vilanização do Eiji, mas não podem dizer que o filme ofende, ou renega o que Ohba e Obata fizeram, ainda mais com os próprios tendo participação em sua elaboração. Em meio a tantas adaptações de mangá/anime que tentam ficar o mais identico possível à obra original que acabam falhando em sua transição para a nova mídia, é bom vermos filmes como BAKUMAN buscando funcionar tanto isoladamente, quanto em conjunto com seu original. O filme funciona como filme. Não precisa do mangá, do anime ou até mesmo de uma continuação.

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Sobre Diogo Prado

Tradutor, professor, host do Anikencast, apaixonado por quadrinhos, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

Você pode me achar no twitter em @didcart.

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