A Dualidade do Otaku – Genshiken Cap. 61

E cá estou eu, com um atraso de mais de 10 dias, postando a respeito do último capítulo de Genshiken que saiu no final do mês passado. Apesar do carnaval ter colaborado, não foi ele o único motivo deu não ter feito esse post até agora. Quem costuma ler o blog sabe que Genshiken é uma série com a qual eu me importo bastante e antes de escrever qualquer coisa a respeito dela eu costumo pensar bastante. Porque uma vez escrito, lá ela estará. Eu posso editar, apagar, fazer o que eu quiser, mas a mensagem provavelmente já passou para umas centenas de pessoas. Mas o momento de reflexão já passou e o que eu quero agora é falar sobre Genshiken! Vamos lá…

Nesse capítulo 61, intitulado “Daydream Believer”, igual à música dos The Monkeeys, que facilmente pode ser usada como trilha sonora em sua leitura. Digo isso porque uma tradução para esse título seria “sonhar acordado” e é basicamente o que vemos Hato fazer durante uma de suas visitas à casa de Madarame para se trocar. Mas vamos deixar isso para depois e começar falando da Ogiue, que também teve uma participação nesse capítulo.

Juntamente com a Sue, ela está conversando com Yabusaki e Asada. Curiosamente, o cenário que vemos é que Yabusaki agora se considera parceira da Ogiue nos doujinshis, mesmo ela não sabendo nada a respeito disso. O motivo? Ogiue disse que estaria fazendo um doujinshi para comemorar o final de Haregan (que para os que não entenderam é uma clara referencia ao final de Hagaren, Full Metal Alchemist). O grande problema, como vimos há alguns capítulos, é que ela, além do doujinshi, tem que terminar o manuscrito para sua serialização. A capacidade para desenhar da Ogiue é incrível, mas a grande questão é sua paixão e sua “Fujoshice”. Como vemos no último quadrinho do capítulo, ela se deixa levar facilmente por sua paixão. Não sabemos quanto isso pode influenciar na sua vida profissional.

Durante a discussão, ela deixa escapar “Hato-kun”, sendo esse o sufixo para homens, Yabusaki pergunta se um homem entrou para o Genshiken dessa vez, e Ogiue imediatamente tenta remediar falando que confundiu e que é “Hato-san” mesmo, um sufixo mais genérico e inventou uma desculpa qualquer. Eles sabem do problema que será quando descobrirem quem de fato é o Hato, assunto discutido previamente em outro capítulo.

Mas é aí que Hato é introduzido no capítulo e o foco passa a ser ele. Como eu já venho falando, não sou muito fã dessa linha que Kio Shimoku está tomando ao destacar demais o Hato dentre os outros novatos, mas esse capítulo foi interessante. Foi interessante porque serviu como um bom complemento para o capítulo anterior onde o Hato revela que faz cross-dressing para poder observar o Yaoi de uma outra perspectiva. Perspectiva essa que nesse capítulo foi materializada na forma de um versão do Hato com peruca, peitos e que flutua pelada por aí acompanhando o mesmo.

Conforme Hato vai entrando no apartamento de Madarame, como de rotina, a cabeça da fantasminha explode com suas análises da situação e do possível cenário BL que estava se formando. Hato, após um banho, acaba adormecendo na cama de Madarame e quando este chega ele se sente extremamente envergonhado com a situação, muito disso derivante dos pensamentos de seu alter-ego flutuante.

Porém, Madarame consegue acalmar o rapaz e comenta o fato dessa ser a primeira vez que vê Hato vestido como homem. Para compensar a arrumação que o Hato faz costumeiramente no apartamento, Madarame decide cozinhar jantar para eles. Conversa vai, conversa bem e a cabeça de Hato começa a funcionar. Ele passa a considerar a possibilidade de que Madarame esteja realmente requerendo algo com ele e isso o perturba.

Hato então para a conversa e afirma para Madarame que não é gay. Madarame sem entender a afirmação, fica sem resposta. Quando indagado ele simplesmente fala o que pensava: BL e cross-dressing eram só o hobby de Hato e que ele em momento algum considerou a possibilidade dele ser gay. E mesmo após o Hato tendo jogado mais uma pergunta capciosa, ele simplesmente rebate com o fato de que ele não pensou em fazer com ou receber nada do Hato pois ele estava vestido como um homem. A conversa termina e Madarame está dormindo. Mesmo apesar da insistência do fantasminha para que algo aconteça, Hato se recusa, afinal ele não “joga nesse time”.

Todo esse cenário foi criado para mostrar justamente a dualidade do personagem. Como é possível alguém gostar de Yaoi da maneira que o Hato gosta e ainda afirmar que não é gay? Dá realmente pra separar esse tipo de coisa? Se encaramos o fantasminha como o sub-consciente de Hato, ele mesmo fica na dúvida se ele é ou não gay. De fato, um prato cheio para psicólogos de plantão, mas ainda mais uma discussão para o fandom no geral. Uma situação dessas é possível?

Essa situação me fez reforçar minhas esperanças na habilidade de Kio Shimoku como autor. Mesmo ainda achando que ele poderia aproveitar mais os outros personagens também, fiquei feliz com o rumo que esse “arco” com o Hato tomou. Principalmente com a cena final onde Hato esbarra numa estante e encontra as fotos da Kasukabe que o Madarame guarda. É aí que a fantasminha entra e diz que é o “tipo de moe que dá pena”. Hato então se vira e diz que ela “não entende os mistérios do coração dos homens”. É curioso pois ela é ele afinal.

Uma coisa é certa ao final de tudo isso. Kio Shimoku ainda consegue escrever histórias que nos fazem pensar e a indagarmos a nós mesmos. E e isso que eu gosto em Genshiken, o seu enorme poder de meta-linguagem e reflexão em cima de uma cultura.

Sobre Diogo Prado

Tradutor, professor, host do Anikencast, apaixonado por quadrinhos, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

Você pode me achar no twitter em @didcart.

E cá estou eu, com um atraso de mais de […]