BEDA #14 – A questão da pirataria de animes

Esses dias comentei chateado no twitter que um anime X tinha sido licenciado pela Funimation, que (ainda) não tem representante legal distribuindo seus animes no Brasil. Para minha surpresa, muitos reagiram com espanto não entendo qual seria o problema. Afinal, “era só baixar”… é, pois é… é aí que está o problema.

É seguro afirmar que nossa comunidade de fãs de anime sempre cresceu aliada à pirataria. Mesmo na época em que ainda tínhamos animes passando na TV aberta, eles não eram suficientes. As pessoas que queriam mais precisavam buscar fontes alternativas. Naquele tempo essas fontes eram grupos que faziam cópias de fitas VHS gravadas da TV japonesa, colocavam uma legenda em cima e vendiam através do telefone e/ou por e-mail (no início da internet discada). Elas não eram baratas, demoravam pra chegar e só continham um número bem limitado de episódios por fita. Lembro como era comum copiarmos as fitas entre nosso grupo de amigos ou dividirmos os custos para poder comprar mais episódios ou mais séries. Porém, por causa da dificuldade de acesso a essas fitas, a comunidade animística ainda era muito pequena e fechada. Nicho do nicho.

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Foi com a popularização do acesso a internet (ainda discada) e dos programas de compartilhamento de arquivos (como o emule e o mIRC) que nossa comunidade viu seu primeiro boom. Agora era possível ter acesso a um catálogo bem variado (em comparação com o que existia antes), sem custo algum (isso se você baixasse os animes na madrugada porque senão tua conta de telefone viria custando o preço de um carro zero) e ainda não só em português como em inglês também. Sim, demorava para conseguirmos baixar um episódio em RMVB xexelento. Provavelmente gastávamos uma madrugada inteira pra baixar 2-3 episódios, mas valia a pena pois na manhã seguinte eles estariam fresquinhos lá para assistirmos.

Conforme a qualidade da internet foi melhorando, principalmente com a chegada da banda larga, nosso acesso ao download de animes foi aumentando e aumentando. Para facilitar a vida de quem baixava, foram criados vários sites que serviam como centrais de distribuição de animes. Eles hospedavam os arquivos em servidores próprios e disponibilizavam um link para quem quisesse baixar. Eram mais fáceis de mexer do que os programas de compartilhamento de arquivos e ainda tinham catálogos enormes de séries. Eu mesmo conheci muitos animes nesses sites. Afinal, tu tava baixando um anime aqui e porque não dar uma olhada nos outros que tão disponíveis, não é? Agora a conta no final do mês viria mesma então eu baixava o que me desse na telha.

A qualidade dos arquivos foi melhorando também. Passamos dos RMVB toscos para os AVI em 480p (que para nós era a MAIOR ALTA DEFINIÇÃO DOS UNIVERSOS) e, com eles, vieram os famosos DVDs piratas. Com capacidade de comportar muito mais episódios do que as finadas fitas VHS e em qualidade muito melhor, esses DVDs ficaram extremamente populares e foram sim grandes responsáveis por fazer a comunidade crescer estupidamente. Numa época em que as pessoas iam nas barraquinhas comprar seus jogos piratas, por que não levar um anime também, não é? Muita gente conheceu animes por causa desses DVDs. Eles eram vendidos em eventos, camelôs e até em lojas físicas mesmo! Lembro de uma enorme na Liberdade (SP) que tinha prateleiras e mais prateleiras abarrotadas de produtos piratas. Esses DVDs de anime deram “tão certo” que até hoje… sim, até HOJE, tem gente vendendo e comprando!

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Dessa época pra cá, muita coisa mudou, tanto em matéria de acesso à pirataria como acesso a meios legais, mas para a comunidade animística a pirataria nunca foi vista como algo errado. Era sempre vista como um trabalho de fã pra fã. Um direito que todo fã de anime tem de poder ter seus animes a hora que quiser, quando quiser e sem ter que pagar nada a alguém (a não ser comprar DVD pirata…). Até hoje esse pensamento continua entranhado em muita gente e é difícil tentar mostrar para essas pessoas que o certo, na verdade, são os meios legalizados. Voltamos aí na historinha que contei para introduzir esse post. Mesmo hoje tendo meios oficiais para assistimos nossos animes, muita gente simplesmente acha que o “certo” é baixar ilegalmente.

Eu sei que há circunstâncias em que a pessoa realmente não pode comprar o produto original. Não serei hipócrita aqui para defender a causa da legalidade. Todo fã de anime tem culpa no cartório. Todo mundo já baixou ou ainda baixa animes ilegalmente. E sei também que muitas vezes nem tudo está disponível, por exemplo, no Crunchyroll pra podermos assistir de maneira oficial e que isso nos “força” a procurarmos meios alternativos. Cada um tem seus motivos para ir para a pirataria. O que não é legal é essa ideia de que o “errado” é o oficial e o “certo” é o pirata. É esse tipo de mentalidade que tem que mudar e que está mudando (ainda que em passos mais lentos do que o desejado).

Por isso, eu fico triste sim quando não vejo um anime vindo de forma legal para o Brasil. Por isso eu incentivo as pessoas a assinarem o Crunchyroll, o Netflix, etc. Recentemente fiz até um Anikencast falando da importância do streaming e de como ele pode influenciar positivamente a indústria dos animes como um todo. Tivemos, depois na notícia da parceria do Netflix com a Production I.G. comentada no podcast, a notícia da parceria entre o Crunchyroll e a Kadokawa! Hoje, nós podemos colaborar com o mercado de animes como nunca antes. Hoje, podemos até influenciar o suficiente para que estúdios japoneses façam segundas temporadas de séries que por lá não fizeram tanto sucesso!

Eu quero que mais e mais empresas invistam em nosso mercado trazendo animes em excelente qualidade, com facilidade de acesso e bom preço. Porque ir para a pirataria é errado em sua essência. Não vou condenar quem o faz. Como disse, cada um tem seus motivos. Mas faça sabendo que está fazendo algo errado e sabendo que pode ter uma maneira oficial para assistir a um clique de distância.

Como sei que nem todo mundo concorda comigo, sintam-se livres para irem nos comentários discordar ou concordar! O importante é debatermos esse assunto tão intrínseco do nosso mercado e da nossa comunidade de fãs de anime.

Sobre Diogo Prado

Tradutor, podcaster, jornalista, amante de cinema, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

Você pode me achar no twitter em @didcart.

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