O papel das crianças em Gundam Iron-Blooded Orphans

Nós estamos nos aproximando do final da primeira temporada de Gundam: Iron-Blooded Orphans  e durante boa parte dela uma coisa que me chamou muito a atenção é como a série lida com o fato de seus protagonistas e de uma boa parcela dos demais personagens serem crianças. Embora outras séries Gundam já tenham apresentado protagonistas e personagens bem jovens, como o próprio Amuro (15-16) no primeiro Mobile Suit Gundam, ou o Setsuna (16) de Mobile Suit Gundam 00, em Iron-Blooded Orphans foi a primeira vez em que senti que esses personagens estavam sendo representados e tratados realmente como crianças, o que num contexto de guerra e exploração não é a melhor posição para se estar em. Estamos falando de um mundo onde “adultos, sem o menor escrúpulo, exploram crianças para proveito próprio” (review do epi. 13 no ANN).

Exemplos dessa situação já aparecem desde o primeiro episódio, onde conhecemos Mikazuki, Orga e os demais membros da CGS, uma organização de segurança privada que futuramente seria substituída pela Tekkadan. Essa organização contratava crianças pagando salários baixíssimos e as dando condições pífias de trabalho ao mesmo tempo que os colocavam em risco de vida constante, quase que como peças descartáveis. Algumas dessas crianças, inclusive, eram forçadas a fazer uma cirurgia para instalar o sistema Alaya-Vijnana em seus corpos, que os permitiria interagir melhor com as máquinas envolvidas em seu trabalho, mas era extremamente dolorosa e com um altíssimo risco fatalidade, além de deixar, para sempre, deformações nas costas das crianças.

Se abusos morais e físicos como esses já não fossem suficientes, dentre eles ainda existem aqueles que são considerados Human Debris, o que significa praticamente o mesmo que escravos. Crianças que desde muito jovens são negociadas em troca de dinheiro para as mais diversas pessoas e organizações. Devido aos graves traumas pelos quais passaram nessas condições, essas crianças muitas vezes nem se veem como seres humanos. Ao ponto de que, mesmo depois de “libertadas” pelo Orga das amarras que os prendiam aos adultos que as tinham comprado, elas ainda se viam como inferiores ou não dignas. O próprio Akihito demorou muito até aceitar sua condição de “homem livre”.

Gundam Tekketsu no Orphans - Kids - 01

Porém, esse mundo não é apenas cruel com as crianças das baixas classes sociais. Temos dois exemplos bem claros que essa exploração da juventude afeta também as classes mais abastadas daquele universo: A própria Kudelia, que foi usada pela própria família em uma tentativa de manobra política – manobra essa que culminaria, inclusive, com ela sendo morta – e a pequena Almiria Bauduin, que foi oferecida em casamento a McGillis, herdeiro de uma família poderosa dentro da Gjallarhorn, mesmo sendo ela ainda uma criança e ele já um adulto.

Iron-blooded Orphans se destaca nesse cenário justamente por mostras as consequências de se colocar crianças nessas situações de perigo e exploração. Tanto para elas mesmas como para a sociedade ao seu redor. A série não deixa de tratar as crianças como crianças, não são mini-adultos que de uma hora pra outra deixaram seu lado criança pra lá. Não são personagens que abandonaram sua posição, suas atitudes e suas perspectiva infantil de uma hora pra outra em prol do plot ou de sua situação. Amuro podia ser um adolescente em Mobile Suit Gundam, mas se colocassem um adulto em seu lugar, pouca seria a diferença para a história. Em Iron-blooded Orphans, os membros do Tekkadan e os demais personagens crianças são realmente crianças e são vistas e representadas como tal.

Devido às condições de sua infância, essas crianças não tem, por exemplo, nenhum senso de moral, de certo e errado e são ignorantes em diversos assuntos. Um exemplo é a Atra, por exemplo, achar ok ela ser esposa do Mikazuki junto da Kudelia pois o exemplo que ela tem de relacionamento entre marido e esposa é o Naze e seu harém particular. Também temos o exemplo do Mikazuki beijando a Kudelia não porque ele sabe que era isso que ela queria ou porque ele sabe que é assim que ele demonstra amor. Ele a beijou apenas porque viu Naze beijando a Amida e achou que deveria fazer o mesmo com a Kudelia (ps: observem também a reação dos outros membros do Tekkadan quando Naze da o beijo). São personagens infantis, que ainda conservam uma espécie de otimismo, idealismo, camaradagem e senso de invencibilidade e inconsequência que só as crianças conseguem ter.

Gundam Tekketsu no Orphans - 13 - Large 22

Uma cena que me marcou muito e que acho que representa bem essa dinâmica é a cena do funeral no episódio 13. Ali vemos crianças tendo que lidar com a perda de colegas queridos, e com a responsabilidade que tem por aquelas mortes, mas ao mesmo tempo ficam totalmente encantadas com os fogos de artifício em homenagem aos que se foram. O pensamento lúdico de uma criança ainda existe, mesmo em meio a uma realidade tão dura como a que elas tem que enfrentar.

Não nos enganemos, no entanto, em achar que a série as coloca na posição de coitadas, numa tentativa de artifício melodramático. No próprio episódio 13 somos lembrados de como essas crianças convivem com fortes sequelas psicológicas graças ao tratamento desumano. O motivo pelo funeral foi, justamente, por uma unidade do Tekkadan ter tratado um grupo de crianças da nave inimiga como sendo inocentes, como coitadinhos, indefesos. Tal atitude teve um alto preço pois essas crianças não hesitaram em atirar primeiro.

Em Mobile Suit Gundam: Iron-blooded Orphans, nós vemos crianças sendo crianças, ainda que em uma situação que as forçam a crescer mais rápido do que deveriam e a tomar responsabilidades “adultas” em um mundo de adultos e como isso afeta suas vidas e das demais pessoas ao seu redor. Esse grupo de crianças tenta remar contra a maré de um mundo onde adultos exploram crianças sem dó e mostrar que, embora crianças – ignorantes e as vezes exageradamente otimistas – elas merecem ser respeitadas. Elas lutam pelo seu lugar em um mundo onde ou são tratadas como descartáveis por serem crianças ou com descrédito também por serem crianças. A maneira como a série trata essas questões, sem querer suavizar ou explorar demais a crueldade seja talvez sua principal qualidade. Elas sabem que estão enfrentando uma batalha muito maior do que elas, mas estão ali porque querem, para mostrar seu valor. Elas reconhecem as dificuldades da situação e as encaram de frente e, na boa, só posso dizer que tá legal pra caramba acompanhar tudo isso.

Sobre Diogo Prado

Jornalista, tradutor, podcaster, amante de cinema, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

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Nós estamos nos aproximando do final da primeira temporada de […]

  • André Alves

    Ainda acho Victory melhor nesse sentido, mas o que me agrada em IBO é como abordaram o tema. Ao invés se seguir o modus operandi da franquia, me parece que os roteiristas buscaram de fato um certo “realismo” nessa questão das crianças na guerra. É quase como se esse fosse o “Beast of no Nation” de Gundam. Ótimo texto. Só discordo da parte onde você fala que se Amuro fosse um adulto, a história seria a mesma. A ótica dos fatos mudaria bastante se ele fosse adulto.

    • didcart

      Eu ainda acho que se o Amuro fosse um adulto nas mesmas circunstâncias em que ele se encontrava no início da série, a história poderia tranquilamente ser as mesmas. As atitudes e reações dele, por exemplo, se o personagem fosse adulto, não ficariam sem sentido, ou, no máximo, não tão sem sentido.