Do simples bem executado ao complexo mal executado – O mangá de Usagi Drop

No post anterior falei sobre o fim do anime de Usagi Drop e como eu tinha ficado satisfeito com ele. Porém, enquanto assistia a série, eu acabei recebendo a informação de que o mangá seguia uma trajetória um tanto controversa e isso estava revoltando muitas pessoas que assistiam à série animada. Fiquei curioso, mas me segurei, para tentar enxergar o anime da forma menos influenciada possível por uma possível mudança no roteiro. Consegui chegar ao final da série sem um spoiler sequer, tirando uma capa do mangá em que vi a Rin crescida. Minha experiência com o anime ficará marcada, com certeza. Porém, assim que acabei de ver o último episódio, peguei o mangá pra ler.

Se você se importa com spoilers, recomenda-se que você leia o mangá antes de continuar a ler.

Durante a madrugada varei os 9 volumes de ponta a ponta. Ansioso estava eu para descobrir o que me esperava após o fim do que o anime contou.

Até o volume 4, estava tudo muito bem. Idêntico ao anime, poderia dizer. Pouca coisa na personalidade dos personagens e nas situações foi modificado. As maiores modificações no anime foram em fator de uma melhoria narrativa para o novo veículo. Porém, foi no volume 5 que tudo começou a mudar.

Desde que eu vi o levante popular contra o final do mangá e quando vi a capa da Rin crescida, a minha primeira hipotese foi a de que a autora tinha resolvido colocar um “temperinho” na relação de Rin e Daikichi num sentido além do “pai e filha”. Então, ao receber a confirmação dessa hipótese não fiquei surpreso. Digo até que foi muito corajoso por parte da autora abordar esse tema. Quem estuda psicologia sabe que muitas teorias são formuladas em torno do desejo de filhos por suas mães e filhas por seus pais.

Porém, eu fiquei com medo. Não medo pelo conteúdo e pelo possível desenvolvimento de um romance entre os dois, mas em como a autoria iria conduzir essa transição. Como ela ia mostrar a pequena e esperta Rin maturando esse sentimento pelo seu “pai adotivo”. E aí é onde está o problema da segunda fase do mangá de Usagi Drop. A autora que até então tinha em mãos uma história simples, porém bem executada, resolveu tornar a história algo maior e mais complexo, porém pecou na forma como fez.

Enquanto eu via a série, fiquei pensando como seria o futuro dos dois quando a Rin começasse a crescer. Ela é uma menina e, apesar de tudo, não é filha real do Daikichi. Seria, no mínimo, problemática a relação entre ambos e isso poderia render um monte de situações excelentes para serem exploradas. Mas parece que só eu pensei dessa maneira já que a autora resolveu simplesmente dar um salto de 10 anos na história mas mantendo o status quo de cada personagem intacto. Ela não fez nem os personagens mudarem deixando o leitor surpreso e curioso para o que havia se passado na década pulada.

Tudo que havia antes do salto continuava lá. Rin continuava uma pessoa muito esperta, Kouki era um idiota, Reina ainda era uma menina hiperativa, Daikichi continuava sendo o mesmo burro velho e a mãe do Kouki continuava solteira. Tudo pareceu tão abrupto que eu achei ter sido uma decisão editorial para o cancelamento do mangá, mas como era possível? Estávamos ainda no volume 5!

Pensei então que a autora, apesar de não ter desenvolvido a personagem durante sua adolescência, ela iria ter tempo de desenvolver a relação dela com o Daikichi… mas não aconteceu isso.

Temos três volumes de puro NADA! E digo isso porque não há mais o mote da primeira fase, que era mostrar as dificuldades do Daikichi em cuidar de uma criança, e o foco passou a ser a vida da Rin e como ela cresceu uma pessoa com sérias dificuldades de desenvolver novas relações. O que aconteceu com a Rin que entrou na creche e no primário fazendo vários amigos? O que aconteceu nesses 10 anos que a fez virar uma anti-social? Será que teve algum grande evento? Não sei… nada foi mostrado.

Até tivemos um flashback… mas um flashback só para mostrar porque a Rin não está com o Kouki. E por curiosidade, eu nunca achei que a Rin terminaria com o Kouki. Eu sempre achei que o Kouki iria tentar e tentar mas não ia conseguir. Por isso quando ela diz que não vai ficar com ele porque o enxerga como um irmão eu achei perfeitamente plausível.

