Review: Usagi Drop #01

usagi4Pelo menos para mim, os últimos anos têm sido muito satisfatórios quanto a novos mangás sendo lançados aqui no Brasil, tantos títulos interessantes que às vezes até pesa no bolso. Entre eles, obras verdadeiramente espetaculares como 20th Century Boys, Monster, Genshiken – que ao fim de cada volume, vem a intensa ansiedade em ler o seguinte, sem tempo de se preocupar com os gastos.

É maravilhoso que venham títulos dos mais diversos, mas não nego que há dentro de mim aquele sentimento purista gritando “se for para trazer, que seja uma obra-prima!”. Pois bem, Usagi Drop pode não ser do gosto de qualquer um (ainda mais levando em conta o final do mangá…), mas sem dúvida alguma me proporcionou uma satisfação especial, desde a primeira página até a última deste primeiro volume. Limitando-me apenas ao catálogo das nossas editoras, o josei foi um dos poucos que no momento em que o tive em mãos, soube que seria um dos melhores mangás lançados aqui.

A história de Usagi Drop já começa em um velório. O clima entre os parentes é pesado, não apenas pela perda do avô da família, mas principalmente por este ter deixado para trás uma filha bastarda, desconhecida até então. Daikichi, o neto do falecido, se surpreende quando os demais adultos consideram deixar a pequena Rin em um orfanato e, movido pelo impulso e já alguma simpatia pela garotinha, assume a responsabilidade sobre ela. Solteiro, com apenas 30 anos e nenhuma experiência com crianças (além de muito pouca com mulheres em geral), Daikichi precisará se virar para cuidar de sua “tia” Rin, de 6 anos de idade.

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Como a pessoa extremamente “família” que sou, obviamente a sinopse do mangá já foi mais que o suficiente para me deixar ansiosa com o lançamento. Atendendo às minhas altas expectativas, cada página transbordava sensibilidade, representando pessoas e relações familiares como de fato são: muito delicadas. Cada atitude e fala refletem em todos, gerando sentimentos por vezes pesados e difíceis de lidar, problematizando ainda mais o relacionamento entre as pessoas.

Indo contra a frieza de seus parentes ao assumir os cuidados da menina, Daikichi já começa a conquistar o leitor, mas tenho a opinião de que a autora foi especialmente feliz quando o coloca refletindo sobre a questão negativamente, assim como os demais. Reconhecendo o escândalo associado ao fato de que Rin seja filha de seu avô, abandonada na casa sem que ninguém suspeite quem seja sua mãe, Daikichi compreende que ele é capaz de perdoar o falecido, mas se questiona se teria a mesma postura se a criança fosse filha de seu pai. Para muitos pode ter sido apenas uma cena, mas eu enxerguei nesse momento uma humanidade ímpar, mostrando o quão nossos sentimentos são relativos e que se não olharmos sob outras perspectivas, não há como compreender as pessoas a nossa volta.

Satisfeita com o protagonista que é de fato capaz de agir como um adulto, assim como com o retrato bem verossímil dos parentes mais velhos, não menos devia esperar da pequena Rin. À princípio bem calada, ela logo se apega a Daikichi, o único adulto no velório que demonstra se importar com seus sentimentos. Por sinal, outro detalhe que me agradou muito foi ele ter perguntado a ela diretamente se gostaria de ir morar com ele, ao invés de somente carregá-la consigo para casa. Não foi sem motivo que ela aceitou, nem por menos que tenham se acostumado um com o outro rapidamente.

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Por sinal, não é de se admirar que tantas pessoas se apaixonem por essa primeira parte do mangá – a convivência diária de ambos é realmente adorável, me deixou ainda mais consciente da ansiedade que tenho em ser mãe! rs  Rin é como toda criança: precisa de roupas, refeições decentes, escola (no caso, maternal) e todo cuidado de um responsável dedicado, missão que o Daikichi encarna até mais do que esperava ver. Como ele mesmo disse (para si): “Dizer agora que ‘isto não é um sacrifício’, vai parecer mentira. Por isso, gostaria de pensar assim daqui a alguns anos.” Muito fofo ou muito fofo?

Não se limitando a focar em apenas um dos lados, Usagi Drop expõe a todo momento o quanto um influenciou na vida do outro, abordando vários temas – alguns divertidos, outros complicados. Apenas citando dois exemplos, gostei muito de ver a percepção infantil sobre morte sendo explorada além do dia do enterro do vovô, em vez de colocar uma pedra no assunto porque ela agora tinha o Daikichi, “então já está tudo bem”. Também achei sensacional como a autora coloca ele olhando mais para si mesmo, se preocupando com sua saúde e sinais de que já não é mais um rapazinho, exatamente porque tem uma criança para cuidar. Ambos são personagens muito sensíveis e humanos, do tipo que se imagina vivendo como nós, que com certeza tem muito a oferecer um para o outro e uma história incrível para construir. Usagi Drop, sem sombra de dúvidas, extremamente recomendado!

Sobre Clara

Sou apaixonada por quadrinhos desde que me entendo por gente, mas desenhar tem espaço no meu coração há mais tempo ainda. Nas horas vagas, costumo ler, assistir anime e fingir que toco piano. Quando não estou tendo pesadelos, estou sonhando com as figures que nunca terei. </3

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