BEDA #19 – Droga, estou atrasado… para a escola

Se você assiste anime há algum tempo provavelmente já se deparou com alguma cena onde o personagem principal acorda mais tarde do que devia, bota rapidamente uma fatia de pão com geleia ou manteiga na boca e sai correndo para não perder a hora do compromisso, normalmente a escola. Esse clichê, que resiste bravamente ao teste do tempo, está presente nos mais variados gêneros de anime e tem muito mais para nos dizer do que pode aparentar.

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É difícil precisar quem foi o primeiro personagem a se encaixar nessa situação, mas muitos apontam para Amuro que no primeiro episódio de Mobile Suit Gundam (1979) dirige atrasado enquanto come um sanduíche. Naquela cena, nós podemos ver de maneira rápida e direta como é a rotina diária de Amuro antes do chamado para a aventura e ainda conhecemos Fraw, amiga de Amuro e coadjuvante recorrente da série. Foi uma forma inteligente e rápida de nos situar no mundo comum do personagem antes dele ser completamente alterado pelos acontecimentos que se seguiam.

Desde então outros animes começaram a usar dessa estratégia para introduzir seus personagens e mostrar um pouco de suas personalidades logo de cara. Com o passar do tempo, esse clichê ficou bastante associado aos shoujo, muito provavelmente após o sucesso de Sailor Moon (1992), e foi acrescido de uma outra conotação: o de estabelecer a personagem (agora, em sua maioria, garotas) como “bonitinhas, mas desajeitadas”. Existe até um termo em japonês para esse tipo de personalidade, dojikko.

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Sendo as dojikko vistas como arquétipos corriqueiros do que conhecemos como personagens moe, era esperado vermos que muitos animes o colocariam lado a lado com cenas fanservice. Sair correndo pelas ruas de maneira desajeitada é prato cheio para um personagem esbarrar na menina que ele é apaixonadinho e cair por cima delas com as mãos sobre seu peito (tipo de cena que, inclusive, também virou clichê). Ou, no caso de personagens femininas, ao correrem, pularem, etc, sem se preocupar muito com as aparências, é possível termos cenas que mostram a calcinha da personagem (novamente algo que também virou clichê com o tempo).

Porém, não só para fanservice servem essas esbarradas. Como vimos lá no caso de Amuro em Gundam, é durante esses momentos de correria que muitos personagens esbarram em outros e, assim, estes outros são apresentados ao espectador. Pode ser que seja uma esbarrada rápida ou uma esbarrada demorada, mas pode ter certeza que se um personagem foi esbarrado no início de alguma série, é certo que ele vai aparecer depois. Seja como amigo ou inimigo.

Esse clichê se tornou tão comum nos animes que paródias começaram a surgir por todo o lado e se tornaram, muitas vezes, fonte de piadas de autorreferência que, muitas vezes, não fazem tanto sentido assim para quem não está tão acostumado. Hoje, não dá pra não ver uma torrada em um anime sem pensar que vai ter um personagem saindo atrasado com ela pendurada na boca de tão intrínseco que isso se tornou.

Eu sempre fiquei pensando em o que motivou essa elevada popularidade do clichê de “estou atrasado para a escola com uma torrada pendurada na boca”. Muitos apontam o fato de que comer em público (mais especificamente na rua, não em restaurantes, por exemplo) não é visto com bons olhos, mas eu tendo a focar mais no aspecto do atrasado mesmo.

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Sabemos que o Japão é um país bastante preocupado com o tempo. O transporte público lá é cuidadosamente cronometrado para evitar atrasos por menores que sejam. Há pouca tolerância com atrasos. Se você chegar atrasado na escola, por exemplo, já era. Você fica manchado com os professores e os outros alunos tiram sarro de você. Se levarmos isso para o meio profissional, tudo se torna ainda mais rigoroso.

Ao mostrarem, então, personagens atrasados, nós não só temos a construção de uma situação cômica, como também somos apresentados a um personagem com falhas, que comete erros, é dorminhoco, etc. Isso ajuda a nos dar a base para seu desenvolvimento posterior.

É interessante vermos como muitas vezes clichês que tomamos como apenas clichês podem acabar nos dizendo tanta coisa sobre os personagens e podem ajudar tanto em roteiros. Sim, ainda continua sendo algo bobo e que as vezes é usado sem todos esses propósitos que mostrei acima, mas ainda sim não se tornam menos interessantes.


Papo #BEDA

Se você é um leitor atento sabe que eu fiz esse post justamente porque eu atrasei… E MUITO… com o BEDA. Era para eu estar postando o #26 e ainda estou no #19. Infelizmente o feriado mais atrapalhou do que ajudou no agenda do BEDA e eu não consegui escrever, literalmente, nada nos últimos dias. Mas pelo menos esse atraso possibilitou esse post que talvez, sob outras circunstâncias, eu não tivesse pensado em escrever.

Não posso prometer para vocês que conseguirei, até o final do mês, colocar no ar todos os 30 posts programados para o BEDA, mas farei o meu melhor! Já peço desculpas de antemão e espero que vocês continuem curtindo os posts até o final de Abril.

Sobre Diogo Prado

Tradutor, podcaster, jornalista, amante de cinema, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

Você pode me achar no twitter em @didcart.

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