O grande problema dessa segunda fase é a autora. Ela parece estar completamente perdida em que linha seguir. Parece que ela tomou uma decisão “vamos avançar o tempo”, mas não pensou em mais nada além disso. Ela simplesmente jogava coisas a esmo e via se fazia algum sentido. Como por exemplo o fato da mãe do Kouki não ter se casado com o Daikichi, isso sim algo que eu esperava. A desculpa que ela dá é completamente estúpida e improvisada. Ela não quer se envolver com o Daikichi porque não está pronta para um novo relacionamento e teme que um relacionamento entre os dois possa estragar a amizade dos filhos? E a opinião dos próprios filhos que achavam que eles tinham que ficar juntos? Não conta?

Mas tudo bem, era um mal menor frente ao desenvolvimento do relacionamento entre Rin e Daikichi… e passa volume, passa volume, passa volume e nada. Peraí… já é o último volume e não teve NENHUM desenvolvimento do romance entre os dois? Estaria eu enganado e o fim do mangá não é esse que eu supus? Não… é esse mesmo… a autora resolveu deixar para os capítulos finais a revelação, desenvolvimento e solução do romance entre os dois.

Um assunto extremamente delicado, com um potencial maior do que a própria premissa da série, foi jogado no lixo! Sem contar um dos momentos mais cretinos que eu já vi em um mangá em toda a minha vida: quando a mãe da Rin fala que o avô do Daikichi não é o pai da Rin. Caramba… há limites. A autora deve ter pensado que os leitores iriam ficar chocados com o “magnífico” (ironia, por favor) plot-twist que ela iria colocar no final do mangá que ela teve que dar uma “suavizada” falando que não existia relação de sangue entre os dois. Ela só esqueceu que isso nunca importou para a série. A relação que valia era a relação que foi criada entre eles após ele ter adotado a Rin sob seus cuidados.

Eles são parentes não por causa de sangue, mas pela circunstância de vida. Quer dizer que se uma pessoa que tem uma paixão para com a irmã e um dia descobre que a irmã foi adotada quando eles tinham 1 ano de idade passa simplesmente a ignorar o fato de que viveram a vida toda juntos como irmãos só porque alguém disse pra eles que não havia ligação de sangue?

Mas o pior de tudo, o pior de tudo mesmo, foi o que ela fez com o Daikichi. Eu gosto dele na primeira fase. O desenvolvimento de seu personagem era visível. Ele aprendia com os erros, crescia, via a vida de uma nova maneira, etc. Porém, nessa segunda fase, ele simplesmente muda de personalidade de uma hora pra outra. E quando digo de uma hora pra outra me refiro de uma página para a outra! Se em um capítulo ele diz que a Rin dizer que está apaixonada por ele é uma das coisas mais cruéis que ela poderia fazer com ele, na outra ele já está dizendo que tinha aceitado o futuro da relação deles no momento em que soube!

Minha opinião sobre a segunda fase difere bastante de algumas outras pessoas. Eu acho que ela tinha muito potencial. Dava pra ter sido bem desenvolvida e não tem porque abominar um assunto como esse sendo que é algo amplamente pesquisado por diversas linhas da psicologia. A grande questão a que me coloco extremamente crítico a é quanto a execução de tudo isso.

No anime eu insisti dizendo que a simplicidade da série era seu diferencial e seu maior valor, graças a uma execução primorosa. Na segunda fase do mangá, resolve-se aumentar a complexidade da história, algo que não é condenável, mas condena-se a boa execução, resultando num fim catastrófico para a série.

Eu não sou extremista a ponto de dizer para queimarmos os volumes da segunda fase em praça pública e pedirmos a cabeça da autora em uma bandeja. Ela cometeu erros, muitos erros, provavelmente por sua falta de experiência e pela pressão do sucesso. O que nós podemos fazer é tentar olhar o todo da obra e tirar um resultado positivo de tudo isso. Seja pelo lado lúdico e simples da primeira fase, quando dos erros da segunda fase. É importante a discussão sobre ambos esses lados. Por isso fiz questão de separar os posts em dois.

"Você não que esse mundo é muito melhor do que você esperava?"

Sobre Diogo Prado

Tradutor, professor, host do Anikencast, apaixonado por quadrinhos, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

Você pode me achar no twitter em @didcart.

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