Ano Natsu de Matteru – Conclusão

Esse post contém muitos spoilers, recomendo assistir à série antes. Garanto a qualidade, deixe para vir aqui depois de assistir.

Há poucos dias, em uma supervisão no laboratório de intervenções sociais do qual faço parte na Faculdade de Psicologia da UFAM aqui em Manaus, a professora comentava sobre o que alguns teóricos (que não vou detalhar aqui já que não é o espaço) chamam de “Evento de vida”. O que seria isso? Seriam acontecimentos onde podemos perceber claramente a mudança na vida de uma pessoa entre o antes daquele evento e o depois.

Ano Natsu de Matteru (“Waiting in the Summer” no nome ocidental oficial) conseguiu com seus 12 episódios expor de forma muito bem construída o verão de cinco adolescentes e como esse verão em especial se tornou um “evento de vida” para eles.Conforme a imagem acima mostra bem, Ano Natsu explora o clichê dos mal entendidos do amor, algo tão corriqueiro, especialmente quando estamos falando de adolescentes. Em uma sequência rápida: a tímida (e nudista, por mais paradoxal que isso seja) Mio é apaixonado pelo forte (em um sentido emocional) e alto Tetsurou. Este por sua vez só tem olhos para sua amiga de infância, a explosiva (aqui uma versão mais bem trabalhada do clichê das personalidades “tsundere”) Kanna que quase desde a primeira vez que o viu, se apaixonou pelo simples e sorridente Kaito, jovem pacato que se descobre verdadeiramente vivendo após conehcer Ichika, uma alienígena que foi parar na Terra em busca de um lugar vago em algum espaço da sua mente. Ah, claro, temos a misteriosa (e melhor personagem de todo elenco), Lemon, orbitando em torno do grupo quase como uma titereira, manipulando eventos com cordas invisíveis.

Por mais que tudo isso soe batido, Ano Natsu consegue ter sido o melhor anime da (fraca) temporada de inverno deste ano por apresentar personagens bem construídos – ainda que no limite para uma produção dessas. Aqui discordo completamente do Qwerty do blog Nahel Argama (que fez posts semanais sobre a série, verifique aqui) quando ele afirma que o anime, entre outros motivos, não conseguiu se sobressair como esperávamos antes por não conseguirmos verdadeiramente nos importar com os personagens e suas experiências. Ano Natsu, apesar da clara e sensata atenção especial para o casal “oficial” do anime, Ichika e Kaito, nunca se esqueceu de construir tanto as relações dos outros personagens entre si quanto suas características próprias, tornando fácil ao espectador se afeiçoar a cada um deles e buscar entender sua própria razão dentro daquela história toda.

Isso me ficava muito claro quando durante vários dos episódios eu pensava “O Kaito tem que ficar com a Ichika! Mas caramba, a Kanna deveria ficar com o Kaito. Porém, se isso acontecer, o que vai ser do Tetsurou?! Sem contar a Mio, silenciosamente sofrendo a cada olhadela do Tetsurou para a Kanna…Ah! Melhor ninguém ficar com ninguém para que ninguém sofra!”. A matemática não batia, três garotas (quatro com a Lemon, mas ela não conta) com dois garotos! Todas as variações de casais me soavam como um “Happy ending” e um “Bad ending” ao mesmo tempo!

E sendo Kaito e Ichika o casal “oficial” do anime, o caminho mais fácil para o estúdio J.C. Staff era colocar pequenos acidentes no caminho e ignorar o elenco secundário. Mas não, apesar da balança pender para o lado dos dois, existe um equilíbrio dentro deste grupo que nos faz olhar para cada um deles com afeição, sentindo suas tristezas, raivas, remorços e alegrias.

Mas diferente de um Ano Hana, onde as cenas nos são colocadas de uma forma onde somos obrigados a nos emocionar, causando impacto, mas deixando um sentimento de amargura na boca ao fim do choro, Ano Natsu faz isso de uma maneira bem mais “racional”. Sim, eu senti a dor da Kanna quando ela chorou no meio da estrada. Da mesma forma como tive pena do Tetsurou quando na mesma hora ele cobriu suas lágrimas. Tive as esperanças destroçadas igual a árvore que um dia marcou uma história de amor entre uma alien e um garoto (em mais uma clara homenagem a Onegai Teacher!) e que era a única esperança de Kaito e Ichika de ficarem juntos. Sim, senti tudo isso, mas tudo isso dentro da minha mente, sem precisar cair em lágrimas.

A dor estava presente. O marca na vida dos personagens também. Mas eu não precisei derrubar uma gota para sentir isso.

É óbvio que isso pode ter criado um certo desapontamento entre alguns, principalmente pela ideia quase que anunciada já no primeiro episódio de como aquele verão seria triste. O que esperávamos era uma jornada emocionante terminando em um final trágico e com toneladas de carga dramática. Ano Natsu, entretanto, entrega o que prometeu, mas ao invés de usar os sentimentos dos personagens como a última carta na manga, dilui tudo durante aquele verão, construindo um drama romântico que há muito tempo eu não via em um anime.

Sendo para mim o melhor anime do estúdio J. C. Staff em pelo menos três anos (desde o outro bom romance Aoi Hana [malditos animes com nomes parecidos], ainda que Ano Natsu seja melhor), posso concluir dizendo que não só Ano Natsu de Matteru conseguiu ser muito mais do que uma homenagem ao clássico Onegai Teacher!, mas isoladamente ficará marcado como uma bela obra, seja por um roteiro que diverte e emociona nas horas certas, seja por uma arte linda, utilizando como poucas o uso das sombras naturais que ajudam a envolver ainda mais o espectador, seja pelos personagens que com suas particularidades – ainda que rasos, algo que está longe de ser um defeito aqui, afinal estavam ali para um único propósito.

E antes de terminar esse post, gostaria de comentar um pouco sobre duas cenas que provavelmente ficarão marcadas entre as mais românticas dos animes que eu assisti:

- O beijo entre Ichika e Kaito, inesperadamente surgindo no nono episódio. Podem falar o que quiserem de Ano Natsu, até mesmo dizer que é ruim (algo que acho difícil, mas sempre tem quem não goste e eu respeito, sem entender, mas respeito), mas é impossível dizer que esta cena não é de um romantismo ímpar. Do momento para que ela ocorra até o humor sensível e perfeitamente bem encaixado de Ichika ao dar seu quinto beijo, o primeiro de Kaito, tudo faz com que mesmo revendo a cena para escrever este post eu volte a me arrepiar.

- No meio da “luta final” o casal principal tem uma cena me particular onde o mundo parece parar para que ambos possam fazer pequenas juras de amor, coisas bobas, mas que fazem do amor e dos relacionamentos coisas tão especiais. No silêncio do vagão vazio de um velho trem, Kaito e Ichika esquecem do mundo “lá fora” para se deixarem se envolver por esse sentimento, dando a essa cena uma beleza única.

Apesar do possuir um final mais idealista e “bonitinho”, Ano Natsu conseguiu ser uma ótima obra sobre como as pessoas crescem a partir da dor. O verão que os personagens esperavam e que marcou suas vidas foi o verão onde eles aprenderam que nem tudo é sol, mas que as dores fazem parte da vida e que o tempo pode cuidar delas.

Amar é preciso, sofrer faz parte, mas viver é inevitável.

Se você não viu ainda e gosta desse tipo de obra, Ano Natsu certamente irá lhe agradar. Eu já estou quase revendo o anime aqui.

PS: Esse post ficou grande, mas ainda teria muitos outros comentários a fazer da série, principalmente sobre a Lemon, minha personagem favorito e que acabei só citando aqui. Mas vou deixar para vocês deixarem nos comentários outros detalhes e vamos discutindo por lá.